Descifrando a Guerra.- A guerra entre Israel e o Irã, que terminou com um cessar-fogo após 12 dias de confrontos diretos, marcou um momento decisivo na dinâmica estratégica do Oriente Médio. Longe de se traduzir em uma derrota para a República Islâmica, a ofensiva israelense evidenciou os limites do poder militar como mecanismo de dissuasão e revelou a resiliência estrutural do Estado iraniano, capaz de absorver o impacto inicial, reorganizar suas capacidades e responder de forma eficaz, mesmo em condições de profunda assimetria.
Para compreender o desfecho deste episódio – e suas possíveis projeções futuras – é necessário analisar o confronto em três fases distintas: o ataque inicial israelense, a campanha de desestabilização interna que se seguiu e a intervenção limitada por parte dos Estados Unidos.
Fase 1: ataque surpresa e guerra psicológica
Na noite de 13 de junho, Israel lançou sua ofensiva mais ambiciosa até o momento contra o território iraniano. Aproveitando o fator surpresa, executou uma onda coordenada de ataques aéreos e mísseis de longo alcance que atingiram mais de uma centena de alvos em menos de doze horas.
Embora entre os alvos figurassem instalações nucleares emblemáticas como Natanz, Fordow ou Isfahan, os bombardeamentos também visaram residências de altos comandantes militares, domicílios de cientistas e figuras acadêmicas – incluindo o presidente da Universidade Azad de Teerã. Várias zonas residenciais foram igualmente atingidas, causando vítimas civis.
Apresentado por Tel Aviv como uma ação de “defesa preventiva”, o ataque careceu de legitimidade jurídica internacional e combinou objetivos táticos com uma dimensão psicológica explícita. Não se tratou apenas de danificar infraestruturas críticas, mas de desorganizar o sistema de comando iraniano, semear o caos interno e provocar uma resposta desproporcional que justificasse uma escalada militar de maior alcance.
No entanto, a reação iraniana alterou esse cálculo. Em questão de horas, tanto as Forças Armadas quanto o Corpo de Guardas da Revolução restabeleceram a cadeia de comando, reativaram seus sistemas de comunicação e retomaram o controle operacional de suas principais unidades. O sistema político-militar iraniano, longe de mostrar sinais de colapso imediato, conseguiu preservar sua estrutura funcional e conter os efeitos do primeiro impacto. A ofensiva inicial, planejada como um golpe decisivo, resultou em um cenário mais prolongado de confronto, marcado pela capacidade de resposta iraniana e pela ausência de um desfecho rápido.
Fase 2: campanha de desestabilização interna
Juntamente com a ofensiva militar, Israel desencadeou uma estratégia paralela centrada em operações psicológicas e de desinformação. Segundo os meios de comunicação iranianos, agentes com domínio da língua persa teriam difundido mensagens destinadas a gerar confusão entre os funcionários e a fomentar a desconfiança entre os cidadãos e as instituições do Estado.
O objetivo era enfraquecer a coesão interna do país num momento de grande pressão externa. No entanto, os efeitos dessa campanha foram mais limitados do que o previsto. Diversos setores sociais – incluindo alguns críticos habituais do sistema – adotaram posições voltadas para a defesa da soberania nacional, interpretando a ofensiva como uma agressão externa e não como uma disputa interna.
Declarações de figuras da oposição no exílio, como Reza Pahlevi, apoiando a ação israelense, geraram controvérsia até mesmo dentro da diáspora, evidenciando tensões internas em torno dos marcos de legitimidade em contextos de confronto internacional.
Embora seja difícil quantificar com precisão o impacto da campanha psicológica, a resposta institucional, somada a uma relativa coesão social em torno da rejeição à interferência estrangeira, limitou seu alcance. A percepção de uma ameaça externa funcionou, pelo menos durante essa fase, como um fator de estabilização temporária dentro do país.
Fase 3: a intervenção estadunidense
Diante do fracasso da ofensiva israelense em impor uma vitória rápida e decisiva, os Estados Unidos optaram por intervir de forma limitada por meio da operação Midnight Hammer (Martelo de Meia-noite). Segundo a versão oficial estadunidense, tratava-se de uma intervenção cirúrgica centrada em neutralizar ameaças residuais associadas ao programa nuclear iraniano. Bombardeiros B-2 lançaram mísseis de precisão sobre três instalações já danificadas anteriormente por Israel, no que constituiu uma demonstração de capacidades mais do que um movimento com impacto estratégico duradouro.
