O dia em que me tornei mulher

Aviso: esse texto trata do sentimento de uma menina cisgênero se vendo como mulher e sofrendo os males de ser lida como mulher. Não há nenhuma pretensão em definir o que é ser mulher.

Por Suzan dos Anjos.

menina

Eu devia ter entre 7 e 8 anos quando entendi pela primeira vez o que é ser mulher. Era uma quarta-feira, dia movimentado para o comércio na semana que antecedia o feriado natalino. Minha mãe, que sempre gostou de uma muvuca e de boas promoções, me acordou com um convite irrecusável para uma garota daquela idade e que já adorava bater perna por aí encarando rostos, formas e cores de multidões desconhecidas: um dia inteirinho na Rua 25 de Março. Levantei animada, fazia calor e minha mãe deixou em cima da cama os shorts, camiseta e tênis, tudo muito confortável para a intensa jornada. Vesti a roupa sem questionar, minha mãe era a mulher mais elegante do mundo, e prendi os longos cabelos cacheados por preguiça de arrumá-los. Assim, tomamos o ônibus, o metrô, fizemos a baldeação, que ainda hoje acho uma palavra bastante engraçada, e finalmente chegamos à caótica e animada rua. Meus olhinhos brilhavam e os de mamãe, acredito, também. Quando ela fica feliz os olhos ficam um tanto esverdeados. Eu era capaz de adivinhar-lhes a cor. É claro que a animação de uma mulher de trinta e poucos e de uma menina de sete ou oito anos não podiam se dever ao mesmo motivo. Eu podia passar horas em pé, em meio à multidão que poucas vezes me enxergava, tão somente para ter um dia inteiro sozinha ao lado dela, aquela mulher de olhos um tanto esverdeados que geralmente se dividia entre os outros dois rebentos, o trabalho na locadora da família, o marido, as tarefas domésticas. Naquele dia ela seria só minha e eu estava feliz.

Saímos daquele buraco escuro do metrô, que até hoje ainda me causa calafrios, e fomos invadidas pela claridade única dos dias quentes de verão. Barraquinhas por todos os lados, gente gritando, o cheirinho do milho verde no ar. Como sempre, a tarefa era descer a rua toda, observando atentamente as promoções e tendências do momento, para só então subir a ladeira gastando os trocadinhos economizados ao longo do mês. Na época, não sei bem se por conta de alguma novela, os objetos de desejo da vez eram mochilas que imitavam bichinhos de pelúcia. Empolgada, eu mostrava para a minha mãe todas as barraquinhas em que o tão desejado objeto saltava aos meus olhos, amontoados em altos e inacessíveis cabides. A multidão se apertava, se acotovelava. Aquele contato bastante próximo com pessoas desconhecidas não era algo sobre o que eu poderia me queixar, a não ser quando uma senhorinha distraída vez por outra me acertava dolorosas sacoladas. Entre uma barraca e outra, uma parada para perguntar o preço, para pechinchar qualquer desconto, percebi que logo atrás de mim, ainda mais colado ao meu corpo do que o restante da multidão, um homem, que deveria ter mais ou menos a idade de meu pai, fixamente me olhava. Eu estava em dúvida se a minha bolsa seria em formato de panda ou de dálmata, certamente a segunda opção levaríamos para a minha irmã, e conhecendo-a bem, ela faria questão de mostrar que a bolsa dela era muito mais bonita. A digressão daquela menina que ainda não sabia o significado da palavra sororidade foi brutalmente interrompida por um diálogo brutal e inesquecível:

– Senhora, essa menina é sua? – perguntou um homem estranho de colete militar.

– Sim, é minha filha. – respondeu minha mãe sem entender muito bem o motivo da pergunta.

– Tinha um vagabundo passando a mão nela desde lá debaixo. Não viu não?

– É verdade, filha? – balbuciou automaticamente minha mãe, ainda sem reação.

– Tinha um homem atrás de mim. – foi o que pude responder, envergonhada.

– Vou pegar esse vagabundo. – disse o homem que se juntou a mais dois e saiu em disparada.

Ficamos as duas, paradas, ainda sem reação. Naquele momento eu já não pensava mais na mochila de ursinho e notei que o verde dos olhos de minha mãe tinham se transformado num castanho pálido, sem graça. Um misto de vergonha, culpa, medo de ter de alguma forma decepcionado aquela mulher tão forte que podia fazer qualquer coisa, em qualquer momento, ocupava a minha cabeça descabelada de menina que de forma triste se tornava mulher. Balbuciei algumas palavras, tomando cuidado para não deixar o choro se soltar da garganta. “Não sabia… eu pensei que ele tava apertado porque tem muita gente aqui.” Não pude dizer mais nada. Minha mãe, que notei ter em segundos se transformado de mulher forte, minha super-heroína, numa menina frágil e espantada, segurou forte a minha mão, mais forte do que quando vamos atravessar a rua, comprou as duas mochilas de ursinho, uma para mim e outra para a minha irmã, e me levou de volta pra casa. Eu ainda não podia entender exatamente o que a minha mãe pensava, se se culpava pela roupa que havia escolhido para mim sem notar que a menininha dela já estava ganhando corpo de mulher, se pensava em contar ou não para o meu pai o que tinha acontecido ali, se estava com raiva do homem, cujo olhar eu nunca mais vou me esquecer, se estava com raiva de mim. No caminho, ainda no metrô, notei que uma lágrima escorria daqueles olhos desanimados. Apertei forte a mão de minha mãe, mais forte do que quando vamos atravessar a rua, e entendi, naquele momento, o que é ser mulher.

*Autora, Suzan dos Anjos é socialista, lésbica, vegetariana. Atualmente mora em Curitiba, onde escreve sua dissertação de mestrado sempre acompanhada de enormes xícaras de café e boa música em baixa rotação.

Fonte:  Geledés

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.