
— Pedro Borges/Alma Preta
O intelectual e político Patrice Lumumba, um dos principais responsáveis pela libertação do povo congolês da colonização belga, completaria 100 anos nesta quarta-feira (2). Herói nacional, ele ainda é muito presente no cotidiano de Kinshasa, capital da República Democrática do Congo (RDC), mesmo após 64 anos de sua morte.
No caminho do aeroporto para o centro da cidade, é possível ver o mausoléu e uma estátua de 21 metros de altura de Lumumba, que acena para as casas da região e os carros e motos que circulam pelas avenidas do entorno.
O ex-primeiro-ministro dá nome a uma universidade e a uma das avenidas mais importantes de Kinshasa. Seu rosto também está em grafites nos muros.
Seu assassinato aconteceu em 1961, mas ele se mantém presente na política congolesa, a ponto de existirem aqueles que se reivindicam como “lumumbistas”.
Um dos principais pan-africanistas, Lumumba faz parte da história do movimento surgido no século XX, com nomes importantes da diáspora africana, caso de W. E. B. Du Bois (1868-1963) e Marcus Garvey (1887-1940), e líderes africanos, como Kwame Nkrumah (1909-1972). Cada um à sua maneira, eles defendiam a maior união entre pessoas negras no mundo e a defesa de seus direitos.
Uma das pessoas que carrega o legado de Patrice é sua filha, Juliana Lumumba, de 70 anos. Ela foi ministra de cultura e da educação do país durante a gestão de Laurent Désiré Kabila (1997-2001), outro ícone da política congolesa.
A herdeira de Patrice recebeu a Alma Preta para esta entrevista na casa da família, situada no Boulevard 30 de Junho, a principal avenida de Kinshasa.
A residência tem um grande portão de ferro preto, com detalhes em amarelo, e fica do outro lado do cemitério de Gombe, área nobre do município.

A casa tem sofás e cadeiras confortáveis, espaçados entre eles. Os móveis são observados por quadros e esculturas do líder pan-africanista, presente em todos os cantos da residência.
A presença única de Juliana na sala fazia o cômodo parecer ainda maior. O quintal contava com um único trabalhador, um carro estacionado na lateral, e uma área ora verde, ora cinza por conta das pedras do chão.
Orgulhosa de ser a filha que costuma aparecer no colo do pai nas fotos, Juliana destaca o legado deixado por Patrice para a luta do povo congolês.
“Patrice Lumumba estava olhando para a independência, estava falando sobre dignidade. Ele estava falando sobre o Pan-Africanismo e [a República Democrática do] Congo ser o centro disso”, afirmou.
Projeto de Lumumba foi interrompido
Lumumba foi um dos protagonistas da independência congolesa em 1960, uma derrota para os belgas, que tinham no país da África Central a sua maior colônia no continente, importante produtora de látex.
Juliana Lumumba acredita que o pai tinha a capacidade de aproximar todo o país, independente das diferenças regionais e étnicas da RDC. Hoje, a nação enfrenta conflitos étnicos, principalmente no leste do país, seja nas províncias de Ituri, Kivu do Norte, Kivu do Sul ou Tanganyika.

“Lumumba era contra o tribalismo, o racismo ou qualquer preconceito. Ele acreditava que se algum país estivesse sob o colonialismo, nós tínhamos que lutar”, relembra.
O projeto de país construído com o protagonismo de Lumumba foi interrompido por um golpe de Estado. A ação foi orquestrada por adversários políticos internos e países estrangeiros, como a Bélgica e os Estados Unidos.
O assassinato de Lumumba ocorreu em uma emboscada a tiros em uma floresta próxima da cidade de Lubumbashi, na província de Katanga. Ele teve o seu corpo desmembrado e depois jogado no ácido. Um policial belga retirou um dente de Lumumba como forma de troféu. O dente retornou para o país em 2022, depois de Juliana Lumumba escrever uma carta com o pedido para o rei Filipe, da Bélgica, em 2020.
O então chefe das forças armadas, Joseph Mobutu, foi peça central para o golpe. Depois do assassinato de Lumumba, Mobutu assumiu a direção do país e ocupou o cargo de 1965 a 1997.
Soberania, não só independência
Juliana Lumumba afirma que o pai buscava mais do que a independência política do país. Ele estava de olho na soberania total da nação centro-africana.
“Meu pai acreditava que a gente precisava de uma real independência, não só política. Por isso ele lutou pela independência econômica e pela dignidade da pessoa negra”, afirmou.
