Violência contra mulher: “Não queremos nos adaptar, queremos romper com o sistema”

O mês de julho vai se findando para que chegue agosto e, com o novo mês, os quinze anos do aniversário da Lei Maria da Penha. Nessa reportagem, a jovem Andressa Bonatto, de São Miguel do Oeste/SC, conta sobre as agressões que sofreu do ex-namorado e nos faz refletir para qual sociedade desejamos construir. Aqui, o estudo sobre o Feminismo Classista aparece como um sinal de libertação, para a ruptura dos sistemas de morte, um caminho para o processo de reeducação do mundo.

Foto: Claudia Weinman/ Mística no 8 de março de 2020. “Na sociedade que a gente quer, basta de violência contra mulher”.

Por Claudia Weinman.

Existe a violência que se nota, mas também tem a que não se vê, do lado de fora.

O mês de julho vai se findando para que chegue agosto e, com o novo mês, os quinze anos do aniversário da Lei Maria da Penha, sancionada em 7 de agosto de 2006 e que contou com a força, em 2015, da lei do Feminicídio, trazendo alguns avanços importantes no combate à violência doméstica e de gênero. Essa é uma lei considerada referência no mundo e com base nela, Andressa Bonatto, 27 anos, que mora em São Miguel do Oeste, interior de Santa Catarina, conseguiu uma proteção um pouco mais ampliada, quando sofreu a última violência do namorado, no início deste mês.

Andressa, que em outros momentos havia feito fotografias dos braços e pernas machucados, se utilizou das redes sociais virtuais para denunciar as agressões. “Em outros momentos ele machucou as minhas pernas com beliscões e eu o arranhei para me defender. Ele arrancou os cílios dos meus olhos e eu disse que não permitiria que ele me batesse novamente. Ele prometeu se comportar e eu, acreditei”, disse.

Nas fotos, os sinais de violência que Andressa sofreu em outros momentos:

Fotos: Arquivo pessoal.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mas acontece que as promessas também são um dos sinais e indicativos de relacionamentos violentos, tóxicos, que trazem como característica essa “confusão” na cabeça das vítimas. Os xingamentos, as palavras ofensivas, os gritos, o fato de existir alguém que oprime e outra pessoa que seja oprimida, também conduzem à identificação de relacionamentos que são abusivos e que podem, na medida em que essas violências se desencadeiam, gerar outras, materializadas inclusive nas fotos que Andressa mostra com tristeza e que, ao mesmo tempo, refletem para qual seria o próximo passo do agressor que, segundo a vítima, já havia escrito frases como: “quero te ver morta” – “tomara que você se mate”.

“A gente havia saído para comemorar em um motel e quando chegamos em casa, ele insistiu para sairmos novamente para beber. Eu disse que não, que eu tinha que trabalhar cedo. Ele ameaçava sair e começou a pisar forte no chão, até que discutimos, ele me empurrou, me deu vários chutes e eu comecei a morder ele para me defender. Ele me deu vários socos na cabeça, chega me doer a mandíbula para comer. Comecei a gritar por socorro, os vizinhos ouviram e chegaram, me tiraram de lá. A polícia foi acionada e pegaram ele em flagrante enquanto ele seguiu me agredindo verbalmente dentro do carro da polícia”, contou Andressa.

Fotos: Arquivo pessoal.

Mas e se ninguém te escuta? Se os vizinhos não chegam?

O machismo, o patriarcado, que são estruturais, que preexistem ao sistema vivenciado por todos e todas nós, configuram a base das violências que se tornam naturais para a sociedade. Entre o dia primeiro de janeiro a 30 de junho de 2021, 20 mulheres morreram vítimas de feminicídio em Santa Catarina – um crime de ódio para denominar as mortes de mulheres por conta do gênero.

A cada seis dias, uma mulher foi morta no estado catarinense no ano passado e 59 mulheres foram assassinadas por serem mulheres. Um artigo publicado pelo Instituto Igarapé, aponta um aumento de 33% na média de casos em Santa Catarina durante o período de isolamento se comparado aos dois primeiros meses de 2020.

Os dados refletem que se os vizinhos de Andressa não tivessem chegado em tempo, ela poderia entrar para as estatísticas. Quando os vizinhos apareceram e a polícia foi acionada, Andressa conta que sentiu um alívio, mas, em seguida, o pai do agressor pagou a fiança. “Ele não ficou nem uma hora preso e a família ainda me mandou mensagens cobrando. Ele veio lá em casa, pegou algumas coisas, entre elas, o dinheiro que era nosso, que tínhamos guardado para viajar”.

