Ciro queria prender os Bolsonaro, agora quer governar com eles.

Foto: Reprodução/X

Por Luiza Soeiro para Desacato.info

Era sábado de manhã no Conjunto Ceará, bairro periférico de Fortaleza, quando Ciro Gomes chegou ao Centro Educacional Evandro Ayres de Moura acompanhado da esposa e de apoiadores. O local escolhido para o lançamento da pré-candidatura ao governo do estado não era por acaso: a periferia como cenário. A narrativa de quem veio de baixo e fala pelos de baixo, mas problema é que, desta vez, o palanque estava decorado com outras bandeiras.

Nos arredores do colégio, placas e cartazes exibiam o rosto de Flávio Bolsonaro. Dentro do evento, antes mesmo de Ciro subir ao palco, foram exibidos vídeos de apoio gravados por Capitão Wagner e outros aliados. Na plateia, camisetas verde, amarelo e azul. E entre os presentes, o deputado federal André Fernandes, do PL, o mesmo partido que Ciro Gomes passou anos atacando como expressão do retrocesso democrático brasileiro.

Bem-vindo ao lançamento de candidatura mais contraditório da política cearense em décadas.

Ciro foi ao microfone e disse, sem que ninguém pedisse, que virar candidato “não era seu plano nem de longe”. Lembrou da derrota de 2022, quando terminou em quarto lugar na corrida presidencial, o pior resultado de sua carreira, e foi mais longe: classificou aquela eleição como “uma humilhação”. Citou Sobral, sua cidade natal, onde perdeu até em casa. Disse que já estava na “idade de se aquietar”.

A confissão é reveladora. Ciro Gomes não voltou ao Ceará porque o Ceará precisava dele, voltou porque ele precisava do Ceará. Após o naufrágio presidencial, a base eleitoral regional era a única tábua disponível. O PSDB, partido pelo qual foi eleito governador nos anos 1990 e que ele havia deixado há quase três décadas, abriu as portas. Tasso Jereissati articulou o retorno. Aécio Neves recebeu o telefonema e soltou nota de boas-vindas.

O candidato que se vendia como alternativa nacional ao bipartidarismo Lula-Bolsonaro voltou para casa de mãos abanando, e ainda com a tarefa de convencer o eleitor de que a volta não é derrota.

A piada já vem pronta, mas essa é a simples opinião da jornalista que vos escreve.

A frente anti-PT e o elenco improvável

Para montar sua candidatura, Ciro convocou uma reunião de ex-adversários. Roberto Cláudio, do União Brasil e ex-prefeito de Fortaleza, foi convidado para vice. 

Sim, o mesmo Roberto Cláudio que disputou o governo do estado em 2022 e perdeu para o PT. 

Capitão Wagner, figura histórica da direita cearense que trocou insultos com os Gomes por anos, aparece como candidato ao Senado na mesma chapa. E André Fernandes, do PL bolsonarista, senta no mesmo palanque com quem, em outros tempos, prometeu tirar a família Bolsonaro das ruas.

O próprio Ciro percebeu o absurdo da cena e tentou se antecipar à crítica: “Se quiser recuperar na internet o que um falou do outro, vai ser uma beleza para quem quiser fazer essa sabotagem.” A frase é de uma desonestidade estratégica considerável. Não é sabotagem, mas a memória de ninguém é tão curta assim. 

Em anos eleitorais, candidatos gostam de fingir que o registro público simplesmente desaparece, como se anos de contradição política pudessem ser varridos pela convenção de um único colégio eleitoral.

Sobre André Fernandes, Ciro foi além do silêncio diplomático. O chamou de “jovem talento”. Indicou Pastor Alcides, também do PL, como o nome do partido para compor a chapa ao Senado. E disse, com a cara mais limpa possível, que “não há contradição” em receber apoio do PL.

A aliança que o próprio bolsonarismo rejeitou — e aceitou — e rejeitou de novo

O que Ciro não contou no discurso é que essa aliança custou uma crise interna ao PL. Flávio Bolsonaro chegou a declarar apoio público à candidatura de Ciro e depois recuou, dizendo que ainda não havia definição. Michelle Bolsonaro foi pessoalmente a Fortaleza, em dezembro de 2025, para o lançamento da pré-candidatura do senador Eduardo Girão, do Novo, e disparou contra a aproximação: “Não dá para fazer aliança com um homem que é contra o maior líder da direita.” Em referência ao marido.

