Por Camilo Rengifo Marín.
Em meio a acusações de corrupção e ameaças contra seus opositores de levá-los à prisão, o presidente eleito da Colômbia, o ultradireitista Abelardo de la Espriella, anunciou também a criação de comandos urbanos para reprimir e perseguir os protestos sociais.
Nunca antes uma transição de governo havia sido tão traumática na Colômbia quanto a que o país vive atualmente. De la Espriella não poupou ataques ao atual presidente, o esquerdista Gustavo Petro, classificando sua administração como “o governo mais corrupto da história”, sem apresentar qualquer prova para sustentar a acusação.
Enquanto aguarda a posse, marcada para 7 de agosto, o presidente eleito passou a utilizar as redes sociais para desacreditar as reformas sociais implementadas pelo governo Petro e ameaçar seu opositor Iván Cepeda, que convocou a população a exercer a “desobediência civil pacífica para defender os avanços do país”.
Segundo De la Espriella, a proposta pretende articular esforços entre as autoridades locais de Bogotá, Medellín, Cali, Barranquilla e Bucaramanga para responder à crescente preocupação com a criminalidade urbana.
Tempos difíceis se anunciam para as colombianas e os colombianos diante das medidas anunciadas pelo futuro presidente nas áreas econômica e de segurança, dois temas que concentram a atenção da opinião pública.
A iniciativa provocou críticas de movimentos sociais e setores alternativos. Óscar Benavides, deputado eleito pela representação das comunidades negras, questionou os riscos da proposta.
“Ontem foram as Convivir; hoje são blocos de defesa para a segurança urbana. Já sabemos em que tipo de grupos paramilitares isso terminou”, afirmou.
Na avaliação de Benavides, o novo presidente pretende “nos devolver aos tempos sombrios”, quando, segundo ele, “em nome da defesa cidadã, o povo viveu rios de sangue”. Acrescentou ainda que “os amigos criminosos que ele ontem defendeu nos tribunais hoje comemoram”, em referência à atuação profissional de De la Espriella como advogado antes de vencer as eleições de 21 de junho.
Também o senador Alejandro Ocampo, do Pacto Histórico, levantou preocupações sobre um possível ressurgimento de estruturas ligadas ao paramilitarismo, recordando a experiência das Convivir em Antioquia, criadas inicialmente como cooperativas de vigilância.
“Teremos um paramilitarismo 2.0? Voltarão os Mancuso, os Cadena, os massacres, os assassinatos e os deslocamentos forçados? Que loucura criar um bloco de defesa”, declarou.
De la Espriella explicou que se recusou a reunir-se com Gustavo Petro antes da posse porque considera que “tudo nele é falsidade e artimanha” e o define como um “inimigo da pátria”.
“Vim para enfrentar, derrotar e castigar esse sujeito. Já cumpri as duas primeiras partes dessa sentença. Ele sabe que farei com que pague, dentro da lei, por todos os seus delitos, e por isso sente pânico e terror. Não me peçam, compatriotas, que seja politicamente correto”, afirmou.
Petro respondeu por meio de uma publicação na rede X, criticando a equipe de transição do presidente eleito, que, segundo ele, não compareceu às reuniões organizadas para a transferência de informações.
“Medo tiveram aqueles que abandonaram a transição porque não tinham nada a dizer e seriam televisionados. Estão assustados?”, questionou.
O atual presidente também rejeitou as ameaças de De la Espriella sobre uma eventual investigação e extradição. Disse que jamais cometeu qualquer crime e lembrou que o presidente eleito não possui competência judicial para determinar sua prisão.
“Dentro da lei, o senhor Abelardo não pode me prender porque não cometi um único delito. Abelardo não é juiz; demonstra ser um ditador ao assumir o papel dos juízes”, declarou Petro.
Além disso, classificou De la Espriella como “inimigo da pátria”, argumentando que recebeu apoio estrangeiro, entre eles do presidente estadunidense Donald Trump. Petro acrescentou que a cidadania estadunidense de De la Espriella comprometeria sua legitimidade para governar a Colômbia.
“Inimigo da pátria é quem foi eleito com apoio estrangeiro e entregou a soberania nacional”, concluiu.
Assim como Petro, o ex-candidato presidencial Iván Cepeda advertiu que De la Espriella poderá colocar os interesses dos Estados Unidos acima dos interesses colombianos. Por isso, afirmou que poderá recorrer à desobediência civil pacífica e declarou que, por enquanto, não reconhece o advogado como presidente eleito.
Cortes salariais
Embora a Colômbia tenha sido apontada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) como uma das cinco economias mais bem administradas do mundo até dezembro de 2025, De la Espriella afirma, sem apresentar argumentos, que o país caminha para a falência.
Como primeira medida, propõe reduzir em 60 trilhões de pesos — cerca de 20 bilhões de dólares — o orçamento nacional, promovendo um forte corte nos investimentos sociais, inclusive nos salários dos trabalhadores, sejam eles “abelardistas” ou “petristas”.
Essas propostas despertaram forte preocupação sobre o futuro das finanças públicas. A redução orçamentária afetaria milhares de trabalhadores dos setores público e privado e provocou convocações para mobilizações pacíficas em todo o país.
O presidente eleito também evitou qualquer encontro com Petro antes da posse. Em resposta, o atual presidente afirmou na rede X que seu sucessor é um presidente ilegítimo.
“O presidente da Colômbia não reconhece a legitimidade do governo entrante. Abelardo não venceu as eleições”, escreveu Petro, denunciando que teria ocorrido fraude no pleito de 21 de junho, supostamente organizada em Los Angeles, nos Estados Unidos, por meio de uma empresa israelense com financiamento de um conhecido advogado da Flórida.
Na mesma publicação, Petro convocou a população para um ato em 20 de julho, Dia da Independência, quando pretende despedir-se publicamente e defender as reformas sociais promovidas por seu governo.
Eleito por uma diferença de apenas um ponto percentual — um empate técnico —, De la Espriella respondeu ameaçando Iván Cepeda com prisão por defender a desobediência civil pacífica.
“Alguns malucos (Cepeda) falam de desobediência civil, que nada mais é do que primeiras linhas, bloqueios e terrorismo urbano”, afirmou.
E acrescentou:
“Qualquer ação fora da lei, venha de onde vier ou seja promovida por quem for, será enfrentada com toda a força do Estado de Direito. Que isso fique claro.”
Cepeda reiterou que reconhece formalmente a eleição de De la Espriella, mas insiste em considerá-lo um presidente “ilegítimo”.
“Meu partido, o Pacto Histórico, e os mais de 12 milhões e 700 mil votos continuarão promovendo ações pacíficas e rejeitando qualquer forma de violência”, declarou.
Enquanto isso, De la Espriella anunciou a criação do Bloco de Defesa para a Segurança Urbana, que, segundo ele, servirá para combater a extorsão, os furtos e os roubos. Especialistas em segurança, porém, alertam que a iniciativa revive o fantasma do paramilitarismo, responsável por milhares de mortos durante o período dos chamados “falsos positivos”, as execuções extrajudiciais ocorridas no país.
Camilo Rengifo Marín é economista, professor universitário colombiano e analista associado ao Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE).
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