Ódio de classe em tempos do Banco Master. Por Jair de Souza.

Do triplex ao Banco Master, dois pesos e duas medidas revelam como a ideologia pode se sobrepor aos fatos. Uma reflexão contundente sobre bolsonarismo, neopentecostalismo e a construção do ódio contra os próprios trabalhadores.

Por Jair de Souza.

As mais recentes pesquisas sobre intenção de voto para as próximas eleições reforçam algumas peculiaridades que já havíamos observado nas realizadas logo após o megaescândalo do Banco Master ter vindo à tona. Como todos se recordam, foi por meio desta entidade financeira do bolsonarismo que centenas de bilhões de reais dos fundos públicos destinados a aposentados e pensionistas foram desviados para o favorecimento de um pequeno grupo de pessoas.

De certa maneira, os números que estão sendo agora divulgados poderiam ser considerados alvissareiros por quem está no campo democrático, visto que eles evidenciam que a maioria de nossa população está predisposta a expressar nas urnas seu repúdio aos políticos que estão claramente involucrados nas atividades e no apoio deste monstruoso esquema de criminalidade financeira.

No entanto, há também sobrados motivos que aguçam nossa incompreensão e nossa indignação. Decididamente, não é nada fácil entender e explicar a persistência de cerca de 40% dos consultados em manter sua intenção de sufragar para a presidência da República o nome do candidato que está umbilicalmente vinculado com a criação, a gestão e o aproveitamento da aparelhagem responsável pela execução do gigantesco plano de desvios fraudulentos de dinheiro que deveria atender as necessidades e carências de aposentados e pensionistas. Tudo para favorecer um pequeno grupo de espertalhões, no qual quase toda a alta cúpula do bolsonarismo está incluída.

Porém, uma meditação um pouco mais profunda e uma revisão atenta da evolução histórica poderão tornar mais compreensíveis os fatores que alicerçam certos comportamentos sociais aparentemente ilógicos, como o que estamos constatando nestes quase dois quintos da população ainda propensos a votar por quem poderia ser catalogado como um dos principais implicados no maior esquema de corrupção e roubo de dinheiro público desde nosso surgimento como nação.

Mais uma vez, fica reiterada nossa convicção de que existe uma explicação relativamente simples que, ao longo da história e por todo lado, revela e elucida em boa medida o que está por trás de fenômenos sociais do tipo com o qual nos defrontamos neste momento. E a resposta apropriada poderia ser resumida na expressão “ódio de classe”.

Para melhor avaliar a relevância do ódio na determinação do comportamento dos seres humanos, é bom termos em conta que, muito provavelmente, em algum momento ao longo da vida de todos nós, já passamos por situações em que nos deixamos levar por sentimentos de arrebatadora e incontrolável ira.

Mesmo sem ter recebido informação pessoal prévia, poderia assegurar que nenhum dos leitores deste texto está alheio a alguma experiência em que tenha abdicado de sua sensatez e ponderação ao ser tomado pelo poder enceguecedor do ódio. Em tais circunstâncias, somos instados a desconsiderar o uso da razão e da lógica e a atuar quase que exclusivamente em função da fúria que nos domina. Isto ocorre porque o ódio tem a capacidade de se sobrepor a outros sentimentos. Então, ao guiar-se com base no rancor, o ser humano tende a comportar-se de modo muito semelhante ao que é característico dos animais selvagens.

É por ter plena ciência do potencial que o ódio pode representar nos embates sociais que os responsáveis pela política das classes dominantes se esmeram por desenvolver e aperfeiçoar técnicas de manipulação de sentimentos. Assim, sempre que lhes seja necessário, elas tratam de instigar certas parcelas da sociedade para lançá-las contra outras. Isto é algo muito recorrente quando os privilégios dos poderosos estão sendo ameaçados pela atuação de outros grupos.

Em países como o Brasil em que os governantes são escolhidos por votação popular, ninguém chega ao comando da nação sendo sufragado apenas pelos integrantes das frações mais ricas da sociedade. Como elas constituem numericamente tão somente um punhadinho de gente, são incapazes de eleger ninguém a cargo nenhum por si só. É por isso que as oligarquias precisam encontrar formas de fazer que pessoas das outras camadas sociais adotem seus valores como se fossem próprios delas. Para tal, desenvolvem técnicas voltadas tanto para a classe média como para os extratos sociais mais baixos. Esta necessidade de atrair para seu campo pessoas com características e condições de vida inteiramente opostas às suas é a eterna contradição que as classes dominantes precisam resolver.