Andressa não se sentiu segura e encontrou como caminho, buscar as redes sociais virtuais para chamar atenção a toda situação de violência por ela sofrida. “Vim na internet, fiz tudo isso para encorajar outras mulheres e quando me deparei, tinham várias mulheres passando por situações semelhantes e que me procuraram para relatar. Tive mais de seiscentas respostas de pessoas que vieram me apoiar, prestar solidariedade”, relatou.

Em outros momentos, Andressa relata que sofreu com empurrões e humilhações diversas. “Teve um dia que ele me empurrou para fora do carro, os vizinhos viram e eu senti muita vergonha. Ele também veio na casa dos meus pais, chamou a gente de lixo. A gente é de família humilde, então ele acha que a gente não tem nada, se acha no direito de humilhar a mim e a minha família. Fico pensando nisso e na vez que ele me empurrou da moto e eu fiquei calada. Se eu tivesse denunciado já naquela vez…”, refletiu.

Brasil: quinto país que mais mata mulheres por questão de gênero

O relato de Andressa também traz para reflexão a tentativa que os agressores têm de fazer com que a vítima se sinta culpada, assim como, a sociedade julga a vítima, como foi o caso de Andressa, que teve inúmeras visualizações nos sites de notícias e os comentários foram reproduzidos como se essa situação fosse apenas “uma briga de casal” ou então, salientando que a vítima era mesmo ciumenta e também teria agredido seu agressor. Sobre isso, fala a advogada, professora de direitos fundamentais, conselheira do CMDM de Chapecó, Caren Machado. “O Brasil é o quinto país que mais mata mulheres por questão de gênero. Santa Catarina possui o maior índice de violência doméstica contra mulheres. Isso nos mostra o quanto precisamos avançar. O julgamento da sociedade é uma chaga, uma consequência do patriarcado, do machismo. Esse sistema coloca o homem no grau de superioridade, então, é impossível se pensar que isso é apenas uma ‘briga entre o casal’. Isso não é normal em um casamento”, destacou.

É impossível se pensar que isso é apenas uma ‘briga entre o casal’. Isso não é normal em um casamento”, destacou – Caren Machado, advogada.

 Como procurar ajuda?

Uma das informações importantes para as mulheres vítimas de qualquer tipo de violência, é saber a quem recorrer. Segundo a Advogada Caren Machado, primeiro a mulher precisa se perceber como vítima, o que segundo ela, nem sempre é fácil. “É comum a vítima se sentir culpada e as pessoas da família e sociedade culparem a vítima. Ela acaba pensando que ela é a causa da violência do agressor, quando não é. Além disso, existem vários tipos de violências, o caso da Andressa é algo explicito pela lesão, ou mesmo, quando temos um caso de feminicídio, acaba chamando mais a atenção da sociedade, no entanto, existem vários outros tipos de violência, como a psicológica, moral, sexual, patrimonial, e essa violência vai passar por um caminho, vai começar com a violência verbal, psicológica, violência física até o feminicídio”, explicou.

 “Existem vários outros tipos de violência, como a psicológica, moral, sexual, patrimonial, e essa violência vai passar por um caminho, vai começar com a violência verbal, psicológica, violência física até o feminicídio”.

Caren explica que, muitas vezes, a violência surge mascarada, revestida por um falso amor. “Em muitos casos acredita-se que se a pessoa tem ciúmes é porque te ama, gosta de ti, isso atrapalha a mulher na hora de entender e identificar que ela está sendo vítima de uma agressão”, apontou.

Por isso, é essencial a construção de redes de apoio. Caren lembra ainda que é importante que as mulheres tirem fotos e gravem vídeos quando conseguirem, verbalizem para alguém da família, amiga, por e-mail, conversa em redes sociais, a violência que está sofrendo, para que isso tudo possa ser coletado como provas futuras contra o agressor, como fez Andressa, ao registrar as violências sofridas em outros momentos. A Advogada reforçou ainda que as medidas protetivas estão previstas na Lei Maria da Penha e que esse é um elemento importante para que o agressor mantenha distanciamento da vítima. Além das provas e tudo que a vítima conseguir juntar, ela pode procurar ainda a defensoria pública, caso não possua condições financeiras para contratar um/a advogado/a e ainda, procurar o Ministério Público para efetuar uma denúncia. Outros caminhos também são importantes segundo Caren, como a busca por coletivos de mulheres e pelo conselho municipal dos direitos das mulheres.

Assista sobre esse e outros temas no JTT Oeste, toda sexta-feira, 18h30.

