“Não buscam excelência, buscam justificativa para o preconceito”, diz Lumen sobre ataques transfóbicos após ingresso no curso de Medicina da UFSC

Foto: Reprodução/ Internet

Por Luiza Soeiro para Desacato.info

A aprovação de Lumen Lohn Freitas no curso de Medicina da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) foi rapidamente transformada em alvo de ataques transfóbicos nas redes sociais e no meio político. Mulher trans, Lumen conquistou uma das vagas suplementares criadas pela política afirmativa da universidade e passou a integrar um dos cursos mais concorridos do país. O que deveria ser um momento de celebração virou exposição pública, desinformação e violência simbólica.

Em entrevista ao Desacato, Lumen afirma que a aprovação representa a concretização de um projeto de vida. “Pessoalmente, essa aprovação é a concretização de um projeto amadurecido e a reafirmação da minha capacidade, persistência e resiliência. Chegar à Medicina na UFSC é ocupar um território que, para muitas de nós, nem sequer é permitido sonhar”, afirma.

Para além da dimensão individual, ela ressalta o impacto coletivo da conquista. “Essa vitória transcende o meu nome: ela é um manifesto de ocupação. A Medicina é, historicamente, um dos espaços mais elitizados, brancos e cisnormativos da nossa sociedade. Ter uma travesti sentada nos bancos dessa faculdade sinaliza que nossos corpos não estão destinados apenas à marginalidade, ao trabalho informal ou ao subemprego”, diz.

Lumen também destaca a dimensão política da presença trans na saúde. “Pessoas trans frequentemente evitam hospitais por medo da violência institucional. Minha presença ali diz que, no futuro, haverá uma profissional capaz de acolher essas pessoas com a dignidade que lhes foi negada por décadas”, explica. Para ela, a vitória é pedagógica: “Ensinamos ao sistema que o talento não tem gênero, mas o acesso, sim. Estou aqui para abrir essas portas de forma definitiva, garantindo que eu seja uma das primeiras, mas jamais a última”.

Como funciona a vaga suplementar

Em 2023, o Conselho Universitário da UFSC, órgão máximo deliberativo da instituição, aprovou uma política institucional de ações afirmativas que criou vagas suplementares para pessoas trans e travestis em vestibulares e concursos. Essas vagas são extras e não substituem as da ampla concorrência.

Lumen participou de um processo seletivo específico, diferente do vestibular tradicional. Ela explica que houve prova própria, critérios próprios e concorrência restrita entre pessoas trans. “Eu segui o edital, estudei e conquistei minha vaga dentro do que a Justiça já validou como correto”, afirma.

Apesar disso, passou a ser alvo de ataques que questionam sua nota. “No momento em que eu deveria estar apenas celebrando, fui obrigada a organizar minha defesa e, novamente, a da minha identidade. A violência simbólica tenta transformar uma conquista em debate de opinião, o que é desumanizador”, relata.

Ela denuncia o que chama de “falácia da nota”. “Isolam meu desempenho de 31,25 numa escala de 40 e comparam diretamente com a escala de 100 pontos do vestibular geral para forjar a narrativa de pontuação baixa. Isso é uma estupidez metodológica”, explica. Para exemplificar, Lumen compara: “É como se alguém com 800 pontos no ENEM tentasse ridicularizar quem tirou 80 no vestibular tradicional. Numericamente 800 é maior, mas as métricas são absolutamente distintas”.

Segundo ela, a distorção não é inocente. “Grupos de ódio instrumentalizam a ignorância sobre os editais para validar o preconceito. Não buscam excelência acadêmica, buscam apenas uma justificativa aritmética para o desconforto de ver uma travesti em um espaço de prestígio”, afirma.

Ataques políticos e transfobia institucional

Parte das críticas partiu de parlamentares da Assembleia Legislativa de Santa Catarina (ALESC), como a deputada Ana Campagnolo (PL), que utilizou o caso para atacar políticas de inclusão. Para Lumen, trata-se de violência política institucionalizada. “O que estamos vendo é gente usando o poder para fazer bullying com quem seguiu as regras. Minha aprovação não foi favor”, diz.

Ela explica que há uma confusão proposital sobre o conceito de cotas. “Muita gente acha que cota é assistencial. Mas a cota para pessoas trans é de reparação. Ela serve para consertar o fato de que historicamente a nossa comunidade foi expulsa das escolas e proibida de sonhar com a universidade. É devolver o espaço que nos foi roubado”, afirma.

Lumen também aponta contradições no discurso meritocrático. “É muita hipocrisia ver uma deputada me atacar dizendo que eu não sigo o mérito, quando ela mesma usa o cargo para atropelar a lei”, declara.

Para ela, o impacto desse discurso vai além do ataque individual. “Isso serve para espalhar ódio e dizer para outras pessoas trans que elas não são bem-vindas. Mas eu não vou recuar”, afirma. Lumen garante que seguirá ocupando seu espaço. “Vou ocupar meu lugar na Medicina com a mesma cabeça erguida com que me formei em Direito na UFSC. Eu conheço as leis e conheço os meus direitos. Vou responder a esses ataques estudando, atendendo meus futuros pacientes e, se precisar, nos tribunais também”.

Não é polêmica, é transfobia

Transformar a aprovação legítima de uma mulher trans em “polêmica” não é acaso, e sim uma escolha política. O debate não é técnico, é ideológico. Em um país que lidera o ranking mundial de assassinatos de pessoas trans, políticas afirmativas não são privilégios, mas mecanismos de sobrevivência e reparação histórica.

O caso de Lumen escancara a dificuldade de setores conservadores em aceitar pessoas trans ocupando espaços de prestígio social. Defender sua aprovação é defender o direito à educação, à dignidade e à existência. Transfobia não pode ser fantasiada de opinião, chamaremos pelo o que é: violência.


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