A imagem do presidente Nicolás Maduro sob custódia de forças estrangeiras não é uma notícia de última hora; é o fotograma final de um filme que o Ocidente vem rodando meticulosamente há duas décadas. Quem hoje se mostra surpreso com o envio de tropas estadunidenses a Caracas ou peca por uma ignorância imperdoável ou exerce um cinismo calculado.
A “Operação Resolução Absoluta” não foi planejada no quartel-general do Comando Sul há algumas semanas, mas nas redações que decidiram, muito antes, que a soberania venezuelana era um erro histórico a ser corrigido. Não estamos diante de um conflito militar espontâneo, mas da execução física de uma sentença midiática proferida meio milhão de vezes.
Durante duas décadas, as corporações midiáticas não cobriram a Venezuela; elas a bombardearam. A evidência empírica é esmagadora: se aplicarmos o rigor estatístico ao acervo de jornais, nos deparamos com um “tapete de bombardeio” semântico sem precedentes.

Análises longitudinais de Big Data sobre o fluxo global de informações e relatórios de observatórios críticos (MacLeod, 2018, Universidade de Glasgow; CELAG, 2024) revelam um número alarmante: nos últimos 20 anos, entre 450.000 e 600.000 informações foram divulgadas no Ocidente e na América Latina, concebidas sob um viés estrutural negativo.
Estamos falando da aplicação da “Regra dos 82%”: oito em cada dez artigos publicados pelos gigantes da informação, como o New York Times (EUA), El País (Espanha), O Globo (Brasil), Reforma (México), Clarín (Argentina) ou El Mercurio (Chile), tinham o único propósito de deslegitimar o processo bolivariano.
Não era jornalismo, era preparar o terreno para a guerra; uma engenharia de consenso em que a soberania venezuelana se tornou um obstáculo intolerável à “liberdade” de mercado.
A estratégia foi semântica e, em sua execução, criminosa. Primeiro, realizaram um esvaziamento institucional: apagaram a palavra “Governo” e a substituíram por “Regime” em 85% das notas, despojando o Estado de sua personalidade jurídica internacional.
Em seguida, elevaram a aposta dialética: do “autoritarismo” passaram para a narrativa do “narcoestado” e do “Cartel de los Soles“, um significante vazio repetido à exaustão, sem provas judiciais conclusivas, mas com letal eficácia tática.
Ao criminalizar a “liderança chavista”, desativaram o Direito Internacional Público; deixou de ser uma questão de invadir uma nação soberana e passou a ser a realização de uma “operação policial” global. Hoje, quando Washington justifica o sequestro de um chefe de Estado, está simplesmente colhendo o que semeou com tinta: a desumanização do adversário político.
Nesse teatro de operações, o papel da imprensa latino-americana tem sido o de lacaio servil, o administrador colonial de mentiras.

A ligação é estrutural: quando o Grupo Prisa (proprietário da Caracol na Colômbia e da ADN no Chile) ou o conglomerado Televisa-Univisión ditam a agenda, não informam, mas sim replicam os interesses de seus acionistas em Wall Street e de seus financiadores na NED (National Endowment for Democracy) e na USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional).
Eles agiram como a força aérea da OTAN no campo das ideias, as defesas cognitivas do nosso povo.
Mas o mais desprezível não é o ataque da direita, cujo ódio de classe é previsível, mas a cumplicidade pusilânime de uma certa esquerda regional tímida. Essa esquerda superficial, aterrorizada com a possibilidade de perder popularidade nas pesquisas ou curtidas nas redes sociais, validou a narrativa do inimigo.
Hoje, enquanto Milei brinda com champanhe na Casa Rosada em comemoração à intervenção, governos como o de Boric, no Chile, estão presos à sua própria retórica: condenaram tanto o “regime” que agora seus lamentos sobre a “forma” da intervenção soam vazios e cínicos.
Eles alimentaram o monstro intervencionista, validado por relatórios tendenciosos de agências financiadas pelo próprio Departamento de Estado, e agora estão indignados porque o monstro está devorando um vizinho.
O silêncio também foi uma arma de destruição em massa. Em 90% dos relatórios sobre a crise econômica venezuelana entre 2014 e 2024, o impacto das medidas coercitivas unilaterais impostas por Washington foi deliberadamente omitido ( Fairness & Accuracy In Reporting, 2019; MacLeod, 2020).
Eles ocultaram o bloqueio criminoso que impedia a compra de insulina ou peças de reposição para o sistema elétrico e, em seguida, venderam a “crise humanitária” como resultado exclusivo da incompetência do Estado (Centro de Pesquisa Econômica e Política, 2019; Relator Especial da ONU, 2021). Eles criaram a doença e depois se apresentaram como salvadores armados.
O sequestro de Maduro não é o “fim do pesadelo”, como proclamam as manchetes obscenamente sincronizadas da CNN, BBC, Fox News, Deutsche Welle e France 24. É o início de uma longa noite de submissão para a região.
Ao celebrarem o golpe, essas agências — que operam como a infantaria ideológica da OTAN — confirmam que têm o poder de transformar um Estado soberano em um “alvo eliminável”, legitimando a barbárie neocolonial aos olhos da opinião pública global.
Que a história registre: eles não foram testemunhas imparciais dos fatos; foram os assassinos intelectuais indispensáveis que empunharam a arma moral enquanto o Império puxava o gatilho.
Hoje a Venezuela está sangrando, e as redações de Washington, Londres, Paris, Madri, Buenos Aires e Santiago não têm as mãos manchadas de tinta, mas sim com o sangue que seus editoriais evocaram.
A história não lhes concederá o perdão do esquecimento; ela os condenará no tribunal da memória como os autores intelectuais da desapropriação, os escribas necessários que redigiram a certidão de óbito da soberania para que os abutres financeiros pudessem devorar o cadáver.
Tradução: Deepl com supervisão do Portal Desacato.
A opinião do/a/s autor/a/s não representa necessariamente a opinião de Desacato.info.
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