100 anos de Lumumba: ‘Patrice amou tanto o Congo, que morreu por ele’, diz filha de líder congolês

Juliana Lumumba recebeu a Alma Preta em sua casa e compartilhou sua avaliação sobre o cenário político da RD Congo: "Falta clareza de objetivos para o país".

Juliana Lumumba admira o quadro do pai, Patrice Lumumba, na casa da família, no Boulevard 30 de Junho, em Kinshasa.
— Pedro Borges/Alma Preta

Por Pedro Borges, Alma Preta.

O intelectual e político Patrice Lumumba, um dos principais responsáveis pela libertação do povo congolês da colonização belga, completaria 100 anos nesta quarta-feira (2). Herói nacional, ele ainda é muito presente no cotidiano de Kinshasa, capital da República Democrática do Congo (RDC), mesmo após 64 anos de sua morte.

No caminho do aeroporto para o centro da cidade, é possível ver o mausoléu e uma estátua de 21 metros de altura de Lumumba, que acena para as casas da região e os carros e motos que circulam pelas avenidas do entorno.

O ex-primeiro-ministro dá nome a uma universidade e a uma das avenidas mais importantes de Kinshasa. Seu rosto também está em grafites nos muros.

Seu assassinato aconteceu em 1961, mas ele se mantém presente na política congolesa, a ponto de existirem aqueles que se reivindicam como “lumumbistas”.

Um dos principais pan-africanistas, Lumumba faz parte da história do movimento surgido no século XX, com nomes importantes da diáspora africana, caso de W. E. B. Du Bois (1868-1963) e Marcus Garvey (1887-1940), e líderes africanos, como Kwame Nkrumah (1909-1972). Cada um à sua maneira, eles defendiam a maior união entre pessoas negras no mundo e a defesa de seus direitos.

Uma das pessoas que carrega o legado de Patrice é sua filha, Juliana Lumumba, de 70 anos. Ela foi ministra de cultura e da educação do país durante a gestão de Laurent Désiré Kabila (1997-2001), outro ícone da política congolesa.

A herdeira de Patrice recebeu a Alma Preta para esta entrevista na casa da família, situada no Boulevard 30 de Junho, a principal avenida de Kinshasa.

A residência tem um grande portão de ferro preto, com detalhes em amarelo, e fica do outro lado do cemitério de Gombe, área nobre do município.

Fachada da residência da família Lumumba, em Kinshasa. Pedro Borges/Alma Preta.

A casa tem sofás e cadeiras confortáveis, espaçados entre eles. Os móveis são observados por quadros e esculturas do líder pan-africanista, presente em todos os cantos da residência.

A presença única de Juliana na sala fazia o cômodo parecer ainda maior. O quintal contava com um único trabalhador, um carro estacionado na lateral, e uma área ora verde, ora cinza por conta das pedras do chão.

Orgulhosa de ser a filha que costuma aparecer no colo do pai nas fotos, Juliana destaca o legado deixado por Patrice para a luta do povo congolês.

“Patrice Lumumba estava olhando para a independência, estava falando sobre dignidade. Ele estava falando sobre o Pan-Africanismo e [a República Democrática do] Congo ser o centro disso”, afirmou.

Projeto de Lumumba foi interrompido

Lumumba foi um dos protagonistas da independência congolesa em 1960, uma derrota para os belgas, que tinham no país da África Central a sua maior colônia no continente, importante produtora de látex.

Juliana Lumumba acredita que o pai tinha a capacidade de aproximar todo o país, independente das diferenças regionais e étnicas da RDC. Hoje, a nação enfrenta conflitos étnicos, principalmente no leste do país, seja nas províncias de Ituri, Kivu do Norte, Kivu do Sul ou Tanganyika.

Foto de retrato de Juliana no colo de Patrice Lumumba quando criança, com os irmãos. Pedro Borges/Alma Preta.

“Lumumba era contra o tribalismo, o racismo ou qualquer preconceito. Ele acreditava que se algum país estivesse sob o colonialismo, nós tínhamos que lutar”, relembra.

O projeto de país construído com o protagonismo de Lumumba foi interrompido por um golpe de Estado. A ação foi orquestrada por adversários políticos internos e países estrangeiros, como a Bélgica e os Estados Unidos.

O assassinato de Lumumba ocorreu em uma emboscada a tiros em uma floresta próxima da cidade de Lubumbashi, na província de Katanga. Ele teve o seu corpo desmembrado e depois jogado no ácido. Um policial belga retirou um dente de Lumumba como forma de troféu. O dente retornou para o país em 2022, depois de Juliana Lumumba escrever uma carta com o pedido para o rei Filipe, da Bélgica, em 2020.

