Reciclar o “Plano Andínia” como pretexto para a pilhagem. Por Tania Melnick.

Por Tania Melnick.

Uma teoria conspiratória judeofóbica formulada e difundida pela extrema direita argentina no início da década de 1970, posteriormente adotada por setores militares e pelas ditaduras do Cone Sul, e hoje reciclada para fabricar um inimigo interno e ocultar os verdadeiros responsáveis pela pilhagem territorial. Diante dessa operação, os dados não são um detalhe: são uma ferramenta política indispensável.

A Patagônia volta a arder

Em Chubut — província da Patagônia argentina —, os incêndios iniciados na segunda-feira, 5 de janeiro, já consumiram mais de 12.000 hectares (na hora de escrever esse artigo), destruíram casas, causaram a morte de centenas de animais e forçaram a evacuação de centenas de famílias. Não se trata de uma tragédia “natural”. É a repetição de um padrão estrutural.

Muitas das comunidades afetadas ainda não se recuperaram dos incêndios de 2025. Hoje, mais uma vez, enfrentam o fogo com as próprias mãos. Porque aqui não estamos falando apenas de aquecimento global, mas de uma seca histórica, da substituição da floresta nativa por monoculturas de pinheiros altamente inflamáveis, da escassez de água e de décadas de colonialismo extrativista e imobiliário: mineração, silvicultura, grandes projetos imobiliários e especulação fundiária, uma verdadeira piromania empresarial, idêntica à que conhecemos no Chile.

Essa situação é agravada pela responsabilidade política direta. O governo de Javier Milei cortou quase 70% do orçamento do Plano Nacional de Gestão de Incêndios, desmantelando a prevenção ambiental e enfraquecendo os órgãos de fiscalização.

Enquanto o Parque Nacional Los Alerces — Patrimônio Mundial da UNESCO — queima impiedosamente, a resposta oficial não é a proteção ou a prevenção, mas sim um espetáculo midiático: recompensas milionárias, criminalização dos habitantes locais e perseguição ao povo Mapuche, desviando a atenção de uma negligência deliberada que beneficia os negócios.

Porque a cordilheira é espólio de guerra. E os governos — tanto de direita quanto progressistas — historicamente facilitaram a entrega de vastos territórios ao grande capital, perseguindo aqueles que sempre defenderam a terra: o povo da terra, os Mapuche.

Os incêndios são uma consequência direta do desmantelamento do Estado, da mercantilização da natureza e de um modelo que transforma territórios em mercadoria. Os incêndios se alastram à medida que essas áreas são reestruturadas, privatizadas e entregues.

O “Plano Andínia”: um panfleto nazista para desviar a atenção

Nesse contexto, ressurgiu o panfleto nazista conhecido como “Plano Andínia”: uma teoria da conspiração judeofóbica formulada e disseminada pela extrema direita argentina no início da década de 1970, posteriormente adotada por setores das forças armadas e pelas ditaduras do Cone Sul, e agora reciclada para fabricar um inimigo interno e encobrir os verdadeiros responsáveis pela pilhagem territorial. Diante dessa operação, os fatos não são um detalhe: são uma ferramenta política essencial.

Em termos claros e sem rodeios, os investimentos israelenses em terras, mineração, tecnologia e segurança existem em vários países de Abya Yala, e uma estratégia sionista de penetração econômica, política e militar em escala global de fato existe. Mas isso não equivale, nem empiricamente nem historicamente, à existência de um plano para criar um “novo Israel” na Patagônia.

Confundir deliberadamente ambos os níveis não é apenas intelectualmente desonesto, mas também politicamente funcional para encobrir o colonialismo extrativista e imobiliário que está de fato em curso.

Na Patagônia argentina, a maior concentração de terras não pertence a judeus nem a israelenses.

O grupo italiano Benetton controla quase 1 milhão de hectares.

Joe Lewis possui aproximadamente 10.000 hectares.

Os emires do Catar e dos Emirados Árabes Unidos possuem mais de 120.000 hectares.

Segundo dados do Sistema de Informação Jurídica da Argentina, apenas 6,09% das terras privadas na Patagônia argentina estão em mãos estrangeiras.

Para evitar qualquer confusão deliberada: Eduardo Elsztain, um empresário sionista argentino com interesses imobiliários, financeiros, tecnológicos e agroindustriais, possui cerca de 800.000 hectares, mas principalmente no centro e norte do país.

