
Florianópolis foi incluída no ImPrEP LEN Brasil, um estudo nacional que avalia o uso do lenacapavir, um medicamento injetável de longa duração voltado à prevenção do HIV. A proposta é oferecer uma alternativa à PrEP oral, que exige uso diário, por meio de uma aplicação semestral, o que pode ampliar a adesão e facilitar o acesso à prevenção.
Ainda sem data definida para início, a pesquisa reúne um grupo de capitais brasileiras escolhidas para acompanhar essa nova estratégia de prevenção. Embora seja vista como um avanço promissor, a iniciativa também suscita debates sobre quem terá acesso a essa tecnologia e como garantir equidade, especialmente entre populações em maior situação de vulnerabilidade.
O Portal do Desacato conversou com Marília de Souza, representante do GAPA/SC – Grupo de Apoio à Prevenção da AIDS de Santa Catarina, sobre o que significa a participação de Florianópolis nesse estudo e os desafios envolvidos na implementação da nova estratégia de prevenção.
O que muda quando a prevenção deixa de ser diária e passa a ser semestral?
Marília (GAPA/SC):
Primeiro, é importante lembrar que a PrEP é uma profilaxia pré-exposição, ou seja, para pessoas que não vivem com HIV, justamente para evitar a infecção. A medicação diária acaba sendo um desafio para muitas pessoas. Existe o esquecimento, mas também o preconceito. Ter um frasco em casa, com um nome associado ao HIV, ainda gera estigma, muitas vezes dentro da própria família.
A injeção semestral pode ser mais interessante porque reduz essa exposição e também o sentimento de culpa que muitas pessoas têm quando esquecem a medicação. Além disso, diminui efeitos colaterais comuns no início da PrEP oral, como enjoo e tontura, que acabam afastando pessoas do tratamento, especialmente quem trabalha e não pode faltar.
Quais são as principais preocupações da sociedade civil em relação a essa nova tecnologia?
Marília:
A nossa maior preocupação é o acesso. Hoje, em Florianópolis, quem mais acessa a PrEP são homens gays que têm emprego formal, moradia e certa estabilidade. Mas quando pensamos em mulheres trans e pessoas em situação de rua, especialmente mulheres trans e mulheres cis em situação de rua, o cenário muda completamente.
Para essas populações, o injetável poderia facilitar muito a prevenção. Mas a pergunta que a gente faz é: quem vai acessar essa nova PrEP? Se ela continuar chegando apenas para quem já acessa o sistema, a desigualdade permanece.
Existe o risco de frustração após o fim do estudo?
Marília:
Sim, existe, principalmente se pensarmos em populações em maior vulnerabilidade. É frustrante iniciar um cuidado e depois não conseguir mantê-lo. Mas Florianópolis tem uma grande oportunidade: se conseguir alcançar essas populações e gerar dados consistentes, isso fortalece a luta para que essa política se torne permanente no SUS.
O estudo ainda nem começou, mas já sabemos que a qualidade da prevenção tende a melhorar muito. A possibilidade de não precisar pensar diariamente na medicação pode, inclusive, atrair pessoas que hoje nem consideram a PrEP.
Por que Florianópolis foi escolhida para esse estudo nacional?
Marília:
Apesar de todas as contradições e problemas em relação aos direitos das populações vulnerabilizadas, Florianópolis é uma referência em prevenção e cuidado de pessoas que vivem com HIV. Isso certamente foi um dos critérios.
Além disso, é uma capital com universidades, diversidade populacional e um sistema de saúde que consegue sustentar, monitorar e acompanhar um estudo desse porte. O que ainda nos preocupa é quem, de fato, será impactado.
O projeto prevê a participação da sociedade civil, chamada de “sementes”, que são pessoas e organizações que estão no dia a dia com essas populações, convidando e informando. Mas a adesão depende de confiança. Quem já sofreu transfobia ou violência institucional dificilmente retorna a uma unidade de saúde.
Como o GAPA recebe essa notícia?
Marília:
A gente recebe com muita esperança. A PrEP evita a transmissão do HIV e permite que as pessoas se relacionem com mais tranquilidade. Sabemos que quem vive com HIV e faz tratamento fica indetectável e não transmite, mas toda barreira adicional de prevenção é importante para reduzir ainda mais a transmissão.
Vamos lutar para que essa medicação permaneça no SUS após o estudo. Também vamos divulgar e incentivar a adesão, porque o injetável pode ser um facilitador importante. Mas, junto com a tecnologia, é fundamental combater o estigma.
As pessoas ainda têm medo de buscar diagnóstico e prevenção por causa do preconceito. Hoje temos testes rápidos, tratamentos eficazes e tecnologia avançada. Garantir acesso é também garantir dignidade.
Como funciona o lenacapavir:
O lenacapavir é um medicamento injetável de longa duração usado na prevenção do HIV. Ele age impedindo que o vírus forme uma estrutura essencial para se proteger e se multiplicar dentro do organismo. Sem essa estrutura, o HIV não consegue infectar novas células.
A aplicação é feita sob a pele e tem efeito prolongado, garantindo proteção por cerca de seis meses com uma única dose. Estudos internacionais indicam alta eficácia do medicamento, especialmente entre pessoas que enfrentam dificuldades para manter o uso diário da PrEP em comprimidos. Embora já tenha sido aprovado pela Anvisa, o lenacapavir ainda não está disponível no SUS e depende de avaliações e decisões de política pública para ampliar o acesso no país.
Descubra mais sobre Desacato
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.





