Trauma, mentira e ausência de empatia: o que explica a política israelense

A professora Berenice Bento (UnB) propõe analisar Israel pelas lentes do transtorno narcisista. Para ela, o Estado se constitui como vítima eterna do Holocausto, o que justifica sua impunidade e violência contra os palestinos. Mentiras compulsivas, ausência de empatia e uma máscara de democracia seriam traços centrais dessa identidade coletiva que naturaliza o genocídio.

Imagem feita com IA

Por Tali Feld Gleiser, para Desacato.info.

Em entrevista ao programa Do Rio ao Mar, a professora Berenice Bento, do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília (UnB), propôs uma leitura ousada sobre o funcionamento político e social do Estado de Israel: a partir das características do transtorno de personalidade narcisista. A socióloga defende que a psicologia pode oferecer ferramentas importantes para compreender práticas de poder e violência no campo político, sem que isso signifique isentar Israel de suas responsabilidades históricas e jurídicas.

Segundo Berenice, a analogia parte da observação de que pessoas com traços narcisistas costumam se constituir como vítimas eternas de um trauma inicial, o que lhes confere uma percepção de superioridade e de impunidade. Esse comportamento, quando transposto ao nível coletivo, permite compreender a centralidade da narrativa do Holocausto na legitimação das ações israelenses contra os palestinos. “Assim como o narcisista individual acredita que o mundo lhe deve, Israel se coloca como vítima absoluta e, portanto, acima das regras e dos acordos internacionais”, afirma.

Entre as características centrais desse “narcisismo de Estado”, ela aponta:

  • A vitimização permanente: Israel constrói sua identidade em torno do trauma do Holocausto, projetando-o como justificativa eterna para suas políticas.

  • A ausência de empatia: assim como indivíduos narcisistas não reconhecem o sofrimento alheio, Israel nega a humanidade dos palestinos, tratando-os como descartáveis.

  • A mentira compulsiva (gaslighting): o governo israelense manipula narrativas para inverter responsabilidades, apresentando-se como a única democracia do Oriente Médio enquanto encobre práticas de ocupação, apartheid e genocídio.

  • A máscara positiva: o Estado se apresenta ao mundo como moderno, democrático, defensor dos direitos das mulheres e da comunidade LGBTQIA+, enquanto sustenta políticas violentas contra a população palestina.

Berenice reconhece que sua proposta é passível de críticas por “psiquiatrizar” uma questão essencialmente política. No entanto, ela insiste que a psicologia pode iluminar aspectos pouco explorados da formação de subjetividades coletivas. “Israel trabalhou o tempo inteiro na produção de um trauma coletivo, forjando uma identidade marcada pela perseguição eterna e pela ideia de povo eleito. Isso molda um tipo de sujeito e de sociedade que naturaliza a violência contra o outro”, explica.

Ao refletir sobre o futuro, a professora sugere que a ruptura só será possível quando a comunidade internacional “abandonar Israel” — isto é, romper relações diplomáticas e econômicas, tratando o Estado como um pária até que novas formas políticas surjam, como a proposta de um único Estado laico e democrático para todos os povos da região.

A análise de Berenice Bento, abre espaço para um debate mais amplo sobre a relação entre traumas históricos, identidades nacionais e práticas de violência. Ao deslocar o olhar do estritamente político para também o psíquico, a socióloga desafia leituras convencionais e provoca novas perguntas sobre a persistência da ocupação, o apartheid, o colonialismo e o genocídio do povo palestino perpetrado pela entidade sionista.

Assista à entrevista completa no vídeo abaixo

Tali Feld Gleiser é cofundadora e diretora geral do Portal Desacato. Toda segunda-feira, apresenta o programa Do Rio ao Mar.


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