No Chile, os dados são igualmente claros. Desde 2010, o capital alemão adquiriu quase 350 mil hectares na Patagônia chilena. Segundo dados do Ministério do Patrimônio Nacional, apenas 1,2% das terras privadas na Patagônia — o que também representa menos de 50% do total — pertencem a israelenses. Os principais proprietários estrangeiros são italianos e suíços.

E quanto aos incêndios, as informações da Conaf são conclusivas: 99% dos incêndios na Patagônia são causados pela indústria madeireira, negligência humana ou incêndios criminosos locais. Não por turistas, exceto em alguns poucos casos isolados comprovados, que agora estão sendo usados para sustentar acusações sem provas.

O chamado turismo israelense — associado ao ano sabático após o serviço militar obrigatório — é substancialmente menor do que o da Europa, do Sudeste Asiático, dos Estados Unidos ou mesmo do Brasil. Apresentá-lo como uma ameaça geopolítica carece de qualquer base empírica.

O “Plano Andínia” desmorona diante dos dados.

A última grande aquisição de terras na Patagônia foi realizada pelo emir do Catar, que inclusive recebeu tratamento preferencial no Congresso argentino durante o governo Milei.

Fazer distinções não enfraquece o antisionismo: pelo contrário, o fortalece

Dizer a verdade não enfraquece o antisionismo. Pelo contrário, o fortalece.

E, acima de tudo, permite-nos desmantelar uma operação perigosa: a confusão deliberada entre judaísmo e sionismo, que não combate o sionismo, mas sim alimenta a judeofobia.

Essa confusão serve aos interesses do próprio sionismo, que usurpou a identidade judaica para proteger o Estado de Israel de processos judiciais por meio da figura da “vítima absoluta”. Combater a judeofobia não se trata de proteger uma imagem, mas de impedir que a discriminação seja usada como arma política.

O antisionismo não é carta branca para o preconceito. É uma posição ética e política que exige precisão.

Criticar um soldado que exibe insígnias das forças de ocupação israelenses não é judeofobia: é denunciar sua cumplicidade com um regime colonial e genocida. Exigir justiça não é desumanizar.

O problema surge quando transformamos todo israelense em suspeito, reproduzindo a lógica essencialista que o nazismo aplicou contra os judeus e o sionismo aplica contra os palestinos. Aprender a distinguir entre eles é uma tarefa política urgente.

Se as placas em hebraico no sul do Chile são “prova” de colonização, por que as placas em alemão em Frutillar ou Puerto Varas não causam nenhum alarme?

É assim que funciona a lógica das teorias da conspiração: um fato isolado + medo = “evidência”.

O turista-colonizador é uma invenção que visa evitar o olhar para os verdadeiros agentes da desapropriação: extrativistas, latifundiários e o capital imobiliário sem bandeira, protegidos por Estados servis.

O plano verdadeiro já foi executado

Tem sido um processo histórico de desapropriação: compras maciças de terras, privatização da água, perseguição e militarização de comunidades, expulsão de povos nativos, ecocídio.

Colonialismo extrativista e imobiliário.

Não busca povoar, mas controlar; não precisa povoar, mas desapropriar; não substitui populações, mas as expulsa, precariza ou torna invisíveis; não estabelece uma colônia, mas um território funcional ao capital.

É isso que está causando incêndios na Patagônia.
E essa mesma operação de distração serve para desviar o foco do genocídio na Palestina, da ofensiva fascista global, da Doutrina Monroe reeditada em Abya Yala, das ameaças imperiais à Venezuela, Cuba, Colômbia e México e das mobilizações em massa que estão crescendo até mesmo no coração do império.

Nas palavras de Rodrigo Karmy, “todo o planeta se tornou Gaza”: qualquer lugar pode se tornar alvo de extermínio, qualquer território pode ser Gaza.

A pergunta é incômoda, mas necessária: os turistas israelenses representam uma ameaça existencial para a Patagônia? Ou será que a ameaça reside na cumplicidade de governos com o capital extrativista e imobiliário?

Não é mais fácil fantasiar sobre conspirações antissemitas do que admitir que permitimos a entrega de recursos naturais comuns — incluindo a água, privatizada no Chile como em nenhum outro lugar do mundo — àqueles que controlam o capital global?

Falar com precisão não enfraquece a luta: impede que ela seja desviada.

Tania Melnick é comunicadora social e membra da Coordinadora por Palestina, Chile.

Tradução: Deepl com supervisão do Portal Desacato.

A opinião do/a/s autor/a/s não representa necessariamente a opinião de Desacato.info.


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