
Por Luiza Soeiro para Desacato.info
A alimentação nas periferias urbanas brasileiras não pode ser compreendida apenas como resultado de escolhas individuais. Ela é profundamente atravessada por condições materiais, como renda, acesso e disponibilidade, que determinam o que chega, ou não, no prato das famílias.
Nas últimas décadas, o Brasil passou por uma transformação significativa em seu padrão alimentar. Segundo estudo publicado na Revista de Saúde Pública, é relatado que os produtos ultraprocessados passaram de 20,8% para 25,4% das calorias consumidas entre 2002 e 2009 . Esse crescimento ocorreu em todas as faixas de renda, inclusive entre as populações mais pobres, indicando que o avanço desses produtos está diretamente relacionado à forma como o sistema alimentar se organiza no país.
Para as famílias em situação de vulnerabilidade, essa mudança atravessa a esfera cultural, e passa a se tornar um problema econômico.
Produtos ultraprocessados são, em geral, mais baratos, mais duráveis e mais fáceis de acessar do que alimentos frescos. Sua produção em larga escala, associada à atuação de grandes indústrias e à redução de custos logísticos, faz com que esses produtos cheguem ao consumidor com preços mais baixos e maior disponibilidade. Ao mesmo tempo, alimentos in natura, como frutas, legumes e verduras, tendem a apresentar preços mais elevados, maior perecibilidade e menor presença em determinados territórios.
Essa desigualdade de acesso fica evidente quando se observa o ambiente alimentar das favelas. Em uma pesquisa recente publicada na revista Demetra realizada em Belo Horizonte, foi identificado que a presença de feiras de alimentos orgânicos nesses territórios é praticamente inexistente, com média de apenas 0,04 feiras em um raio de 500 metros. Em contrapartida, há dezenas de estabelecimentos que comercializam alimentos ultraprocessados, como lanchonetes, bares e pequenos comércios.
Além de mais numerosos, esses estabelecimentos estão mais próximos e exigem menos tempo de deslocamento. Enquanto apenas uma pequena parcela da população consegue acessar alimentos saudáveis em até 15 minutos, a maioria tem acesso rápido a produtos ultraprocessados.
Nesse contexto, o consumo de ultraprocessados não pode ser interpretado como uma simples preferência alimentar. Ele é, em grande medida, uma resposta às condições concretas de vida: menor renda, menor oferta de alimentos frescos e maior disponibilidade de produtos industrializados.
Essa dinâmica contribui para a consolidação de territórios marcados simultaneamente pela escassez de alimentos saudáveis e pela abundância de produtos ultraprocessados, conhecidos como desertos e pântanos alimentares. Do ponto de vista nutricional, os efeitos são preocupantes, esse tipo de alimentação apresenta maior densidade energética, altos teores de açúcar, gordura e sódio, e menor valor nutricional. Seu consumo está associado ao aumento de doenças crônicas, como obesidade, diabetes e hipertensão, que atingem de forma desproporcional as populações mais vulneráveis.
O que os dados indicam é a existência de um sistema alimentar que, ao mesmo tempo em que amplia o acesso à calorias baratas, restringe o acesso à comida de verdade. Nesse sistema, o ultraprocessado não ocupa apenas o prato, mas substitui o lugar do alimento que consideramos “de verdade”.
No livro Gente Ultraprocessada, do médico Chris van Tulleken, ele escreve que esses produtos são formulações industriais pensadas para substituir o alimento tradicional, oferecendo sabor, praticidade e baixo custo. Para quem vive em contextos de vulnerabilidade, essa substituição não vira somente uma escolha fácil, mas passa a ser uma condição.
Diante desse cenário, tratar a alimentação como uma questão de escolha individual é ignorar a forma como o sistema alimentar está organizado para operar dessa maneira. O que estamos discutindo, não é apenas o que se come, mas quem tem acesso à comida de verdade e quem é excluído, tendo acesso somente à produtos baratos, ultraprocessados e nutricionalmente pobres.
Em um país marcado por desigualdades, o avanço desses produtos não marca somente o avanço de um sistema imperial feito para adoecer quem já se encontra em vulnerabilidade, porém aprofunda essas dores e transforma a alimentação em mais um território de injustiça social.
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