Patriarcado: Uma imposição às leis naturais determinantes da liderança de quem gera a humanidade

Foto: Reprodução internet

Por Gilliam Mellane Ur Rehman.

A palavra patriarcado sofreu, ao longo do tempo, uma resignificação. Antes o patriarcado era pensado na perspectiva religiosa da cristandade. Ao fim do século XIX, a palavra se reconfigura como um vocábulo que descreve literalmente, o que seria um sistema ideológico e social de domínio puramente masculino e opressor da mulher. No entanto, há toda uma discussão bem mais profunda sobre isso.

Por muito tempo entendeu-se que uma família ou uma célula social chefiada por um homem é a forma segura de se garantir uma sociedade “nos eixos”, e esta concepção está totalmente atrelada às ideias do patriarca da religião cristã. Mas, independente do contexto histórico, também era possível perceber “arranjos” familiares no modo mater familis, porém sempre visto como um deformismo social, pois a figura masculina sempre foi tida como algo central e necessário à manutenção da ordem, o que deixa implícito que a mulher é agente de caos e desordem, por ser incapacitada e precisar do “pulso” masculino. Nessa ideologia, ancora-se o machismo, comportamento que nega a equidade de gênero e a igualdade de direitos e deveres entre homens e mulheres. Os desdobramentos são os mais desastrosos, e se fazem presente em todas as esferas da existência feminina, que vão desde as relações familiares às relações políticas de poder.

Para entendermos o funcionamento do sistema patriarcal dentro do capitalismo, faremos uma discussão histórica sobre suas origens e de que forma ele se moldará nas engrenagens do capitalismo. Vamos entender antes de tudo, que esses termos não surgem como antagônicos de outros que sugerem a relevância feminina no mundo. Patriarcado jamais pode ser entendido como o oposto de matriarcado.  Jamais existiu em um recorte histórico, um sistema que desse ao termo matriarcado, o sentido de dominação. A palavra matriarcado, remete a ideia de origem, de geração da vida. Em contrapartida, a palavra patriarcado, nos remete à ideia de dominação. A explicação é que antes do patriarcado chegar ao poder, matriarcado não significava dominância.

O sentimento de dominação, apropriado pela liderança masculina, torna-se um problema entre os homens de forma acrônica. A vida inicia em uma mulher, e seria esse o principal gatilho da psique masculina para não aceitar o espaço da mulher nas relações de poder? Sendo ela, a origem de tudo, não traz consigo a liderança da vida política e em sociedade? Pensemos.

Devemos refletir que o sentimento de comandar é deduzido daquilo que dá vida, de onde tudo inicia e sobre isso, existem algumas produções que refletem esse pensamento como o poder do corpo da mãe, da fêmea, ou o mátrio poder discutido por Canetti – 1986, ou o “direito materno” (Bachofen 1978). No entanto, sentimos que, nessas análises, não existe a carga que tesa na ideia de dominação, mas ao que de fato traz o poder de gerar, a força da maternidade tão vital a natureza e que propõe não apenas gerar uma vida mas também, de gerir uma existência até que a mesma seja capaz de se conduzir.

Não entendamos essa reflexão, como um sistema de pensamento que sublima a figura do homem na gênese da vida. Antes, se sabe, que qualquer materialidade de ação  nasce a partir dos campos de pensamento, e o homem, contaminado pela esfera da dominação, não agrega a ideia do pai enquanto elemento ativo na origem da vida tanto quanto a mulher, mas como um agente de poder e dominação.

Para entender o porquê a palavra patriarcado não consegue ter uma congruência com o sentido do termo matriarcado, é necessário perceber que o conceito de pai surge na história, desprovido do significado do pai afetivo e físico, aquele que cuida e protege sua prole. O significado de pai, se consolida em um conceito institucional hierárquico, aquele que manda, lidera de forma dura e disciplinada, à luz das regras de um sistema que se alimenta dessa posição masculina no mundo.