Para ela, Patrice Lumumba foi morto por sua entrega total ao país. “‘Eu sou congolês e eu sou orgulhoso’. Era isso o que ele tinha, orgulho. E ele inspirava os demais, as pessoas que morreram pelo país. E ele amou tanto esse país que morreu por ele”.
O herói congolês tinha apenas 36 anos quando foi assassinado. Sua filha até hoje lamenta sua morte e afirma que ele representava o orgulho africano.
“Ele encarnava isso: que, para ser realmente livre, a pessoa negra, o congolês, tinha que falar de igual para igual com o branco, com o colonizador”.
‘O colonialismo não foi destruído’
Juliana Lumumba acredita que o colonialismo, alvo de luta do pai, não foi destruído. Para ela, o fenômeno ganhou uma nova forma, o neocolonialismo.
“Naquele tempo, era mais fácil dizer quem era o inimigo. Era o colonialista, o homem branco. Era fácil ver quem era o inimigo: o belga, o português, o espanhol, o inglês. Mas agora, quem é o nosso inimigo? A multinacional? O seu irmão que é corrupto? Aquele que você luta por ele, mas está vendendo medicamentos falsos que matam pessoas?”, questiona.
Vizinhos da RDC, Ruanda e Uganda são acusados de apoiarem grupos armados no leste do país para garantir a extração de minérios do país e vender de maneira ilegal.
Relatórios da Organização das Nações Unidas (ONU) afirmam que esses grupos, como o M23, milícia de maioria tutsi apoiada pelos dois vizinhos da RDC, levam esse minério para Ruanda.
A República Democrática do Congo tem as maiores minas de coltan e cobalto do mundo, minérios fundamentais para a chamada transição energética, a mudança da fonte de energia do petróleo para baterias elétricas.
O governo da RDC entende os saques apoiados pelos países vizinhos como parte de uma estratégia global. No começo deste ano, o país acusou a Apple de comprar minérios ilegais que vêm de Ruanda. A empresa negou e suspendeu a compra de minérios dos dois países.
A pergunta é: ‘O que a RDC quer para si?’
Para Juliana Lumumba, todos os países que negociam a paz com a RDC e mesmo aqueles que a atacam têm seus interesses políticos e econômicos nítidos. Ela sente que falta essa clareza de objetivos por parte do seu país.
“O problema é que há um grande interesse e nós somos muito ricos para ficarmos sozinhos. Para mim, enquanto não estiver claro o que queremos como congoleses, o que está errado, o que está certo, onde machuca, não vai dar certo. Todo mundo tem interesse, isso é normal. Os americanos, os cataris… Mas o que nós queremos enquanto congoleses?”, questiona.
Ruanda e a República Democrática do Congo assinaram um acordo de paz no dia 27 de junho, sexta-feira. Sob a mediação dos EUA, que garantiu acesso privilegiado aos minerais congoleses, o tratado não envolveu o grupo armado M23, responsável pela invasão de Goma e Bukavu, capitais do Kivu do Norte e do Kivu do Sul.
A expectativa é de que o Catar faça a mediação para um acordo entre a RDC e o M23.
‘A gente precisa dos nossos próprios meios’
Juliana Lumumba acredita que os países africanos precisam construir políticas de soberania sobre os seus recursos naturais e construir
“A gente precisa ter os nossos próprios meios. Nossa própria maneira, nosso ouro, diamante. Hoje eles vêm e pegam o quiserem”, afirma.
Ela avalia que ainda existe uma divisão internacional do trabalho entre os países que coloca os africanos como aqueles que oferecem a matéria-prima, enquanto outros produzem (e lucram) com a tecnologia produzida com elas.
Os EUA têm o objetivo de construir uma ferrovia, chamada de Corredor de Lobito. A meta é cortar a República Democrática do Congo e Angola e abrir uma saída para o Oceano Atlântico, escoando minerais das duas nações.
“A economia mesmo, a nossa economia como africanos, está nas mãos de outras pessoas. Nós não estamos realmente em posse da nossa própria economia”, lamenta.
Pedro Borges é cofundador, editor-chefe da Alma Preta. Formado pela UNESP, Pedro Borges compôs a equipe do Profissão Repórter e é coautor do livro “AI-5 50 ANOS – Ainda não terminou de acabar”, vencedor do Prêmio Jabuti em 2020 na categoria Artes.
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