Por Mirko Casale.
O veterano jornal norte-americano New York Times publicou um extenso artigo sobre o conflito russo-ucraniano em que, com o pomposo título “A história secreta da guerra na Ucrânia”, anuncia uma série de “revelações” que eram apenas “segredo” para a mídia hegemônica. A propósito, o fato de estarem “revelando” agora e não antes tem pouco, muito pouco a ver com o acaso.
Em outras palavras: um dos mais prestigiados jornais dos EUA acaba de anunciar a descoberta da pólvora. Pólvora que a mídia russa vinha publicando há anos, para piorar a situação. Assim, em um artigo muito longo (que leva cerca de 50 minutos para ser lido), o jornal de Nova York “revela” como algo incrivelmente novo uma série de eventos relacionados ao conflito entre Kiev e Moscou que qualquer “vítima” comum da “propaganda russa” já conhece há um, dois, três e até mais anos.
O texto profuso, escrito de acordo com seus autores após a realização de mais de 300 entrevistas, é tão longo que parece mais um tratado do que um artigo (devido ao quanto a Ucrânia e os EUA tentaram e não conseguiram alcançar, deve ser). A publicação é uma revisão da aliança militar que Washington e Kiev iniciaram em 2014, com ênfase em como eles a reforçaram em 2022 e, ano após ano, a aprofundaram a ponto de brincar com a Terceira Guerra Mundial.
Muito texto, pouca novidade, nenhuma surpresa
Em mais de 13.000 palavras, o The New York Times lista epicamente todos os “sucessos” ucranianos no campo de batalha graças à sua aliança com os EUA, enquanto acusa os militares russos de total incompetência e, quase no final e abruptamente, admite que, apesar das 12.000 palavras anteriores, de alguma forma “inexplicável”, é Kiev e não Moscou que está hoje à beira do precipício. O que me traz à mente uma velha anedota de um locutor de rádio que, em uma luta de boxe, passou do entusiasmo de “Betulio bate, Betulio ataca, Betulio engancha, Betulio faz tudo” para, do nada, um repentino e desconcertante “Betulio caiu!”, quando o lutador foi parar na lona.
Como afirma o artigo, “os EUA estavam envolvidos na guerra de uma forma muito mais íntima e extensa do que se acreditava anteriormente”, mas isso foi denunciado ad nauseam pelo Kremlin antes mesmo de fevereiro de 2022. Outra das várias histórias de “notícias de última hora” que chegaram à linha de chegada após a ambulância foram as divergências internas entre os militares ucranianos e norte-americanos sobre táticas e estratégias, divergências frequentemente apontadas por Moscou, mas descartadas como “desinformação russa”.
Em um artigo que poderia muito bem ter sido escrito por Ricardo Arjona (se ele fosse um analista militar), o New York Times ilustra essa diferença de opinião afirmando que tanto os ucranianos quanto seus parceiros queriam vencer a guerra, mas “os estadunidenses também queriam ter certeza de que não a perderiam”.
Realidades óbvias em uma guerra ‘por procuração’
O artigo também se refere ao truque usado pelas autoridades dos EUA para negar que seus serviços de inteligência tenham dado aos ucranianos as coordenadas dos alvos russos para atirar, dizendo que não eram alvos porque não eram chamados de “alvos”, mas de “dicas de inteligência” ou “pontos de interesse”. Bem, vindo do país e das corporações de mídia que inventaram o termo “dano colateral”, essa brincadeira com a terminologia não é muito surpreendente, na verdade.
O texto também discute a pressão dos comandantes militares dos EUA sobre seus homólogos ucranianos para reduzirem a idade de recrutamento para 18 anos e a relutância da classe política de Kiev em fazer isso. Eles também destacam – de forma franca, para não dizer cínica – como Washington usou o conflito como “um grande experimento de guerra, que não apenas ajudaria os ucranianos, mas recompensaria os estadunidenses com lições para qualquer guerra futura”. Com o sangue de outras pessoas, é claro. Em outras palavras, ao combinar essas duas “confissões”, o The New York Times, à sua maneira, corrobora a conhecida estratégia ocidental de “até o último ucraniano!”, denunciada por Moscou praticamente desde o início das hostilidades.
O artigo também discute como, após a euforia do final de 2022, quando as tropas russas se retiraram para a margem oriental do rio Dnieper, vieram os retumbantes fracassos ucranianos na contraofensiva do verão de 2023 e a perda de Artyomovsk, de modo que o governo Biden gradualmente autorizou “operações clandestinas” que havia proibido anteriormente, apesar de seus próprios temores de se aproximar demais de um conflito global aberto.
A esse respeito, é bom observar como o jornal norte-americano de hoje apoia as alegações contínuas de Vladimir Putin de que o uso de mísseis de longo alcance dos EUA pelas forças ucranianas foi, na verdade, uma operação de Washington do início ao fim, algo que foi negado com veemência pela Casa Branca e sua mídia tradicional simpática. Segundo o jornal, o envolvimento dos EUA nas operações do HIMARS foi tão profundo que se afirmou que “o impensável havia se tornado realidade”. Os EUA estavam agora envolvidos na morte de soldados russos em território soberano russo”, referindo-se a partes da Rússia que Washington também considera russas.
O New York Times também relata como, em 2024, os avanços territoriais já estavam caindo exclusivamente no lado russo e o fato de que as expectativas ucranianas dos EUA e seus aliados não estão sendo atendidas pelo lado russo.
Em outras palavras, se recapitularmos, o renomado jornal tirou cerca de uma hora da vida de seus leitores para dizer-lhes que o conflito russo-ucraniano é, na verdade, uma guerra por procuração dos EUA e seus aliados contra a Rússia, injetando dólares para derramar sangue eslavo a fim de testar armas e tentar enfraquecer os rivais de Washington. Nem mais, nem menos do que a chamada “propaganda russa” vem dizendo (em muito menos caracteres, além disso) há anos.
E se um dos principais meios de comunicação dos EUA está dizendo isso agora e não antes, não é porque precisou de meses e meses de pesquisa jornalística meticulosa, mas porque se tornou tão óbvio que eles não podem mais ficar calados sobre isso.
Este texto foi adaptado de um vídeo feito pela equipe ¡Ahí les va!, escrito e dirigido por Mirko Casale.
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