Por Francisco Fernandes Ladeira.
Em meio à repercussão do falecimento e funeral do Papa Francisco, me chamou a atenção uma interessante análise feita pelo professor Wilson Ferreira, do canal Cinegnose. Ferreira apontou que, nos noticiários da grande mídia brasileira, salvo exceções pontuais, foi omitida a palavra “pobre”. Não se trata de um detalhe ou mero descuido.
Conforme a tradição, ao assumir o pontificado, o novo líder da Igreja Católica abdica de seu nome original. E esse novo nome já indica como será seu papado. Bento, por exemplo, sugere um período conservador. Francisco significa a opção pelos pobres.
No entanto, na Folha, Estadão, Globo, Veja e afins, Francisco foi lembrado como progressista, amigo das minorias, dos refugiados, defensor do meio ambiente e contra as desigualdades. Quase nenhuma menção sobre o direcionamento (pelo menos teoricamente) de seu papado: a opção pelos pobres.
Como a experiência nos mostra, um discurso midiático não deve ser analisado apenas pelo que diz, mas, sobretudo, pelo que não diz. Perseu Abramo, ao abordar as diferentes formas de manipulação presentes na imprensa brasileira, chamava isso de “padrão de ocultação”.
Nesse sentido, ao omitir a palavra pobre, os discursos da grande mídia também escondem a própria dinâmica do sistema capitalista, responsável por gerar milhões de pobres em todo o planeta.
Para a ideologia midiática, seria um grande incômodo constatar que existem pobres no mundo. Quando não é possível omitir essa realidade excludente, seguindo as lógicas da meritocracia e do coachismo, os pobres são vistos como aqueles indivíduos que não se esforçaram o suficiente, por isso estariam em situações precárias.
Além disso, ocultar as relações de determinados religiosos com os pobres e suas denúncias sobre injustiça social não é uma manobra discursiva presente apenas nos noticiários. Ocorre também em programas de entretenimento.
Na telenovela “Renascer”, exibida em 1993 pela Rede Globo, havia um personagem, Padre Lívio, caracterizado por suas falas politizadas, que, entre outras temáticas, levantava a necessidade de se realizar uma reforma agrária efetiva no Brasil. Não por acaso, era chamado de “padre comunista”. Três décadas depois, no recente remake de “Renascer”, feito sob medida para ser uma espécie de apologia ao agro, Padre Lívio simplesmente foi substituído por um pastor evangélico.
Assim como o papa não pode ser associado aos pobres, a trama global não poderia contar com um “padre comunista”.
Diante dessa realidade, não é difícil imaginar que, se a grande mídia brasileira fosse noticiar as falas de Jesus, haveria censura a frases como “Bem-aventurados vocês os pobres, pois a vocês pertence o Reino de Deus” e “É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus”.
Jesus seria representado como progressista, amigo das minorias e tolerante. Menos como alguém que, na luta de classes da época, estava do lado dos pobres.
Francisco Fernandes Ladeira é Doutor em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Licenciado em Geografia pela Universidade Presidente Antônio Carlos (Unipac). Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ).
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