 A importância da rede de apoio

 Fernanda Carina Preuss está no último período do curso de Psicologia na Universidade do Oeste do estado de Santa Catarina – Unoesc, de São Miguel do Oeste/SC. Ela explica como a rede de apoio, seja ela formal ou não, pode ajudar no acolhimento às mulheres vítimas de violência. Segundo ela, a Delegacia de Proteção à Criança, Adolescente, Mulher e Idoso – DPCAMI da cidade é um dos caminhos onde, ao efetuar a denúncia, a vítima é encaminhada ao Centro de Referência Especializado de Assistência Social – Creas, espaço que vai garantir uma assistência psicológica e social para auxiliar a vítima que teve seus direitos violados.

Saiba mais: Fique atento/a aos sinais de violência e ajude as vítimas.

É claro que nesse caso, estamos falando de uma rede formal, porém, em um contexto social, as vítimas precisam ser acolhidas de forma mais ampla, contando com a família, amigos, pessoas próximas que a ajudem com a denúncia. Existem vários projetos para facilitar a denúncia, pois a mulher em uma condição de violência, é tomada pelo medo, ainda mais quando se percebe sozinha”, explicou.

Fernanda também destacou que quando as vítimas se sentem isoladas, sozinhas, torna-se mais difícil sair da situação de violência. “As vítimas podem se ver em um ambiente onde não encontram saídas, não conseguem visualizar com quem podem contar ou para onde recorrer. Por isso, tanto a rede de apoio formal ou qualquer outra, se tornam essenciais”, disse.

A estudante ainda mencionou que o Curso de Psicologia atua no atendimento de diversas situações, o que inclui a violência contra as mulheres. “Os alunos do nono e do décimo período realizam os atendimentos na clínica de psicologia que está situada dentro da Unoesc, um espaço que também se faz importante para o acolhimento das vítimas”.

O feminismo classista: para as novas relações e a ruptura da opressão

Foto: Julia Saggioratto.

A mulher sempre foi vista como sujeito secundário e inferior. A sociedade machista fez questão de evidenciar que lugar de mulher devia e deve ser na casa, na propriedade e na comunidade.  Para as mulheres foram negados muitos saberes. Esses são alguns dos elementos que levaram a construção do coletivo de mulheres feministas classistas, em São Miguel do Oeste/SC, formado por jovens militantes da Pastoral da Juventude do Meio Popular e Pastoral da Juventude Rural.

Jociani Pinheiro, assessora das organizações, explica que o objetivo é fazer um estudo sobre o movimento feminista classista, o qual segundo ela, propõe um processo de reeducação do mundo para novos valores. Ela destaca que o grupo é formado por meninas e mulheres do coletivo, mas que os meninos e homens também devem se organizar para compreender todo o contexto de lutas históricas. “É tarefa também dos homens compartilharem destes conhecimentos para coletivamente construirmos outras relações de gênero e com a natureza”.

Nas palavras da militante, destaca-se a importância de discutir as novas relações de gênero. Para ela, o feminismo classista traz para o centro do debate, a liberdade e autonomia não só das mulheres, mas a libertação de toda a humanidade, das relações de opressão, submissão e exploração. “O feminismo classista se coloca no centro de nossos debates, pois questiona a estrutura social e econômica, propondo a ruptura do capitalismo, para a construção de uma sociedade onde a classe trabalhadora tenha o comando e o controle dos meios de produção”.

Foto: Claudia Weinman. Feminismo Classista busca a superação do sistema de morte.

Para Jociani, estudar, debater e construir o feminismo classista entre as militantes da PJR e PJMP é uma tarefa revolucionária. “Essas meninas subversivas, indignadas e indóceis sonham com um outro mundo, livre de preconceitos e opressão, e lutam pela superação das classes, para a total libertação de todos os humanos, este sonho que também foi do jovem Camponês e Operário de Nazaré”.

Estudar o Feminismo Classista significa compreender que não há possibilidade de construir uma sociedade diferente, com justiça e dignidade, se não for de maneira coletiva. É entender que somos trabalhadoras e trabalhadores em uma sociedade dividida em classes, e que especialmente, as mulheres, além de sofrerem com o machismo em suas várias expressões na sociedade, são mulheres proletárias, que dividem a vida com homens proletários e acabam sendo vítimas do machismo no próprio contexto do proletariado. Significa também, que a transformação nas relações de gênero somente acontecerá se a luta for classista, se houver entendimento de que é necessário promover a ruptura do sistema capitalista, patriarcal e machista.

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Feminismo Classista: “As proletárias do proletário”

*Correção da reportagem por Julia Saggioratto.

 

 

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