Vazamento na Foz do Amazonas reforça alertas científicos sobre riscos da exploração de petróleo

O vazamento de fluido de perfuração registrado em uma sonda da Petrobras na Foz do Amazonas reforça alertas feitos há anos por pesquisadores sobre os riscos da exploração de petróleo na região. A avaliação é do biólogo e pesquisador Paulo Horta, entrevistado pelo Jornal dos Trabalhadores e Trabalhadoras (JTT).

Segundo Horta, a área apresenta condições ambientais extremas que tornam qualquer operação de perfuração um procedimento de alto risco. “Durante a vazante das marés, a plataforma continental se transforma praticamente em um rio caudaloso, com correntes muito fortes. Isso faz com que qualquer atividade delicada em grandes profundidades tenha uma probabilidade elevada de falha”, explicou.

Dados da própria Agência Nacional do Petróleo (ANP), citados pelo pesquisador, indicam que a região da Foz do Amazonas apresenta índices de acidentes entre 26% e 30%, percentuais significativamente mais altos do que os observados em outras bacias petrolíferas do litoral brasileiro. “Era muito plausível que algo assim acontecesse. Infelizmente, essa probabilidade se confirmou”, afirmou.

Impactos ambientais e transfronteiriços

Embora o vazamento registrado seja considerado de menor volume, Horta destacou que os impactos não podem ser minimizados. Ele explicou que a região abriga um complexo sistema ecológico conhecido como Grande Sistema Recifal Amazônico, formado por bancos de rodolitos, algas e invertebrados que servem de habitat para uma ampla diversidade de espécies, de pequenos crustáceos a grandes tubarões.

Além dos impactos locais, o pesquisador alertou para o alcance internacional do problema. “O que acontece na Foz do Amazonas não fica restrito ao Brasil. As correntes marinhas levam esses resíduos para o Caribe, para a Guiana Francesa e até para ilhas como Guadalupe e Bahamas. É um problema ambiental global”, afirmou.

Esses impactos também afetam diretamente comunidades tradicionais, povos indígenas e pescadores artesanais que dependem do equilíbrio desse ecossistema para sua subsistência.

Petróleo como modelo ultrapassado

Durante a entrevista, Horta criticou a insistência na exploração de petróleo em um contexto de crise climática. Para ele, não há mais espaço para ampliar a perfuração de novos poços. “Do ponto de vista climático, continuar apostando em combustíveis fósseis é aprofundar um modelo energético ultrapassado, que já demonstra seus limites”, disse.

O pesquisador destacou que o Brasil possui condições técnicas e naturais para acelerar a transição energética, com forte potencial em fontes renováveis como energia solar, eólica, biomassa, além da energia das marés e das correntes oceânicas. “O país já é líder mundial em geração de energia renovável. O que falta é direcionar os investimentos que hoje subsidiam a exploração fóssil para essas alternativas”, afirmou.

Responsabilidade política e fiscalização

Horta também ressaltou a necessidade de responsabilização política e de fortalecimento da fiscalização ambiental. Para ele, o vazamento deve servir como um alerta pedagógico em um ano decisivo para o debate público. “Não existe operação 100% segura. Falhar é humano. Por isso, insistir nesse modelo significa aceitar que novos vazamentos vão acontecer”, concluiu.

Segundo o biólogo, é fundamental garantir a atuação independente de universidades e instituições públicas, especialmente na região Norte, para monitorar os impactos ambientais e informar a sociedade com transparência.


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