Em Davos, Petro diz que capitalismo é responsável por “construir muros e lançar bombas”

Em discurso no Fórum Econômico Mundial, presidente da Colômbia propôs mudanças no sistema financeiro global e fortalecimento do Sul Global, além de fazer fortes críticas à omissão do Ocidente diante do massacre de palestinos em Gaza

Por Presidência Colombiana

Por Opera Mundi

O discurso com as mais fortes críticas ao sistema capitalista entre os chefes de Estado que se apresentaram nesta quarta-feira (17/01) no Fórum Econômico Mundial, na cidade suíça de Davos, foi, sem nenhuma dúvida, o do presidente da Colômbia, Gustavo Petro.

Participante do painel “Enfrentando o Cisma Norte-Sul”, o presidente colombiano utilizou a expressão “policrise” para definir o atual cenário geopolítico, atormentado por diversos conflitos regionais e desafios de grande complexidade – citando como exemplos a crise climática, a pandemia de covid e o brutal aumento da desigualdade de renda –, e deu a entender que considera o sistema capitalista como principal responsável por esses problemas.

Petro descreveu o sistema econômico atual como um “capitalismo de fortaleza, que constrói muros e lança bombas” e utilizou o conflito em Gaza como exemplo para essa analogia.

“Estamos em um mundo pior, pois passamos da guerra ao genocídio, passamos a bombardear crianças”, criticou o presidente colombiano, numa alusão ao massacre dos palestinos em Gaza, vítimas da ofensiva militar de Israel, que já matou mais de 24 mil civis, entre os quais pelo menos 10 mil são crianças, segundo entidades defensoras dos direitos humanos que atuam no território.

Em seguida, Petro mencionou os países do Ocidente como responsáveis por essa transição “da guerra ao genocídio”, ao afirmar que “a Europa e os Estados Unidos votaram contra uma política para resolver o problema dos palestinos”. Efetivamente, Washington vetou ao menos duas resoluções no Conselho de Segurança da ONU que propunham um cessar-fogo em Gaza.

Importância do Sul Global

O Conselho de Segurança, principal entidade da Organização das Nações Unidas, também foi alvo dos questionamentos de Petro, por “manter uma estrutura que evidencia uma separação política entre o Ocidente e o Sul Global”.

Nesse sentido, o mandatário colombiano criticou o uso do termo “cooperação” por parte de autoridades europeias e norte-americanas, por considerar que ele “parte do conceito de um norte muito rico e um sul muito pobre, que recebe esmolas do norte em forma de ajuda”.

Para defender essa tese, Petro enfatizou a questão da crise climática e os US$ 100 bilhões investidos anualmente desde 2020 para ajudar as economias emergentes a enfrentar as consequências das alterações no clima do planeta, valor estipulado pelo Acordo de Paris, em 2015. “Esse valor já não significa nada. O montante necessário a cada ano é 30 vezes maior e isso implica uma mudança no sistema financeiro global”, acrescentou o líder colombiano.

“A Colômbia paga um prêmio porque é considerada uma economia arriscada, como o Brasil, o Equador, a Venezuela, como todos os países da floresta amazônica. O que é arriscado hoje não são os países que têm a floresta amazônica, são os países do norte”, insistiu Petro.

O mandatário aproveitou para repudiar “este conceito de cooperação que se choca com a realidade da crise civilizatória global. O Sul Global tem uma importância essencial para o processo de transformação econômica e tecnológica que os próprios países do norte precisam enfrentar para sustentar a vida no planeta e superar os desafios da crise climática”.

Crise civilizatória

Ao concluir seu discurso, Petro reforçou sua visão sobre o cenário mundial atual, desta vez caracterizando-o como uma “crise civilizatória” e defendendo uma reestruturação dos sistemas globais de representação entre os países.

“[As tragédias climáticas] serão um ponto de inflexão para a humanidade, por dependendo de como as enfrentaremos, podemos nos encaminhar para um novo pacto democrático, ou para a barbárie”.

No mesmo painel em que Petro esteve presente também discursaram o primeiro-ministro dos Países Baixos, Mark Rutte, o presidente de Ruanda, Paul Kagame, e o cofundador da Microsoft, Bill Gates.

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