O deputado André Fernandes, presidente do PL no Ceará, resistiu à pressão de Michelle e manteve o apoio a Ciro. A briga expôs uma fratura real dentro do bolsonarismo cearense, e Ciro ficou no meio, esperando o resultado. Enquanto isso, segundo o portal PlatôBR, o pré-candidato estava na Disney, em Orlando, passando quinze dias com a família, alheio às guerras internas do clã Bolsonaro em torno do seu nome. 

A verborragia que o define em público sumiu durante a confusão, e só voltou quando o pó baixou.

A gramática da direita entrou pela porta da frente

Se a aliança com o PL ainda poderia ser lida como um arranjo pragmático regional, o discurso de sábado deixou claro que a aproximação vai além da geometria eleitoral. Ciro atacou o Supremo Tribunal Federal, falando em “abusos” cometidos por ministros da Corte. Não desenvolveu, nem exemplificou, mas insistiu na pauta, que foi  importada diretamente do repertório que alimentou os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023.

Para um homem que passou anos se apresentando como defensor do Estado democrático de direito e da soberania nacional contra o autoritarismo bolsonarista, a crítica ao STF no mesmo evento em que recebeu apoio do PL não é detalhe, mas parece que agora temos posicionamento.

Finalmente.

O episódio do “CV”: um resumo acidental de tudo

Em determinado momento do discurso, Ciro interrompeu a própria fala ao avistar um apoiador no público fazendo um gesto com as mãos. Concluiu que era o símbolo do Comando Vermelho e reagiu imediatamente: “Meu irmão, você está querendo ser preso? Vai começar aqui. O cara está fazendo o símbolo do Comando Vermelho ali. Prende ele.”

O apoiador explicou que estava fazendo o “C de Ciro”. O pré-candidato pediu desculpas e aproveitou para reafirmar sua postura: “É que eu sou vigilante. Comando Vermelho aqui vai para a cadeia.”

Ciro confunde gesto de apoiador com apologia ao CV em evento: ‘Prende ele’Foto: Reprodução

A gafe é pequena, mas engraçada. Um candidato que não reconhece o gesto dos próprios eleitores. Um político que, no ato de apresentar sua candidatura, manda prender quem veio celebrá-lo. 

É um discurso de segurança pública tão inflado e performático que chega a confundir apoio com ameaça.

O que o passado não deixa esquecer

Há registros públicos. Há vídeos. Há entrevistas. Em diferentes momentos da última década, Ciro Gomes afirmou ter provas para prender a família Bolsonaro inteira. Chamou Jair Bolsonaro de jumento. Construiu parte considerável de sua identidade política sobre a rejeição ao projeto que agora abraça como aliança estratégica.

A justificativa oficial é a crise de segurança pública no Ceará. A tese é que o avanço das facções criminosas nos últimos dez anos, sob governos petistas e do PSB, criaria uma situação tão grave que justificaria uma frente ampla de oposição,  mesmo que essa frente inclua o PL. “A união é para libertar o Ceará do mal maior”, disse Ciro.

O problema com essa lógica é que ela sempre existiu para quem quis usá-la. O “mal maior” é um argumento elástico: estica até onde a conveniência permitir. Ontem o mal maior era o bolsonarismo. Hoje é o PT. 

E Ciro, em ambos os casos, se coloca como o único capaz de enfrentá-lo.

Ah, sim.

A pesquisa Genial/Quaest de abril mostra que ele lidera contra o governador Elmano de Freitas em cenário de segundo turno, com 46% a 35%. Perde para Camilo Santana, se o ex-ministro da Educação entrar na disputa. Esse resultado do mapa eleitoral explica a aliança melhor do que qualquer discurso sobre segurança pública.

Ciro Gomes não mudou de campo, porém descobriu que o campo em que sempre esteve era mais elástico do que parecia. E apostou que o eleitor cearense vai esquecer o que ele disse antes de lembrar o que ele promete agora.


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