Redação.- Há poucas décadas, mergulhar na Lagoa da Conceição era encontrar um espelho d’água cristalino, repleto de gramas marinhas, cavalos-marinhos e peixinhos nadando entre algas delicadas. Era possível ver os próprios pés dentro d’água, mesmo em suas partes mais fundas.
Hoje, esse cenário pertence à memória — e o que se revela é o colapso de um ecossistema inteiro, vítima de negligência, desinformação e de um modelo urbano que insiste em ignorar os limites da natureza.
Um equilíbrio milenar interrompido
Antes da chegada de europeus, a Lagoa da Conceição — parte da antiga ilha de Meiembipe — coexistia em harmonia com a Mata Atlântica. A vegetação cobria encostas e margens, formando filtros naturais que purificavam a água e regulavam o fluxo de nutrientes como nitrogênio e fósforo.
Esses elementos, quando em equilíbrio, sustentavam uma vida aquática saudável: algas, peixes e pradarias submersas que reciclavam nutrientes e oxigenavam a água. Era um sistema em perfeito balanço, mantido por séculos.
A urbanização e a perda da lagoa natural
Com o crescimento urbano desordenado, a lagoa perdeu suas funções naturais. A drenagem urbana sem tratamento, o esgoto doméstico lançado parcialmente em fossas, biodigestores e na Estação de Tratamento das Rendeiras — com lagoas de evapo-infiltração — resultou em um acúmulo tóxico de fertilizantes dissolvidos.
Nitrogênio e fósforo em excesso são, em essência, o veneno invisível da lagoa. Alimentam florações de algas e micro-organismos que consomem o oxigênio da água, provocando mortandade de peixes, mau cheiro e a chamada eutrofização: o colapso ecológico de um corpo d’água.
Capitaloceno: quando o lucro supera a vida
Mas o problema da Lagoa da Conceição não é apenas local. Ele é o reflexo de um fenômeno global que o professor Paulo Horta chama de Capitaloceno — a era em que o sistema econômico e produtivo transforma a natureza em recurso e o planeta em mercadoria.
Vivemos sob extremos climáticos, excesso de CO?, aquecimento global e chuvas intensas. Tudo isso amplifica a degradação das lagoas e baías brasileiras.
O que vemos em Florianópolis é um microcosmo da crise planetária: uma sociedade que destrói seus próprios filtros ecológicos enquanto normaliza a morte de peixes e o colapso dos ecossistemas.
A tragédia e seus desdobramentos
Em 2021, o rompimento da lagoa de infiltração da Estação de Tratamento da Casan despejou toneladas de efluentes e lama na Lagoa da Conceição.
Foi um crime ambiental. Meses depois, a morte em massa de peixes mostrou que o sistema estava saturado.
Três anos se passaram, e as soluções não vieram. Pior: a dragagem feita em julho de 2025, segundo o grupo Ecoando Sustentabilidade da Universidade Federal de Santa Catarina, pode ter revirado o sedimento contaminado, liberando metais pesados e nutrientes que reativaram florações de algas — o gatilho de uma nova crise distrófica.
A síndrome do sapo fervido
A sociedade de Florianópolis vive o que o professor chama de “síndrome do sapo fervido”.
A metáfora é simples: se colocamos um sapo em água fria e aquecemos lentamente, ele se adapta até morrer fervido, sem perceber o perigo.
Assim estamos nós — assistindo, paralisados, ao colapso gradual da Lagoa da Conceição e de tantos outros ecossistemas, sem agir com a urgência necessária.
Não há nada de natural na morte da lagoa. Há, sim, omissão institucional e social.
O que precisa mudar agora
O grupo Ecoando Sustentabilidade apresentou recomendações emergenciais ao poder público. Entre elas:
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Remover a espuma e matéria orgânica acumulada na superfície da lagoa;
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Implementar tratamento terciário de esgoto em todas as áreas que drenam para a laguna;
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Interromper o bombeamento de efluentes da Estação das Rendeiras para as dunas da Joaquina;
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Adotar soluções baseadas na natureza para o tratamento final dos efluentes;
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Criar um sistema de monitoramento permanente, com participação de universidades e órgãos ambientais.
Essas ações não são apenas técnicas — são pedagógicas. São uma forma de relembrar que uma cidade viva depende de um planeta vivo.
Um apelo à consciência
“O colapso da Lagoa da Conceição não é normal — e muito menos natural”, alerta o professor Paulo Horta.
É um retrato do nosso distanciamento das culturas originárias que viveram em harmonia com esse território. Um espelho do quanto nos afastamos da ideia de pertencimento e reciprocidade com a Terra.
Enquanto o sistema continuar a “moer” natureza em nome do lucro, viveremos entre crises, achando-as normais — até que seja tarde demais para saltar da panela.
A escolha é nossa: continuar fervendo ou finalmente acordar.
Assista ao programa completo do EcoConsciência com o professor Paulo Horta no vídeo abaixo
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