
Por Luiza Soeiro para Desacato.info.
No último sábado, a Comunidade do Siri, no Norte da Ilha, não foi apenas o cenário de mais uma “ocorrência de rotina”, mas sim o palco de uma demonstração de força estatal que se abate sobre a juventude periférica com precisão cirúrgica. Enquanto a nota oficial da Polícia Militar repete o roteiro burocrático de sempre — evocando termos como “injusta agressão”, “troca de tiros” e a onipresente “apreensão de arma” — a voz das ruas grita uma verdade que o asfalto insiste em ignorar.
O adolescente morto no Siri não é um erro de cálculo ou um efeito colateral de uma guerra necessária; ele é o sintoma de um sistema de segurança pública que não erra o alvo porque esse alvo já está previamente marcado pelo CEP e pela cor da pele muito antes de o gatilho ser puxado. Relatos de moradores indicam que o jovem estava dentro de casa, o espaço que deveria ser o seu santuário, e, ao tentar correr do pânico da incursão, foi caçado e abatido como se a sua existência fosse um risco inerente à ordem pública.
A crueldade da segurança catarinense manifesta-se não apenas no disparo, mas no descaso posterior: a espera de uma hora pelo socorro do SAMU, enquanto um corpo de adolescente esfriava no chão, é a prova cabal de que, para certas geografias da cidade, a vida não tem pressa para ser salva.
Essa repetição exaustiva da narrativa policial, o recorrente “achismo” letal onde o agente de segurança “supõe” uma ameaça, e revela o que a criminologia crítica identifica como uma estrutura de dominação de corpos que ignora o devido processo legal em favor de uma execução sumária institucionalizada. Em Santa Catarina, a pele preta e o território periférico funcionam como uma sentença prévia, em que a dúvida nunca beneficia o réu, pois o réu já foi “neutralizado” na esquina de casa. Este sistema opera sob uma lógica de guerra normalizada no cotidiano, onde a construção do “inimigo” é feita sobre o corpo do trabalhador e do jovem, transformando vielas em zonas de sacrifício sob a justificativa de uma paz social que só existe para quem vive nos bairros nobres.
Quando a polícia alega legítima defesa contra um adolescente desarmado, ela está, na verdade, operando o “apagamento do corpo negro”, um processo em que a violência é naturalizada para que a sociedade aceite a eliminação de “corpos indesejados” como se fosse um pré-requisito para a ordem urbana. É a aplicação prática da necropolítica: o Estado exerce o seu poder não para garantir a vida, mas para ditar quem deve morrer.
Segundo o portal Desterro, observatório de violência em Florianópolis, os dados de 2025 consolidam esta tragédia como um projeto político deliberado e não como uma sucessão de fatalidades, marcando o ano mais letal da história da polícia em Florianópolis. Pela primeira vez numa década, as forças de segurança mataram mais do que a própria criminalidade civil, sendo responsáveis por 54,4% das mortes violentas na capital. Este salto na letalidade acompanha milimetricamente a extinção das câmaras corporais, uma decisão do governo estadual que devolveu às operações o manto da invisibilidade e da impunidade, permitindo que a polícia matasse uma pessoa a cada dez dias sem qualquer registo independente. O que vemos no Siri é a continuidade de um modelo de ocupação militarizada das favelas que, sob o pretexto de combater o comércio ilegal de drogas, apenas coleciona corpos de jovens, enquanto o crime organizado segue ampliando os seus poderes. A retirada das câmeras foi o sinal verde para que o braço armado do Estado agisse no escuro, transformando a palavra do oficial na única verdade jurídica possível, enquanto as famílias das periferias são relegadas ao papel de “cifras de jornal”, despojadas do seu direito ao luto e à justiça.
Para compreender a profundidade deste luto, é preciso resgatar a memória daquilo que os movimentos sociais chamam de “sonhos abreviados”. O adolescente do Siri agora junta-se a uma lista de trajetórias trucidadas, como a de Hudson Pinheiro, o “Preto”, um músico do Mocotó morto sem nunca ter tido ficha criminal, ou as de Lipe e Diego, vítimas de um sistema que atira primeiro e pergunta depois.
Estas mortes não são acidentais; são o resultado de uma política que entrega fuzis onde deveria entregar políticas estatais e investimento social. Cada jovem assassinado é um projeto de futuro que o Estado catarinense escolheu não fomentar, preferindo as cruzes no asfalto ao desenvolvimento destas comunidades. A indignação que sentimos, hoje, é um chamado para o fim deste “direito de matar”. Não podemos aceitar que a segurança pública seja sinônimo de pânico para o trabalhador periférico, nem que o preconceito de um sistema racista continue a escrever a história de Florianópolis com o sangue de quem só queria ter o direito de chegar vivo ao amanhã.
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Parabéns, Luiza Soeiro pela reportagem sobre o assassinato do jovem morador da comunidade do Siri, pela Polícia Militar de Santa Catarina, no sábado, dia 28 de março de 2026.