Nesta busca por angariar apoio fora de seu círculo exclusivo, as classes privilegiadas recorrem a seus instrumentos de comunicação e outros dispositivos de disseminação ideológica. O objetivo é construir naqueles ambientes uma base de sustentação que não hesite em considerar plenamente legítimas aquelas causas e propostas que favorecem única e exclusivamente aos grupos dos exploradores.

O ódio de classe vem a ser a ferramenta mais eficaz para atingir esse estágio de dissociação identitária das pessoas do campo social ao qual pertencem. Quando este ódio se apodera de nossa mente, a verdade e a mentira perdem seus valores intrínsecos. O que passa a valer é aquilo que facilita o extermínio daqueles a quem odiamos. Por isso, em conseqüência, se a propagação de uma mentira contribuir para tal, bem-vinda seja esta mentira. Se, por outro lado, a verdade representar um entrave à realização de nosso propósito de aniquilação, nada mais justo do que descartá-la. Em outras palavras, a depender do papel que desempenhe em relação ao alvo de nosso rancor, o mal pode vir a ser o bem, e o bem pode significar o mal.

Junto à classe média, trata-se de reforçar e potencializar os preconceitos antipovo já existentes. A finalidade é influir em seu imaginário, de modo que passem a ver os mais pobres como o maior obstáculo em suas aspirações por alcançar melhores condições de vida. Contudo, também é preciso atuar junto aos setores da base popular para fazer que se difunda ali a ideia de que a maneira correta de escapar da pobreza é por meio de um completo afastamento de sua identificação com os valores e aspirações característicos das classes exploradas. Em tal sentido, seu objetivo deveria ser cortar todo e qualquer sentimento de pertinência com a categoria dos pobres e necessitados.

Os principais agentes encarregados de introduzir e sedimentar o ódio de classe contra os pobres dentro das próprias comunidades carentes são algumas das conhecidas empresas-igrejas neopentecostais. Em total contradição com tudo o que o legado de vida de Jesus nos ensina, os empresários da fé que comandam boa parte dessas igrejas se dedicam a fomentar o ódio contra todos os que ousam seguir os exemplos do Nazareno relatados nos Evangelhos e lutam para unir o povo em sua busca de saídas concretas da miséria e da degradação em que vivem.

É por isso que hoje, uma boa parcela de nossos compatriotas mais carentes representam o grosso da sustentação numérica do voto no bolsonarismo. São pessoas humildes que estão sendo educadas a odiar a seus iguais. Os pobres aos quais se ensina que Deus abençoa os ricos e poderosos e tem ojeriza dos necessitados. O neopentecostalismo é o mais importante centro difusor do ódio de classe contra os pobres no seio das comunidades mais carentes. É triste ver como certos picaretas usam traiçoeiramente o nome de Jesus para praticar aquilo que corresponderia muito mais à obra do diabo.

Esses falsos cristãos induzem muita gente do povo a se opor até mesmo à concessão do benefício do bolsa-família aos mais carentes. Pregam a condenação veemente desta pequena ajuda que é concedida ao povo mais pobre sob a alegação de que ela estimula a vagabundagem. No entanto, não dizem uma só palavra de condenação ao roubo de centenas de bilhões de reais, executado pelo Banco Master. Seria pela coincidência de que membros dessas igrejas eram parte da cúpula desse banco bandido e que, também coincidentemente, estivessem entre os principais receptores dos recursos desviados pela entidade?

Como já está suficientemente claro, há e sempre houve uma total simbiose entre o esquema criminoso do Banco Master com o bolsonarismo. Daí advém as posturas nitidamente hipócritas dos mentores bolsonarista perante duas situações reais por nós vivenciadas em tempos recentes. Basta recordar quais foram as alegações por eles usadas quando passaram a referir-se a Lula como o símbolo máximo da corrupção e, em contrapartida, analisar como estão reagindo agora diante de todas as evidências surgidas do flagrante e ativo envolvimento de todo o espectro do bolsonarismo, incluindo seu herdeiro e candidato à Presidência, com respeito à roubalheira comandada pelo Banco Master.

Como sabemos, durante o auge da Operação Lava-Jato, encabeçada pelos hoje notórios bolsonaristas Sérgio Moro e Deltan Dallagnol, Lula foi acusado e condenado pelo suposto crime de haver recebido benfeitorias em um apartamento triplex localizado no Guarujá, São Paulo. Por tal motivo, Lula ficou preso em uma cela em Curitiba por quase dois anos.