Partindo desse princípio, internaliza-se a ideia do domínio patriarcal, totalmente distorcida da ideia de sentimento do pai, aquele que também forma a vida, dando espaço às conexões de dominação, de liderança necessária à ordem das coisas materiais e imateriais, chegando mesmo a entender os elementos do centro da espiritualidade humana, como figuras patriarcais, logo vê-se a Deus com esse sentimento.

Após refletir sobre essas relações com as palavras e suas cargas de sentimento, aquilo que elas nos causam, entendemos que o conceito de pai afetivo e também formador da existência humana, se perdeu e se tornou utópico. O desejo de dominar suplantou a força da natureza em nossa gênese.

O sentido de dominação enraizou-se e tornou a figura do homem imprescindível à ordem da vida social, ao êxito das relações políticas, ao sucesso das negociações econômicas, e muitas vezes suplantou o aspecto maternal de nossa existência, porque ao homem foi atribuído substituir a mulher em quase todos os seus espaços, e a ela restou apenas o parir, amamentar, cuidar sem gerir; não se reconheceu a capacidade natural de auto gestão de quem inicia tudo. Talvez – como tesamos inicialmente – por medo de que essa liderança seja naturalmente feminina.

Desta forma o patriarcado é basicamente a expressão designante de um sistema que percebeu que o poder natural da humanidade reside em quem a gera e, a partir desta percepção, conseguiu desvirtuar o que seria uma aliança de poder natural; e em uma ação de domínio e subjugação, desarticulou e corrompeu a função paternal na vida humana em um sentimento de governança, abstraindo tanto a paternidade e a maternidade, elementos que compõe a existência terrena material e imaterial do homem.

O sistema patriarcal é o disformismo de uma lei natural, criado para conter o poder de quem de fato o tem para reger os espaços. Esvazia homens do conteúdo real de paternidade e impõe uma sociedade que mentaliza um mundo onde as  mulheres são concebidas como  agentes de caos e desordem social;  irracionalidade, no campo espiritual;  nos coloca como condutoras do erro, da culpa e de tudo que se entende por pecado.

A partir dessas conclusões, é possível tatear o patriarcado – e suas nuances qual o machismo –  como um mecanismo que não apenas destrói mulheres, mas vitima homens, os desumaniza e os esgota de suas condições naturais. O objetivo do patriarcado é tornar o “corpo da mulher gerador da vida” ou um “objeto produtor e reprodutor” de mentes aos moldes desse sistema; alimenta o prazer sexual de homens de modo mecanizado, e assim substituir o útero que gera a vida por algo maquinário, sufocando qualquer possibilidade de tomar pra si a liderança natural de quem dá origem à vida, como iniciamos nosso diálogo.

Talvez, em uma perspectiva conspiratória, isso explique a destruição da própria natureza, da terra e consequentemente, da humanidade.

Encerro aqui minhas reflexões matinais de um 8 de dezembro, inquieta por escrever sobre os desdobramentos desse sistema, que muta diante do capitalismo, tornando-o infinitamente mais perverso. Projeto a extensão desse diálogo que se propõe a discutir as reações ao patriarcado, como os feminismos, e tantas outras experiências humanas que vivemos.

REFERÊNCIAS

Bachofen, Johann Jakob. 1861. Das Mutterecht. pp. V-VIII, XII. O DIREITO MATERNO

Heleieth, Saffioti – Gênero, Patriarcado e Violência. Heleieth Saffioti – Gênero, Patriarcado e Violência (2004)

*Gilliam Mellane Moreira Ur Rehman é formada em História pela Universidade Estadual do Maranhão, pós graduada em Sociologia das Interpretações do Maranhão, estudante de Fotojornalismo na faculdade Cruzeiro do Sul, presidente do Instituto de Estudos e Solidariedade para Palestina Razan al-Najjar, muçulmana, feminista, membro da juventude árabe Palestina Sanaud.

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