Da Venezuela ao Irã: o imperialismo estadunidense, o controle da energia e a guerra hegemônica contra a soberania dos povos

Foto: EFE

Por Beatriz Kauling Gatti.*

A chamada invasão dos Estados Unidos à Venezuela não pode ser compreendida como um episódio isolado, pontual ou circunstancial. Trata-se de mais um capítulo de um processo histórico contínuo de pressão política, cerco econômico e ameaça militar, um padrão clássico das estratégias imperialistas aplicadas ao Sul Global e ao Oriente Médio. Ao longo das últimas décadas, esse roteiro tem se repetido de forma sistemática: primeiro as sanções econômicas, depois o isolamento diplomático e, por fim, a tentativa de legitimar intervenções diretas por meio de discursos moralizantes, quase sempre embalados pela retórica da “defesa da democracia”, da “segurança internacional” ou do “combate a ameaças globais”.

Foi exatamente nesse registro que, durante seu governo, Donald Trump intensificou a ofensiva contra a Venezuela. A retórica agressiva buscou justificar uma incursão direta no território venezuelano por meio de argumentos como o “combate ao narcotráfico” e a suposta “proteção das instituições democráticas”. No entanto, quando se desloca o foco da propaganda para a estrutura concreta do sistema internacional, o objetivo real dessas ações torna-se evidente: o controle de recursos estratégicos, em especial os energéticos. A Venezuela concentra as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo. Não é coincidência que países com esse perfil estejam reiteradamente no centro de conflitos, sanções e intervenções. Trata-se de uma lógica geopolítica organizada em torno da apropriação da energia e da manutenção da hegemonia imperial.

Nesse contexto, passaram a circular amplamente vídeos que mostram setores da população venezuelana comemorando o sequestro de Nicolás Maduro e o golpe promovido pelos Estados Unidos. Esses registros são utilizados como instrumento de propaganda para legitimar a intervenção externa, explorando o descontentamento social existente e convertendo-o em aval político para projetos de dominação. Não se trata de negar as contradições internas da Venezuela, mas de denunciar como elas são manipuladas para justificar a violação da soberania de um país inteiro.

A história recente oferece exemplos claros desse método. Em 2003, os Estados Unidos invadiram o Iraque sob o pretexto de que Saddam escondia a existência de armas nucleares, que nunca foram encontradas por sinal. À época, a mídia internacional e setores da direita difundiram imagens de iraquianos celebrando a queda de Saddam Hussein, apresentando a guerra como uma libertação. O resultado foi a destruição das instituições do Estado, a morte de milhares de civis, a fragmentação social e a transformação do país em um território permanentemente instável. O caso iraquiano demonstra, de forma inequívoca, que as intervenções imperialistas não produzem democracia, mas devastação, dependência e violência estrutural.

Essa lógica não se restringe ao caso venezuelano. O discurso hoje mobilizado contra Caracas é historicamente reproduzido contra Teerã, revelando um padrão sistemático de construção do “inimigo externo” por parte do imperialismo estadunidense. Governos que se recusam a submeter seus projetos nacionais aos interesses de Washington passam a ser enquadrados como ameaças à ordem internacional. Consolida-se, assim, uma narrativa que combina demonização política, sanções econômicas, isolamento diplomático e a naturalização da intervenção como resposta supostamente legítima a uma crise fabricada.

Apesar de suas diferenças históricas, Irã e Venezuela ocupam posições semelhantes na geopolítica mundial. Ambos detêm vastas reservas de petróleo e gás e insistem em exercer soberania sobre esses ativos. É precisamente essa combinação de autonomia política e controle da energia que os coloca no centro das ofensivas imperialistas. O conflito não decorre de falhas internas, mas da recusa em aceitar uma inserção subordinada na ordem internacional liderada pelos Estados Unidos. 

Essa convergência explica por que a pressão externa extrapola o campo econômico. As sanções são acompanhadas por tentativas de desestabilização política, apoio indireto a forças opositoras e ameaças militares constantes. No caso iraniano, esse processo se expressa de forma ainda mais evidente no Oriente Médio, onde os Estados Unidos projetam sua estratégia por meio de aliados regionais, utilizando Israel como instrumento de pressão e guerra indireta.

Irã e Venezuela mantêm alianças estratégicas desde a década de 1950 e compartilham um elemento central: a resistência à subordinação plena aos interesses estadunidenses. Mesmo submetidos a duríssimas sanções econômicas, ambos preservaram níveis relevantes de autossustento, desmontando a narrativa de “Estados falidos” e evidenciando o incômodo do imperialismo diante de projetos nacionais soberanos.

Essa engrenagem de dominação é global. O mesmo imperialismo que cerca o Irã no Oriente Médio busca controlar a Venezuela na América do Sul. Controlar a Venezuela significa controlar energia, rotas estratégicas e capacidade de financiamento de guerras e intervenções em diferentes regiões do planeta.

É nesse contexto que o posicionamento do governo Lula assume importância estratégica para a soberania brasileira e para toda a América Latina. Ao recusar o alinhamento automático aos Estados Unidos, o Brasil rompe com a lógica subalterna que nos anos de Bolsonaro marcaram sua política externa e reafirma o princípio da autodeterminação dos povos. Essa escolha protege a soberania nacional, impede que o território brasileiro seja convertido em plataforma de interesses militares estrangeiros e fortalece os processos de integração regional. Iniciativas como a retomada da UNASUL (União das Nações Sul-Americanas), o fortalecimento da CELAC (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos) e a articulação no âmbito dos BRICS apontam para a construção de uma América Latina menos dependente da America do Norte e mais capaz de formular projetos próprios de desenvolvimento, cooperação e defesa comum.

Essa postura dialoga diretamente com a trajetória histórica do continente. A Revolução Bolivariana emerge como resposta a séculos de dominação externa, exploração econômica e apagamento da memória coletiva. Simón Bolívar já advertia que “mais do que ninguém, fomos vítimas do engano”. Décadas depois, Hugo Chávez reafirmou que “um povo sem memória é facilmente dominado”. Essas palavras não pertencem apenas ao passado: elas iluminam o presente e apontam os desafios colocados à soberania latino-americana.

Se os Estados Unidos insistem em apagar essa história, os povos da América Latina a farão lembrar. Não esquecemos os golpes, as invasões, as sanções e as tentativas sistemáticas de subordinação. Encerro este texto reafirmando minha solidariedade ao povo venezuelano, à sua luta histórica e à soberania plena da Venezuela, princípio inegociável para qualquer projeto real de integração, justiça social e emancipação latino-americana.

*Assistente social formada pela UFSC e militante da Resistência.

A opinião do/a/s autor/a/s não representa necessariamente a opinião de Desacato.info.


Descubra mais sobre Desacato

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here
Are you human? Please solve:Captcha


Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.