“Colado no consulado brasileiro”, 13/8/2022, Cassio Mussawer Montenegro, residente, vizinho do consulado em Ciudad del Este, tendo escolhido viver a poucos metros da repartição consular.
“Minha família era tradicional e de posse”, autobiografia do criminoso C. M. M., 25/7/2019.
“Faltava apenas a vontade e a oportunidade de tornar-me candidato e esta veio com as redes sociais e a Internet… onde exatamente reside a verdade”. C.M.W., Pré-Vereador, Foz do Iguaçu, 15/12/2024.
Como tratar de tiros e burocracia num mesmo texto antifascista. Sem rodeios.
Meu anterior texto, publicado no Portal Desacato e reproduzido em diversos meios, iniciava e terminava com um apelo: empatia e respeito em relação à família de uma brasileira falecida no exterior. Juliana Marins.
No meio de um complexo processo de mudar a lei de traslados de corpos de pessoas brasileiras falecidas fora das nossas fronteiras (com erros e acertos que poderei detalhar em outro momento oportuno), havia toda uma família passando por um sentimento de dor profunda.
Hoje, aqui em Barcelona, acordei com um triste chamado pelas redes sociais.
E uma infeliz coincidência, embora em circunstâncias incomparáveis.
Conheci, recentemente, uma fotógrafa brasileira que mora no exterior.
E agora fiquei sabendo que o seu pai tentou se suicidar na portaria do Consulado Brasileiro em Ciudad del Este, no Paraguai.
Antes de tentar se matar, disparou e tentar matar outra pessoa.
Quais os motivos? Qual o contexto?
A velocidade insana das redes sociais exibe vídeo e fotografia com todos os detalhes sangrentos, no mesmo minuto em que os disparos ocorreram. Está tudo gravado. Será Viral. Quem duvida?
A ironia é que, para o criminoso, a Internet era dom da verdade.
Alguma Mídia o trata como advogado, com causa movida (por ele) contra a própria OAB.
No Paraguai ou na Espanha, tentam denominar como Gestor (em castelhano), aquilo que no bom português do Brasil chamamos basicamente de Despachante. Em tempos imemoráveis (na ditadura, por exemplo), o Despachante é o personagem mais associado ao Jeitinho, a base clássica da corrupção brasileira. Para quem mora no exterior e precisa enfrentar xenófobas burocracias (além da brasileira, a burocracia em dobro; do país que escolheu-se ou foi obrigado a ir, para viver), existe essa estabelecida figura parasitária do entramado burocrático oficial.
Especialmente apto para quem pode pagar e ainda agradece pelo seu serviço.
Antes de lembrar que a imensa maioria não pode pagar por isso, recordemos que a Burocracia é um elemento historicamente incorporado ao ordenamento jurídico estatal. Confunde-se propositadamente com o próprio Estado, que a abriga (com ou sem disfarces). O parasita existe porque a Burocracia não somente o permite, como o regulamenta e direta ou indiretamente ainda o incentiva. Recordo ter sido no Governo da Presidenta Dilma a introdução de uma norma que que desincentivava a sua promoção por parte dos consulados.
Atenção para essa análise nada menor nas nossas vidas. Como não se eliminará a Burocracia da noite para o dia (leiam Graeber!), sou dos que acreditam que deveria ser chamada pelos governos para tratar da sua regulamentação, de boas práticas, dotar de transparência (como tentou fazer a Lei da Transparência da mencionada Dilma), reconhecer bom trabalho e punir severamente os fraudulentos. Se não pode com o amigo que você mesmo criou (Estado Brasileiro), antes de torná-lo seu inimigo, una-se a ele. Sempre é hora de pensar no bem comum.
Faz 20 anos que eu lido com isso, nessa eterna contradição.
Entre a gratidão de quem pode recorrer a um despachante e a angústia de quem nem pode.
Para isso, como alternativa, há o trabalho das associações comunitárias sem fins lucrativos, igualmente ignoradas por todos os nossos governos. Ou as parcerias entre associações e juristas de verdade, com transparência e fiscalização dos organismos públicos locais.
Voltando ao crime na Ciudad del Este, outra ação judicial vincula o criminoso a um processo judicial no STF contra o Governo Federal. Uma ação judicial para defender os seus interesses como microempresário, comerciante de produtos eletrônicos, vinculado à atividade profissional dos sacoleiros, compradores no Paraguai e vendedores no Brasil.
No dia 28 de setembro de 2019, tirou foto de uma Coroa de Flores (considerando o simbólico enterro da Constituição Federal) na porta do STF.

Nao são poucas as críticas duríssimas do advogado sobre Lula e o seu governo. Vários vídeos ainda estão disponíveis no seu feicibuqui.
Uma pessoa o descreve como Reverendo (junto a uma denúncia impublicável) que o vincula a supostas violências machistas.

Uma foto (sua?) o mostra (a ele ou a alguém muito parecido) vestido de religioso, diante de um altar. O fato é que foi ele mesmo que (se) postou.
Nas suas redes sociais, costumava reivindicar, invariavelmente, o nome de Deus.
Porém, o que mais impressiona é a obsessão pela sua própria carreira política.

Para um cientista político (a isso dediquei grande parte dos meus estudos e não me é estranho) está cada vez mais fácil distinguir o que alguns chamam de extremismo, polaridade ou divisão exacerbada.
Como se fosse igual o que atua em defesa própria, legítima, de classe, da maioria, das injustiças, e o que age em nome do ódio violento de defesa e manutenção dos seus privilégios (injustos).
Na Ciência Política, a ordem dos fatores altera significativamente o produto.
Tal como no Genocídio que Israel promove (não é de hoje) na Palestina.
Por isso, para o alienado, se o extremista for de esquerda, se igualaria à extrema-direita.
E por isso mesmo faz tempo que eu só me refiro à Extrema-Direita diretamente como Fascista.
É mais simples do que pensamos, ao somar os fatores que (felizmente ou infelizmente) configuram um perfil que representa um perigo não somente para quem não faz parte desse grupo.
Por uma bala fascista morre não somente quem é contra o fascista.
Sim! Chama-se Fascismo. E foi conceitualizado na metade do século passado.
Para que dar tantas voltas ao dizer-se o nome?
Sigam esta lista, embasada em suposições relativas ao fato. Denúncias de violência machista. Ascensão ao poder religioso, sacerdotal, ou como queiram chamar. Empresário, proprietário da Spinway Eletrônicos. Portador de arma de fogo. Milhares de seguidores nas redes sociais. 1.942 seguidores só no Feici. Mais de 215 mil seguidores no Insta. Candidatura pelo partido Republicanos. O mesmo do Governador de São Paulo, promotor e incentivador de chacinas policiais e do uso desenfreado de armas de fogo.
Não me exijam meias-palavras: é o mais puro bolsonarismo, enfim.
Nem adianta perguntar em quem ele votou nas eleições passadas.
Está lá, na sua Internet.
A mesma Internet que tanto venerava.
Em todos os casos, desejo paz. Mas não uma paz imposta por quem age violentamente.
A paz não pode ser usada por quem quer impor sua violência a quem mais já está sofrendo.
A mesma paz desejada para a família do criminoso.
PS.: Ontem mesmo, Lula esteve com o Presidente do Paraguai anunciando obra estrutural na ponte que liga ambos os países. Há ainda quem mencione nas suas redes sociais este anúncio publicado horas antes do crime cometido pelo advogado Cassio.
Aquele abraço.
@1flaviocarvalho, @amaconaima, sociólogo e escritor. Barcelona, 4 de julho de 2025.
Referências
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