Raul Fitipaldi e Sofia Andrade entrevistaram a jornalista e ex-vice-ministra de Políticas Comunicacionais da Bolívia, Claudia Espinoza, sobre o levantamento, mais uma vez, do povo do seu país.
A Bolívia atravessa um dos momentos mais tensos desde a crise política de 2019. Greves gerais, bloqueios de estradas, marchas indígenas e mobilizações populares tomaram diferentes regiões do país nas últimas semanas, enquanto cresce a pressão pela renúncia do presidente Rodrigo Paz. Em La Paz, capital administrativa boliviana, a situação já afeta diretamente o abastecimento de alimentos e combustíveis.
Segundo relatos apresentados no programa JTT, do Portal Desacato, a greve geral convocada pela Central Obreira Boliviana reúne trabalhadores urbanos, setores indígenas e organizações populares insatisfeitas com a deterioração econômica e a falta de respostas do governo.

Crise econômica e descontentamento popular
A população boliviana enfrenta alta nos preços dos alimentos, escassez de gasolina e encarecimento generalizado de produtos importados. De acordo com a análise apresentada na entrevista, o governo não conseguiu oferecer soluções concretas nos seis primeiros meses de mandato, aprofundando o desgaste social.
Inicialmente, os protestos tinham como foco reivindicações econômicas e melhores condições de vida para os setores mais pobres. Porém, com o passar dos dias, as manifestações ganharam caráter político mais amplo. Após quase três semanas de paralisações e bloqueios, o principal slogan das mobilizações passou a exigir a saída do presidente.
Em várias regiões, estradas foram fechadas por manifestantes, dificultando o deslocamento entre departamentos e isolando parcialmente a cidade de La Paz. Mercados registram falta de alimentos, enquanto moradores dependem de redes de solidariedade para cozinhar e garantir itens básicos.
Repressão e ameaça de estado de exceção
Organizações sociais denunciam repressão policial contra manifestantes. Segundo os relatos apresentados no programa, dezenas de pessoas ficaram feridas e lideranças populares passaram a ser alvo de ordens de prisão.
Também cresce o temor de decretação de estado de exceção, com possibilidade de uso das Forças Armadas para desbloquear estradas e conter os protestos. Até o momento, não houve anúncio oficial nesse sentido, mas o debate já circula entre autoridades e movimentos sociais.
Outro elemento que amplia a tensão é a situação do ex-presidente Evo Morales. O governo é acusado por setores populares de tentar associar todas as mobilizações ao ex-mandatário para deslegitimar as demandas sociais. Evo enfrenta processos judiciais e denúncias de perseguição política desde o governo anterior.

Disputa sobre Constituição e recursos naturais
Um dos pontos centrais da crise envolve propostas de reformas legislativas e possíveis mudanças na Constituição boliviana de 2009, aprovada durante o governo de Evo Morales. Movimentos sociais afirmam que as mudanças podem abrir caminho para privatizações e enfraquecimento da soberania sobre recursos naturais estratégicos, especialmente o lítio.
A entrevistada Cláudia argumenta que o governo Rodrigo Paz estaria alinhado a setores empresariais ligados ao agronegócio, à mineração e a interesses externos, principalmente estadunidenses. Segundo ela, há receio de que a atual crise seja utilizada para desmontar conquistas sociais consolidadas após a refundação do Estado Plurinacional.
A defesa da Constituição aparece como uma das principais bandeiras das mobilizações. Muitos manifestantes recordam que a carta constitucional foi resultado de longas lutas populares e indígenas, marcadas por conflitos intensos ao longo das últimas décadas.
Povos indígenas e os “Ponchos Rojos”
As marchas indígenas têm desempenhado papel importante nas mobilizações. Um dos grupos citados durante a entrevista são os “Ponchos Rojos”, organização aimará historicamente associada à resistência popular no altiplano boliviano.
Descritos como guardiões do território e das tradições indígenas, os “Ponchos Rojos” possuem forte organização comunitária e participação recorrente em momentos decisivos da política boliviana, incluindo os protestos pela nacionalização do gás no início dos anos 2000.
Além deles, delegações indígenas vindas da Amazônia boliviana também marcharam por semanas até La Paz para protestar contra projetos de lei relacionados à propriedade rural e ao uso da terra.
Crise estrutural e futuro incerto
Para os participantes do programa, a atual situação vai além de uma crise conjuntural. Eles avaliam que a Bolívia vive um choque profundo entre projetos de país: de um lado, movimentos que defendem soberania nacional, participação popular e controle estatal dos recursos naturais; de outro, setores econômicos interessados em ampliar privatizações e reaproximação com potências estrangeiras.
Enquanto o governo mantém silêncio sobre possíveis negociações amplas com os movimentos sociais, os protestos continuam crescendo e novas mobilizações são convocadas em diferentes regiões do país.
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