
Por Urda Alice Klueger.
Escrito na sexta-feira, 25 de abril de 2025.
Às quatro da manhã de hoje Fernando Collor de Melo foi preso para amargar alguns anos de prisão, apesar dos 75 anos, e eu como que respirei aliviada.
Ele não foi preso pelas desgraças lá do passado, que a nossa branda lei já o redimiu, mas por safadezas novas, mas eu não esqueci das antigas. Revi tudo, desde ontem: o caçador de marajás se elegendo presidente (sei de muita gente que votou nele porque era bonito) e tomando posse dando coices no povo, como foi o que se passou.
Lembro muito bem daquele dia 15 de março de 1990 e do que acontecia no banco onde eu trabalhava – ainda era tempo do rádio, e o banco estava lotado de gente, poupadores tradicionais ou novos. Era um dia barulhento com tanta gente mais o rádio cheio de autofalantes ligados, mas ninguém queria perder o que acontecia em Brasília. Lembro de uma gerente mandando desligar o rádio e eu me rebelando, dizendo que iria embora para escutar rádio em casa, o que fez a gerente reconsiderar.
O rapaz bonito, de fino trato, usando terno de qualidade, subiu a rampa do palácio do Planalto, pegou uma pilha de folhas – cada uma era um decreto – passou a assiná-las uma após outra e todos foram se calando, sem entender direito nem acreditar que aquilo fosse possível: de uma penada só, ele confiscou a poupança de todo o mundo, de ricos e de pobres, restando a cada um o valor de 50.000 cruzados, o que significa, no dinheiro de hoje, algo inferior a 10.000 reais, sem contar as muitas outras medidas antipáticas, como o congelamento de preços e salários por 45 dias, quando vivíamos uma inflação de mais de 84% ao mês. O mundo virou de cabeça para baixo.
Ninguém acreditava que aquilo estava acontecendo e já era de tardinha quando a Rita, colega com grande capacidade de lógica, sentou-se em algum lugar e ficou sintetizando os acontecimentos: – Peraí, cada um, agora, tem 50.000 cruzados. É tudo igual, não importa quantos milhões a pessoa tinha hoje de manhã… – e a Rita foi destrinchando a coisa, enquanto cada um de nós tentava absorver a realidade. A Rita era uma das nossas lideranças e havia as informações na imprensa – aquilo era mesmo como a ela falava? Os três dias de feriado bancário que se seguiram foram de loucura, com gente varando a madrugada somando cheques da compensação e o contínuo matraquear do telex de fitinha perfurada sem parar de receber instruções de Brasília.
O país mudou. Sei de gente que só comia em restaurantes finos que teve que voltar a cozinhar feijão e arroz em casa por falta de dinheiro e sei de gente que se suicidou porque tinha dívidas a pagar e o dinheiro já não existia – incontáveis coisas aconteceram país afora. Em algum momento Fernando Collor de Mello deu um passinho atrás na maldade: liberou a poupança de quem tinha mais de 65 anos e não pagava imposto de renda, mas era complicado provar tal coisa ao banco, pois havia que abrir um processo cheio de documentos, e os bancos voltaram a regurgitar de gente. Essa medida só foi boa para idosos pobres e durou poucos dias.
Houve uma noite em que o Jornal Nacional comunicou que o dia seguinte seria o último para fazer a solicitação do dinheiro e a manhã seguinte foi como uma guerra, com os refugiados idosos e pobres se acotovelando diante do banco desde a madrugada. Uma enorme multidão de gente idosa fechou a rua diante do banco onde eu trabalhava e, naquele dia todos os meus colegas só fizeram atender àquelas pessoas fracas e maltratadas, que era contida na rua, à força, por forte cordão de jovens musculosos soldados da Polícia Militar. Era a única forma de se conseguir manter alguma ordem e a multidão não se espatifar de encontro à porta de vidro do banco, que se quebraria e causaria ferimento nas pessoas.
Meu pai havia morrido de insuficiência respiratória, fazia poucos anos, e eu sabia do sofrimento que é não poder respirar direito. E ali naquela multidão com mais de 65 anos eu via incontáveis velhinhos com insuficiência respiratória que eram empurrados de um lado para o outro pelos velhinhos com boa respiração, sem nunca conseguirem chegar até à porta do banco. Eram pessoas fracas, azuladas pela falta de oxigênio, incapazes de se defenderem, e foram eles quem acenderam dentro de mim este rancor e esta raiva que sinto até agora contra Fernando Collor de Melo. Só hoje, 35 anos depois, sinto alívio na raiva que tenho contra o f.d.p. Aproveita bem a prisão, seu asqueroso imundo. Que nunca saias de lá, ser nojento e podre. Que te falte até o ar, como aconteceu por todo o país com tantos velhinhos. Que fiques azul como os velhinhos ficaram naquele dia.
Sertão de Enseada de Brito, 25 de abril de 2025.

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