Melhor deixar, agora, Juliana em paz. Por Flávio Carvalho.

Foto: Reprodução/Instagram

Por Flávio Carvalho.

Melhor seria não falar de Juliana Marins. Nem da Indonésia. Mas como a onda é opinar (ser Influencer) sobre tudo, mesmo sem base para falar, aqui estão muitas coisas que eu não direi sobre isso.

“Leva os teus sinais” (Pedaço de mim, Chico Buarque).

Você me lendo é a prova de que há enorme interesse e movimentação a seu respeito.
O mais importante e que ninguém diz é o quanto ela e a sua família precisam descansar em paz.

Recuso-me a mencionar o quanto ainda tem muita gente capaz de aproveitar-se de tudo isso: uma morte, uma vida.

Não vou falar, por exemplo, daquele casal de empresários brasileiros em Barcelona que obrigaram o governo da Catalunha a resgatá-los com helicóptero dos bombeiros e dinheiro público (que iria para alimentar famílias com crianças vulneráveis, morando aqui nas ruas), mesmo depois de inúmeros avisos e descumprimentos de todas as precauções para enfrentar os mais duros Montes Pirineus. Antes de desaparecerem no meio de um imenso parque natural, postaram belas fotos nas suas redes sociais demonstrando sua maravilhosa e instagramer capacidade aventureira, sem estar tecnicamente preparados para isso.

Não comentarei nada sobre o fato de Juliana ser uma jovem negra que está enfrentando a sua segunda morte nas redes sociais (verdadeira selva racista) com aquele mais típico falso moralismo brasileiro (bolsonarista) que opina pentecostalmente sobre sua dança periférica, sua roupa, seu corpo e sobre em quem ela deve ter votado ou não nas últimas eleições presidenciais.

Não direi nada sobre aquele Iutúber que captou milhares de seguidores filmando o descanso da equipe de resgate, a Basarnas (Busca e Resgate da Indonésia). Não opinarei sobre os milhares de opinadores novatos falando sobre Alpinismo sem a menor experiência a respeito disso.

Quando ocorre uma morte por imprudência (só uma exaustiva análise de peritos e da justiça pode determinar quem a cometeu e até inocentar ou não vitimizar novamente a vítima, se for o caso), é recomendável não usar essa palavra Imprudência durante pelo menos seis meses. Pronto: a usei.

Por último, não direi nada sobre o meu ofício.

Mesmo que eu já tenha atuado em muitos casos de pedidos de auxílio público para traslados de corpos falecidos (daqui do exterior) ao governo brasileiro. A maioria sem êxito.
Mesmo que eu também não apresente falsa modéstia sobre conhecer bem os mecanismos que impedem que o Brasil pague por um corpo falecido a ser devolvido para a sua família, no nosso país. Não entrarei no incômodo assunto da regra diplomática de 2017 que regulamenta isso. Nem de como a opinião dos brasileiros no exterior jamais foi escutada a respeito disso.

Ainda que eu não diga, por experiência nisso (traslado de corpos, falecidos), que a companhia aérea cobra mais de quatro vezes o preço de um corpo vivo, em relação a transportar o corpo de uma pessoa falecida.
Nem é, de fato, sobre isso.
Assim como não apresentarei publicamente minhas severas críticas ao serviço público brasileiro no exterior em relação à desassistência de 5 milhões de pessoas brasileiras vivendo fora do nosso país.

Como é muita complexidade, que nem por isso deve deixar de ser falada, eu declino da vossa insistência para que sigamos falando sobre isso.

Para saber mais sobre o que eu não devo falar, basta me seguir nas minhas redes sociais.

O principal, em tudo isso, eu insisto: é que Juliana descanse em paz.

Esse texto está carregado de ironias. Lamento muito.

@1flaviocarvalho, sociólogo e escritor.

Flávio Carvalho é sociólogo, participante da FIBRA e do Coletivo Brasil Catalunya.

A opinião do/a/s autor/a/s não representa necessariamente a opinião de Desacato.info.


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