GENEBRA – Os juros da dívida externa dos países em desenvolvimento aumentaram 102% na última década, reduzindo sua capacidade de financiar educação, saúde, infraestrutura e o combate às mudanças climáticas, segundo um estudo da UNCTAD divulgado nesta terça-feira, dia 16.
Somente em 2024, os países em desenvolvimento pagaram US$ 384 bilhões em juros sobre sua dívida externa, indicou o relatório da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD).
Um total de 5,5 bilhões de pessoas, 67% da população mundial, vivem nos 99 países em desenvolvimento abrangidos pelo estudo da UNCTAD sobre o impacto do aumento dos juros na disponibilidade fiscal para investimentos em desenvolvimento.
O Banco Mundial publicou um relatório no final do ano passado afirmando que, em 2024, a dívida externa combinada dos países de baixa e média renda atingiu o recorde de US$ 8,9 trilhões, dos quais 78 países, em sua maioria de baixa renda, detinham US$ 1,2 trilhão.
Nesse relatório, o banco alertou que os países em desenvolvimento pagaram US$ 741 bilhões a mais em principal e juros de sua dívida externa do que receberam em novos financiamentos entre 2022 e 2024. “Essa é a maior diferença em pelo menos 50 anos”, observou a instituição na época.
Por sua vez, a UNCTAD argumenta que reformas são necessárias e que a cooperação internacional nessa área deve ser fortalecida, visto que os países em desenvolvimento enfrentam condições de financiamento muito mais onerosas do que as economias avançadas.
À medida que os custos de empréstimo aumentam, uma proporção crescente dos recursos públicos está sendo alocada para o pagamento de juros da dívida, deixando esses recursos indisponíveis para investimentos de longo prazo, enfatiza a UNCTAD.
Segundo a agência da ONU sediada nesta cidade suíça, a pressão sobre os países em desenvolvimento ocorre em um momento em que eles precisam atender às suas crescentes necessidades de infraestrutura, fortalecer seus sistemas de educação e saúde e promover a criação de empregos.
O relatório estima que os países em desenvolvimento precisam investir US$ 4,3 trilhões adicionais por ano para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da ONU, que visam tornar o planeta mais sustentável, habitável e equitativo.
Para suprir essa lacuna, será necessário aumentar as fontes de financiamento, tanto externas quanto internas, em pelo menos um terço, segundo a UNCTAD.
No entanto, o novo financiamento externo está diminuindo e representou apenas 11% do investimento total nas economias em desenvolvimento em 2024, em comparação com 38% nos países desenvolvidos.
Os fluxos de financiamento externo para os países em desenvolvimento diminuíram 18% entre 2014 e 2024, enquanto o financiamento interno aumentou 60%.
A África recebeu apenas 10% do total dos fluxos de financiamento externo para os países em desenvolvimento, apesar de representar 22% da população mundial em desenvolvimento. A Ásia e o Pacífico atraíram mais de 70%.
O relatório da UNCTAD argumenta que a redução dos custos de financiamento liberaria recursos significativos para o desenvolvimento. A UNCTAD estima que, se os governos de 94 países em desenvolvimento pudessem contrair empréstimos às mesmas taxas de juros das economias desenvolvidas, economizariam coletivamente cerca de US$ 500 bilhões anualmente em pagamentos de juros.
O relatório argumenta que enfrentar esse desafio exigirá medidas tanto em nível nacional quanto internacional, incluindo melhor gestão da dívida, maior acesso a financiamento acessível por meio de bancos multilaterais de desenvolvimento, mecanismos aprimorados de reestruturação da dívida e reformas na arquitetura financeira global.
“Quando o financiamento é insuficiente e muito caro, promover o desenvolvimento torna-se mais difícil”, conclui a UNCTAD, que recomenda a expansão do acesso a financiamento acessível, estável e de longo prazo, não apenas por razões financeiras, mas também para viabilizar o desenvolvimento.
Este texto foi publicado inicialmente pela Inter Press Service (IPS)

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