Redação.- O capitalismo pode existir sem racismo? Para o sociólogo e professor da USP Ruy Braga, a resposta é não. Em entrevista ao programa JTT, conduzida por Raul Fitipaldi e Sofia Andrade, o autor do livro Capitalismo Racial: uma introdução defendeu que o racismo não é um elemento externo ao capitalismo, mas uma das bases estruturais de sua expansão e reprodução.
Segundo Braga, o conceito de capitalismo racial descreve a articulação histórica entre acumulação de capital e racialização da força de trabalho. Em outras palavras, o sistema econômico produz e reorganiza hierarquias raciais para ampliar a exploração econômica e aprofundar processos de expropriação. A raça, nessa perspectiva, não seria uma realidade fixa ou natural, mas uma relação social construída historicamente pelas próprias dinâmicas da acumulação capitalista.
O sociólogo argumenta que o capitalismo transforma diferenças culturais, religiosas, territoriais e étnicas em diferenças racializadas. Esse processo serve para fragmentar a classe trabalhadora, dificultar a solidariedade entre os explorados e legitimar desigualdades que favorecem a reprodução ampliada do capital. Para ele, o racismo não foi acrescentado posteriormente ao sistema; ele é parte constitutiva de sua lógica de funcionamento.
Durante a entrevista, Raul Fitipaldi questionou o pesquisador sobre as chamadas “zonas de exclusão”, áreas onde trabalhadores vivem segregados, submetidos a baixos salários e restrições de direitos. Braga relacionou esse fenômeno ao que chama de “regimes racializados de acumulação”, nos quais exploração econômica e expropriação política caminham juntas. Nessas áreas, trabalhadores são privados de direitos civis, políticos e sociais, tornando-se mais vulneráveis à superexploração.
O professor citou exemplos históricos, como a segregação racial na África do Sul e observou que mecanismos semelhantes podem ser identificados em diferentes regiões do mundo, incluindo as maquilas da América Central e diversos territórios marcados pela exclusão social na América Latina. Segundo ele, o capitalismo necessita reproduzir continuamente uma massa de trabalhadores vivendo em condições precárias para garantir a existência permanente do trabalho barato.
A discussão também abordou a realidade brasileira. Braga destacou que a favelização da classe trabalhadora está profundamente associada aos processos de racialização herdados do colonialismo e ampliados pelo capitalismo dependente. A negação de direitos sociais, trabalhistas e políticos produz condições ideais para a manutenção de baixos custos de reprodução da força de trabalho.
Outro tema central da entrevista foi a violência estatal. Questionado por Sofia Andrade sobre o aumento da letalidade policial em cidades brasileiras, Braga afirmou que a coerção continua sendo indispensável para a manutenção do capitalismo racial. Segundo ele, a expropriação política depende da ação permanente do Estado por meio das forças policiais, do aparato militar e dos mecanismos de controle territorial.
Para o sociólogo, a elevada letalidade policial nas periferias não pode ser compreendida apenas como problema de segurança pública. Ela estaria ligada à desumanização das populações racializadas e à necessidade de conter reivindicações por direitos que poderiam elevar os custos de reprodução da força de trabalho. O racismo, nesse contexto, funciona como justificativa ideológica para a repressão permanente dessas populações.
A entrevista também analisou as transformações recentes do mercado de trabalho. Braga observou que o avanço das plataformas digitais e da chamada “nova informalidade” não eliminou as desigualdades estruturais; ao contrário, aprofundou mecanismos históricos de precarização. Segundo ele, empresas de tecnologia passaram a controlar amplos contingentes de trabalhadores sem garantir direitos previdenciários, proteção trabalhista ou estabilidade econômica.
Na avaliação do pesquisador, a maioria desses trabalhadores precarizados é composta por pessoas racializadas. Embora a remuneração imediata possa parecer mais atraente do que determinados empregos formais de baixa renda, a ausência de direitos cria uma situação de vulnerabilidade permanente, especialmente para as novas gerações.
Ao final da entrevista, Sofia Andrade perguntou se é possível imaginar o fim do racismo. Braga respondeu com pessimismo em relação às possibilidades oferecidas pelo sistema atual. Citando estudos sobre desigualdade racial no Brasil, ele lembrou que, mantido o ritmo recente de redução das diferenças de renda entre brancos e negros, a igualdade só seria alcançada por volta do ano de 2397. Para o sociólogo, é impossível pensar a superação definitiva do racismo sem questionar as bases estruturais do próprio capitalismo.
A entrevista transforma um conceito acadêmico em uma reflexão sobre o presente. Ao relacionar racismo, precarização do trabalho, violência estatal e desigualdade econômica, Ruy Braga sustenta que a luta contra a discriminação racial exige também uma crítica profunda às formas contemporâneas de organização da economia e da sociedade.
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