Para os bolsonaristas, e para as classes dominantes às quais eles servem, era totalmente irrelevante o fato de que Lula nunca foi o dono do tal triplex. Também era irrelevante que o valor avaliado do citado imóvel não chegasse a dois milhões de reais. Para eles, Lula se tornou irremediavelmente o maior ladrão do Brasil em todos os tempos. Mesmo após ter sido posto em liberdade por ter ficado comprovado que tudo não tinha passado de uma farsa absoluta, forjada e usada tão somente para eliminar Lula do cenário político nacional, os bolsonaristas e os representantes do grande capital não recuaram em suas considerações sobre Lula.

No caso do Banco Master, porém, há indícios mais do que evidentes, inclusive áudios de falas dos implicados, que revelam como quase todo o alto escalão do bolsonarismo, inclusive sua ramificação neopentecostal, está metido de corpo e alma nas falcatruas criminosas do tal banco. Há até mesmo conversa telefônica gravada entre o representante do clã indicado para a disputa eleitoral e o dirigente máximo dessa entidade do banditismo financeiro, em que cobra a entrega do restante de uma transferência de 134 milhões de reais para, supostamente, cobrir a produção de um filme de glorificação do patriarca do clã.

Muito embora se trate de um valor absurdamente acima de tudo o que quaisquer outros filmes de grandes produções tenha custado, que ninguém tenha apresentado nenhum contrato que comprovasse os termos em que o filme seria produzido, que os 61 milhões já entregues pelo Banco Master tenham sido enviados para uma conta do bolsonarismo nos Estados Unidos, ainda assim, os bolsonaristas não parecem estar preocupados ou envergonhados, e nem decididos a reconhecer nisto um gigantesco delito contra o patrimônio público.

O certo é que, em comparação com as cifras relacionadas com o Banco Master, a apropriação indevida pelo patriarca do clã das joias de 17 milhões de reais vindas da Arábia Saudita pode ser vista e tratada como coisa insignificante, como dinheiro de pipoca. Mas, diriam os adeptos do bolsonarismo, o verdadeiro roubo que deve sempre ser tido em conta é o referente ao triplex atribuído a Lula.

Também sob a inspiração desta mesma filosofia, na qual o ódio de classe está acima de tudo, os bolsonaristas costumavam se autodefinir como os campeões da defesa da nacionalidade. Não perdiam a chance de irem às ruas vestidos com a camiseta da seleção e enrolados na bandeira do Brasil. No entanto, os adeptos dessa corrente política de extrema-direita creem que é completamente insignificante o fato de seus líderes terem se tornado os mais íntimos colaboradores do governo de Donald Trump em seus projetos de submeter o Brasil inteiramente ao seu domínio.

Então, não veem como um ato de traição à pátria a postura adotada pelos integrantes do clã bolsonarista de atuar em assessoria e orientação a Trump para viabilizar a imposição de taxações que visam destruir nossa estrutura econômica. Nem as intenções declaradas de Trump de acabar com o PIX brasileiro para impedir que os grandes oligopólios financeiros gringos percam espaço no Brasil parecem incomodar os bolsonaristas. Em outras palavras, estamos falando de partidários de um nacionalismo cujas prioridades são defender interesses contrários aos do povo brasileiro.

Embora, como já foi visto, a opção pelo bolsonarismo seja minoritária em relação ao conjunto de nossa população, não podemos aceitar passivamente que tanta gente que nada tem a ver com o real significado dessa corrente política do grande capital neoliberal-nazifascista continue servindo como massa de manobra dos que vivem à custa do trabalho das maiorias. Precisamos encontrar formas de combater o ódio de classe destilado e despejado sobre amplos setores do campo popular através de vários instrumentos a serviço da expansão dos preceitos e valores ideológicos do grande capital. Deveríamos aproveitar este momento em que o esquema financeiro da roubalheira bolsonarista foi desnudado pelas revelações de seu Banco Master e avançar no sentido de recuperar para o campo popular aquelas pessoas que são inteiramente parte do mesmo.

Para caminhar no rumo que acaba de ser proposto, não podemos nos esquecer de que, nas sociedades em que existem classes que exploram o trabalho da maioria, a luta de classes também estará inevitavelmente presente. É esta luta de classes que faz brotar o ódio contra os mais pobres. Como lutadores sociais do campo popular, nossa obrigação é tomar o lado do povo trabalhador para impedir que as classes dominantes nos contaminem com seu ódio doentio.

Jair de Souza é economista formado pela UFRJ; mestre em linguística também pela UFRJ.

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