O Oscar gosta de mulheres, desde que elas não incomodem

 

Foto: Reprodução/X

O cinema sempre soube lidar bem com mulheres que sofrem. Mulheres devastadas, adoecidas, abandonadas ou silenciadas costumam gerar empatia, comoção e, não raramente, prêmios. O problema começa quando essa mulher deixa de apenas suportar a dor e passa a reagir, incomodar ou confrontar. Nesse ponto, o desconforto não está mais apenas na tela, mas na forma como a indústria escolhe reconhecer ou ignorar determinadas narrativas.

Uma matéria recente do The New York Times chamou atenção para algo que há muito tempo circula como percepção difusa entre críticos e espectadores. Os votantes do Oscar têm dificuldade em lidar com personagens femininas desagradáveis. Mulheres difíceis, temperamentais, agressivas ou moralmente ambíguas costumam perder empatia quando não se encaixam no papel da vítima silenciosa. Segundo o jornal, quando uma mulher sofre em cena, isso frequentemente é visto como isca de Oscar. Quando ela faz os outros sofrerem, reage ou se impõe, a identificação simplesmente desaparece.

Esse padrão ajuda a entender por que atuações elogiadas de Rose Byrne, Jennifer Lawrence e Amanda Seyfried, todas interpretando mulheres complexas e desconfortáveis nesta temporada, aparecem de forma instável nas previsões ao Oscar. São personagens que não existem para agradar, não pedem desculpas por suas contradições e não oferecem redenção fácil ao espectador.

Esse mesmo critério ficou evidente na premiação do ano passado. O Oscar de Melhor Atriz foi concedido a Anora, filme que acompanha a trajetória de uma mulher stripper e prostituta que se envolve afetivamente com um adolescente rico. Não se trata de negar o talento ou a entrega de Mikey Madison, cuja performance é intensa e tecnicamente consistente. A questão não está na qualidade da atuação, mas no tipo de personagem que a Academia escolheu consagrar.

Anora é uma mulher complexa, mas essa complexidade é mediada por uma construção fortemente sexualizada. O figurino, os gestos, as falas e a forma como o corpo da personagem é enquadrado em cena operam dentro de um regime de visibilidade confortável para o olhar masculino. É uma mulher que sofre, ama e se frustra, mas que também é constantemente colocada como objeto de desejo. Sua dor é visível, mas sua existência ainda se organiza a partir da erotização.

No mesmo ano, Fernanda Torres entregou uma das performances mais contundentes da temporada em Ainda Estou Aqui, interpretando Eunice Paiva, símbolo da resistência civil à ditadura militar brasileira. Trata-se de uma mulher real, atravessada pela violência do Estado, pelo desaparecimento forçado do marido e pela imposição do silêncio como forma de sobrevivência. A atuação de Fernanda é contida, rigorosa e devastadora. Não seduz, não erotiza, não conforta. Exige do espectador uma empatia política, histórica e ética.

A diferença de recepção entre as duas performances não é sutil. Enquanto Anora foi celebrada, Fernanda Torres atravessou a temporada sem o reconhecimento máximo. Não se trata apenas de clubismo brasileiro, embora o atravessamento nacional também exista, mas de algo estrutural. Mulheres são premiadas quando sua complexidade não ameaça demais. Quando o sofrimento é palatável, quando a dor pode ser romantizada, quando o corpo ainda pode ser desejado.

Já mulheres que encarnam a resistência, que não oferecem catarse fácil e que não se organizam em torno do desejo masculino encontram um limite invisível. A empatia da Academia falha quando a personagem não está ali para ser amada ou compreendida, mas para confrontar. A pergunta que ecoa, feita por um crítico ao sair de uma sessão analisada pelo The New York Times, resume bem esse impasse. Eu deveria gostar dela?

Enquanto essa for a régua aplicada às personagens femininas, o Oscar seguirá premiando mulheres desde que elas não sejam difíceis demais, políticas demais ou reais demais. O incômodo, no fim das contas, não está nas personagens, mas no que elas revelam.


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