Jorge Majfud aponta desgaste do trumpismo e vê avanço de uma nova esquerda nos Estados Unidos

Por Tali Feld Gleiser, para Desacato.info.

As comemorações dos 250 anos da independência dos Estados Unidos ocorreram em um contexto de crescente polarização política e perda de apoio ao governo de Donald Trump. Essa é a avaliação de Jorge Majfud, escritor, ensaísta e professor uruguaio na Universidade de Jacksoville, Florida, que participou do programa Diálogo Internacional, apresentado por Atilio Borón e Paula Klachko.

Professor da Jacksonville University, na Flórida, Jorge afirmou que os eventos oficiais do 4 de Julho revelaram um cenário de esvaziamento político. Segundo ele, nem mesmo a base mais fiel do movimento MAGA (“Make America Great Again”) compareceu em peso às celebrações organizadas pela Casa Branca, evidenciando um processo de desgaste que poderá influenciar diretamente as eleições legislativas de novembro de 2026.

“O clima geral é de frustração”, resumiu o professor ao analisar o momento vivido pela sociedade estadunidense.

Na entrevista, Jorge sustentou que, salvo acontecimentos extraordinários, o Partido Republicano tende a sofrer uma derrota nas eleições de meio de mandato. Ainda assim, alertou que a estrutura institucional do país limita mudanças profundas, já que apenas parte das cadeiras do Senado estará em disputa e o sistema bipartidário continua restringindo o surgimento de alternativas políticas.

O poder dos lobbies

Grande parte da conversa concentrou-se na influência exercida pelos grupos de pressão sobre a política estadunidense. Jorge destacou o papel desempenhado pelo AIPAC, lobby que atua em defesa dos interesses de Israel em Washington.

Segundo o professor, durante décadas o AIPAC exerceu enorme capacidade de influenciar campanhas eleitorais, financiando candidatos e pressionando parlamentares por meio de um poderoso sistema de doações e articulação política. Entretanto, ele considera que esse poder começa a enfrentar resistências crescentes.

Na sua avaliação, a ofensiva israelense contra Gaza acelerou uma mudança importante na opinião pública, especialmente entre os jovens estadunidenses. O conflito contribuiu para ampliar a diferenciação entre antissionismo e antissemitismo, enfraquecendo uma narrativa que, por muitos anos, dificultou críticas às políticas do Estado de Israel dentro dos Estados Unidos.

Juventude rompe consensos

Para Jorge, uma das principais novidades do cenário político é o fortalecimento de uma nova geração de lideranças progressistas que disputa espaço dentro do próprio Partido Democrata.

Esses setores, segundo ele, recusam financiamento de grandes lobbies e defendem políticas voltadas à ampliação dos direitos sociais, à redução das desigualdades e à limitação da influência do poder econômico sobre o sistema político.

O entrevistado citou o crescimento dessas candidaturas em eleições locais como um sinal de transformação da cultura política estadunidense, sobretudo entre os eleitores mais jovens.

Durante o programa, Atilio Borón lembrou pesquisas recentes que apontam uma mudança significativa de percepção entre pessoas com menos de 35 anos, hoje mais favoráveis à presença do Estado na economia do que às políticas tradicionais de livre mercado.

Jorge ponderou que essa mudança vai além da discussão entre mercado e planejamento estatal. Segundo ele, cresce a compreensão de que a economia estadunidense jamais funcionou como um verdadeiro mercado livre, mas sempre esteve profundamente articulada aos interesses de grandes corporações e grupos econômicos.

2032 no horizonte

Embora considere que as eleições legislativas de 2026 poderão representar um duro revés para o Partido Republicano, Jorge acredita que a transformação mais profunda deverá ocorrer apenas na próxima década. Em sua avaliação, a renovação geracional ainda está em curso e precisará de mais tempo para produzir efeitos decisivos sobre a política nacional.

Segundo ele, a juventude dificilmente abandonará as mudanças de percepção construídas nos últimos anos, especialmente em relação às desigualdades sociais, ao poder dos grandes conglomerados econômicos, à influência dos lobbies e à política externa estadunidense. Por isso, considera que a eleição presidencial de 2032 poderá representar um ponto de inflexão mais significativo do que as disputas imediatas.

“O impacto maior será em 2032”, afirmou, ao defender que essa mudança de consciência tende a ser irreversível para uma parcela crescente das novas gerações.

Um sistema em disputa

Apesar de identificar sinais de mudança, o escritor evitou previsões triunfalistas. Para ele, as elites econômicas, os grandes conglomerados tecnológicos e os principais grupos de lobby continuam concentrando enorme capacidade de influência sobre o sistema político e os meios de comunicação.

Ao mesmo tempo, argumenta que essas estruturas enfrentam um desafio inédito: uma geração que questiona os consensos construídos durante décadas e demonstra menor disposição para aceitar a influência do grande capital sobre a democracia estadunidense.

Para Jorge, a disputa que se desenha vai além da alternância entre republicanos e democratas. Trata-se de um confronto entre um modelo político consolidado pelo poder corporativo e uma nova geração que reivindica maior justiça social, democratização das instituições e independência em relação aos grandes grupos econômicos. Se as eleições de 2026 poderão medir o desgaste do trumpismo, as de 2032 poderão revelar a profundidade dessa transformação histórica.

Assista à entrevista completa no vídeo abaixo:


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