O então chefe das forças armadas, Joseph Mobutu, foi peça central para o golpe. Depois do assassinato de Lumumba, Mobutu assumiu a direção do país e ocupou o cargo de 1965 a 1997.

Soberania, não só independência

Juliana Lumumba afirma que o pai buscava mais do que a independência política do país. Ele estava de olho na soberania total da nação centro-africana.

“Meu pai acreditava que a gente precisava de uma real independência, não só política. Por isso ele lutou pela independência econômica e pela dignidade da pessoa negra”, afirmou.

Para ela, Patrice Lumumba foi morto por sua entrega total ao país. “‘Eu sou congolês e eu sou orgulhoso’. Era isso o que ele tinha, orgulho. E ele inspirava os demais, as pessoas que morreram pelo país. E ele amou tanto esse país que morreu por ele”.

O herói congolês tinha apenas 36 anos quando foi assassinado. Sua filha até hoje lamenta sua morte e afirma que ele representava o orgulho africano.

“Ele encarnava isso: que, para ser realmente livre, a pessoa negra, o congolês, tinha que falar de igual para igual com o branco, com o colonizador”.

O colonialismo não foi destruído’

Juliana Lumumba acredita que o colonialismo, alvo de luta do pai, não foi destruído. Para ela, o fenômeno ganhou uma nova forma, o neocolonialismo.

“Naquele tempo, era mais fácil dizer quem era o inimigo. Era o colonialista, o homem branco. Era fácil ver quem era o inimigo: o belga, o português, o espanhol, o inglês. Mas agora, quem é o nosso inimigo? A multinacional? O seu irmão que é corrupto? Aquele que você luta por ele, mas está vendendo medicamentos falsos que matam pessoas?”, questiona.

Vizinhos da RDC, Ruanda e Uganda são acusados de apoiarem grupos armados no leste do país para garantir a extração de minérios do país e vender de maneira ilegal.

Relatórios da Organização das Nações Unidas (ONU) afirmam que esses grupos, como o M23, milícia de maioria tutsi apoiada pelos dois vizinhos da RDC, levam esse minério para Ruanda.

A República Democrática do Congo tem as maiores minas de coltan e cobalto do mundo, minérios fundamentais para a chamada transição energética, a mudança da fonte de energia do petróleo para baterias elétricas.

O governo da RDC entende os saques apoiados pelos países vizinhos como parte de uma estratégia global. No começo deste ano, o país acusou a Apple de comprar minérios ilegais que vêm de Ruanda. A empresa negou e suspendeu a compra de minérios dos dois países.

A pergunta é: ‘O que a RDC quer para si?’

Para Juliana Lumumba, todos os países que negociam a paz com a RDC e mesmo aqueles que a atacam têm seus interesses políticos e econômicos nítidos. Ela sente que falta essa clareza de objetivos por parte do seu país.

“O problema é que há um grande interesse e nós somos muito ricos para ficarmos sozinhos. Para mim, enquanto não estiver claro o que queremos como congoleses, o que está errado, o que está certo, onde machuca, não vai dar certo. Todo mundo tem interesse, isso é normal. Os americanos, os cataris… Mas o que nós queremos enquanto congoleses?”, questiona.

Ruanda e a República Democrática do Congo assinaram um acordo de paz no dia 27 de junho, sexta-feira. Sob a mediação dos EUA, que garantiu acesso privilegiado aos minerais congoleses, o tratado não envolveu o grupo armado M23, responsável pela invasão de Goma e Bukavu, capitais do Kivu do Norte e do Kivu do Sul.

A expectativa é de que o Catar faça a mediação para um acordo entre a RDC e o M23.

‘A gente precisa dos nossos próprios meios’

Juliana Lumumba acredita que os países africanos precisam construir políticas de soberania sobre os seus recursos naturais e construir

“A gente precisa ter os nossos próprios meios. Nossa própria maneira, nosso ouro, diamante. Hoje eles vêm e pegam o quiserem”, afirma.

Ela avalia que ainda existe uma divisão internacional do trabalho entre os países que coloca os africanos como aqueles que oferecem a matéria-prima, enquanto outros produzem (e lucram) com a tecnologia produzida com elas.

Os EUA têm o objetivo de construir uma ferrovia, chamada de Corredor de Lobito. A meta é cortar a República Democrática do Congo e Angola e abrir uma saída para o Oceano Atlântico, escoando minerais das duas nações.

“A economia mesmo, a nossa economia como africanos, está nas mãos de outras pessoas. Nós não estamos realmente em posse da nossa própria economia”, lamenta.

Pedro Borges é cofundador, editor-chefe da Alma Preta. Formado pela UNESP, Pedro Borges compôs a equipe do Profissão Repórter e é coautor do livro “AI-5 50 ANOS – Ainda não terminou de acabar”, vencedor do Prêmio Jabuti em 2020 na categoria Artes.


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