A Bolívia atravessa uma das maiores crises políticas e sociais desde o golpe de 2019. Há mais de um mês, bloqueios de estradas, greves e mobilizações lideradas por organizações camponesas, indígenas e sindicais mantêm o país em estado de forte tensão. Enquanto o governo de Rodrigo Paz avalia mecanismos excepcionais para enfrentar os protestos, movimentos populares denunciam uma tentativa de criminalização das demandas sociais e alertam para o risco de uma escalada repressiva.
Segundo o ex-ministro da Mineração e Metalurgia da Bolívia de 2014 a 2019, César Navarro, as mobilizações não podem ser compreendidas apenas como uma reação a problemas econômicos ou à falta de diálogo entre governo e trabalhadores. Para ele, o que está em curso é uma disputa mais profunda entre dois projetos de país: de um lado, o Estado Plurinacional construído a partir da participação dos povos indígenas e dos movimentos populares; de outro, forças políticas e econômicas que buscam restaurar estruturas históricas de poder vinculadas às elites tradicionais.
A atual onda de protestos começou após a Central Operária Boliviana declarar greve geral por tempo indeterminado diante da ausência de respostas governamentais às reivindicações trabalhistas. Pouco depois, organizações camponesas aimarás e quéchuas ampliaram a mobilização por meio de bloqueios de estradas estratégicas, afetando o abastecimento de diversas cidades. A medida, segundo os dirigentes, busca pressionar o governo a ouvir setores que se sentem excluídos das decisões políticas nacionais.
Navarro destaca que a capacidade de mobilização dos povos originários está diretamente relacionada às suas formas históricas de organização. As nações aimará e quéchua mantêm estruturas comunitárias, sindicais e territoriais profundamente enraizadas em suas comunidades. As decisões sobre protestos, bloqueios e reivindicações são tomadas coletivamente por meio de assembleias, cabildos, federações camponesas e organizações regionais, o que lhes permite coordenar ações em diferentes departamentos do país ao mesmo tempo.
Segundo o ex-ministro, essas organizações não atuam apenas como sindicatos ou movimentos reivindicatórios. Elas representam comunidades inteiras e carregam uma memória política construída ao longo de décadas de luta. Navarro recorda que os povos originários passaram de uma condição de simples eleitores para a de protagonistas do Estado boliviano, especialmente após os ciclos de mobilização que culminaram nas transformações políticas do início do século XXI. Por isso, afirma que os atuais protestos expressam não apenas demandas econômicas, mas também a defesa de um projeto político e cultural construído pelos próprios povos indígenas e camponeses.
Ao mesmo tempo, cresce a pressão de setores conservadores e da extrema-direita para que o governo decrete estado de exceção e utilize as Forças Armadas para desmobilizar os protestos. Navarro afirma que a narrativa oficial tem recorrido à acusação de “narcoterrorismo” para deslegitimar os movimentos indígenas e camponeses, reproduzindo uma longa tradição de estigmatização política contra lideranças populares bolivianas.
O ex-ministro lembra que acusações semelhantes foram utilizadas ao longo das últimas décadas contra organizações cocaleras, sindicatos rurais e movimentos sociais que desafiaram o modelo econômico dominante. Na sua avaliação, a tentativa de associar as mobilizações ao crime organizado busca justificar futuras ações repressivas e enfraquecer a legitimidade das reivindicações populares perante a opinião pública.
Apesar das dificuldades provocadas pelos bloqueios e do desgaste causado pelo desabastecimento em algumas regiões, Navarro considera que a mobilização revela algo mais importante: a capacidade de reorganização do campo popular após a derrota eleitoral de 2025. Para ele, os protestos demonstram que os movimentos indígenas, camponeses e operários continuam sendo atores centrais da política boliviana e mantêm viva a memória das lutas que levaram à transformação do Estado no início do século XXI.
Na avaliação do ex-ministro, a atual resistência guarda semelhanças com processos históricos que marcaram a ascensão do movimento popular boliviano. As grandes mobilizações dos anos 1990 e 2000, incluindo as lutas pela soberania dos recursos naturais e pela Assembleia Constituinte, também nasceram da articulação entre sindicatos, comunidades indígenas e organizações territoriais. A diferença é que, agora, esses setores atuam após terem experimentado o exercício do poder estatal, o que confere uma dimensão ainda mais profunda à disputa em curso.
A grande incógnita é como o governo responderá à crise. Caso avance na adoção de medidas de exceção, o país poderá entrar em uma fase de confrontação ainda mais intensa. Navarro alerta que uma eventual repressão enfrentaria movimentos altamente organizados, distribuídos por extensas áreas rurais e com forte apoio comunitário. Para os movimentos sociais, entretanto, a mobilização atual não representa apenas resistência a políticas específicas, mas a defesa de um projeto histórico construído por décadas de organização popular. O desfecho desse conflito poderá definir não apenas o futuro do governo Rodrigo Paz, mas também os rumos da democracia boliviana nos próximos anos.
Assista à entrevista completa no vídeo abaixo
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