
Por Luiza Soeiro para Desacato.info
Inserida apenas no final de janeiro na fase nacional do programa Gás do Povo, Florianópolis já aparece entre as capitais brasileiras com uma das maiores proporções de famílias chefiadas por mulheres atendidas pela política pública, um indicativo claro das desigualdades que ainda marcam a economia doméstica no Brasil.
Dados divulgados pelo governo federal mostram que, entre cerca de 7,6 mil famílias beneficiadas na capital catarinense, mais de 7,2 mil são chefiadas por mulheres, o que representa 94,82% do total, colocando Florianópolis na quinta posição entre as capitais nesse critério.
O programa Gás do Povo, sancionado no início de 2026 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva como política pública de combate à pobreza energética, substitui o antigo Auxílio Gás dos Brasileiros e prevê entregar recargas gratuitas de botijão de gás de cozinha para até 15 milhões de famílias em todo o país, triplicando a cobertura anterior e mudando o foco de transferência monetária para a distribuição direta do insumo essencial.
A predominância de mulheres responsáveis pelos lares beneficiados não é um dado isolado. Em todo o país, mais de 94% das famílias contempladas pelo Gás do Povo têm mulheres como responsáveis principais pelo domicílio. O número escancara duas faces da mesma realidade: de um lado, o alcance de uma política voltada à população mais vulnerável; de outro, a persistência da feminização da pobreza, que mantém mulheres no centro da sustentação econômica dos lares em condições de maior fragilidade social.
Essa tendência nacional de mulheres como provedoras principais dos lares já vinha sendo observada em estudos sobre estrutura familiar no Brasil. Levantamentos anteriores da PNAD Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), juntamente com o Censo Demográfico, mostraram que mais de 41 milhões de domicílios no país têm mulheres como principais responsáveis, o que evidencia a centralidade do trabalho feminino no tecido social e econômico.
Ainda assim, a realidade em Santa Catarina tem nuances importantes. Enquanto Florianópolis pontua entre as capitais com maior proporção de mulheres chefes de família atendidas pelo programa, uma pesquisa de 2024 indicava que o estado tinha uma das menores taxas de lares com mulheres responsáveis pelo sustento da casa entre as unidades da federação — um dado que aponta para desigualdades regionais mais amplas e a urgência de políticas públicas que levem em conta gênero, raça e renda.
Para especialistas em políticas públicas, a presença massiva de mulheres entre as beneficiárias reflete não só a vulnerabilidade econômica que muitas enfrentam, especialmente em contextos de trabalho precário ou informal, mas também o papel estrutural que as mulheres desempenham na garantia da reprodução social e do cuidado doméstico. Acesso seguro ao gás de cozinha significa não apenas alívio no orçamento familiar, como também melhora nas condições de saúde e diminuição de riscos associados ao uso de fontes de energia alternativas, como lenha ou querosene.
O Gás do Povo é parte de um conjunto de políticas sociais que, em tese, buscam enfrentar a desigualdade estrutural. Mas a leitura crítica feminista aponta que, para além da entrega de recursos materiais, é preciso que o Estado reconheça e estruture políticas que abordem transversalmente as causas da feminização da pobreza, que abrangem desde a desigualdade salarial até a precarização do trabalho de cuidado que recai sobre mulheres, especialmente em espaços periféricos.
Enquanto isso, em Florianópolis, a chegada do programa representa uma conquista concreta para milhares de mulheres que, diariamente, equilibram orçamentos apertados, postos de trabalho instáveis e responsabilidades familiares que o Estado historicamente negligenciou. O desafio agora é garantir que essa política não seja apenas um alívio pontual, mas parte de uma agenda de promoção de direitos, dignidade e autonomia para mulheres em situação de vulnerabilidade.
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