Washington não buscava a destruição do programa nuclear – objetivo politicamente caro e inviável sem o envio de tropas ao território iraniano –, mas sim pressionar Teerã a retornar à mesa de negociações a partir de uma posição de fraqueza. No entanto, o Irã não aceitou as condições. Conservou suas capacidades técnicas essenciais e evitou responder para não permitir uma escalada direta com os Estados Unidos.
A precisão com que os ataques se limitaram a instalações previamente evacuadas foi interpretada por analistas iranianos como um sinal de contenção deliberada por parte de Washington. Para alguns, isso reflete uma discrepância entre as agendas de Tel Aviv e do governo estadunidense.
Vozes como a do analista Mahdi Khanalizadeh sustentam que a prudência da Casa Branca respondeu a avisos claros de Teerã: qualquer escalada sustentada poderia resultar em uma reação regional mais ampla, com cenários tão sensíveis como o fechamento do estreito de Ormuz ou ataques a infraestruturas estratégicas no Golfo.
A essa avaliação somou-se a crescente polarização política nos Estados Unidos. Segundo a mídia iraniana, a participação direta no conflito exacerbou as tensões dentro do movimento MAGA, o que teria motivado o presidente Donald Trump a se distanciar da estratégia israelense, estabelecendo assim um limite político que restringiu as opções militares do governo republicano.
A resposta iraniana, mais simbólica do que destrutiva, consistiu em um ataque com mísseis de curto alcance contra a base militar estadunidense de Al-Udeid, no Catar. De acordo com fontes regionais informadas ao jornal Entekhab, Teerã notificou previamente as autoridades catarenses com o objetivo de minimizar os danos e evitar vítimas.
Além de sua dimensão tática, o gesto teve um claro componente simbólico-político: na lógica estratégica iraniana, as bases militares estadunidenses na região não são elementos neutros, mas enclaves de projeção imperial cuja vulnerabilidade pode ser ativada como recurso em situações de máxima pressão. Com essa ação, o Irã transmitiu uma mensagem dupla aos Estados Unidos. Por um lado, mostrou que não busca ampliar o conflito de forma precipitada; por outro, reafirmou sua disposição de responder em múltiplas frentes se seus interesses vitais forem ameaçados.
Como apontou o politólogo iraniano Foad Izadi, a defesa do programa nuclear não pode ser entendida apenas em termos tecnológicos, mas como uma manifestação concreta – “óntica” – de uma reivindicação mais profunda: o direito da nação iraniana de definir soberanamente seu destino político e estratégico. Dessa perspectiva, qualquer tentativa de impor limites externos ao desenvolvimento científico e militar do Irã é percebida como uma agressão direta à sua soberania e, como tal, suscita uma resposta não apenas militar, mas fundamentalmente política.
Israel: objetivos alcançados?
De acordo com o comunicado oficial divulgado pelo gabinete do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, Israel alcançou todos os objetivos propostos em sua operação contra o Irã. “Todos os objetivos da operação foram cumpridos”, afirmava o texto, justificando assim a aceitação do cessar-fogo entre Israel e o Irã proposto por Trump. No entanto, além das declarações triunfalistas, o balanço estratégico é muito mais ambíguo. O que Israel buscava exatamente? E até que ponto se pode considerar que alcançou esses objetivos?
O primeiro objetivo declarado era neutralizar o que Tel Aviv considera uma ameaça existencial: o programa nuclear iraniano. Segundo Ori Goldberg, analista israelense especializado em política regional, o ataque foi justificado sob a premissa de que o Irã estaria a poucos dias de atingir um nível de enriquecimento de urânio suficiente para fabricar entre nove e onze ogivas nucleares.
No entanto, os resultados contradizem de forma contundente a eficácia dessa aposta. Embora as instalações de Natanz, Fordow e Isfahan tenham sido bombardeadas, o núcleo do programa nuclear iraniano permanece totalmente funcional. Além disso, o ataque precipitou uma radicalização do consenso interno no Irã em torno da questão nuclear.
Nesse contexto, o Parlamento iraniano aprovou – por maioria esmagadora – uma lei para suspender a colaboração com a Agência Internacional de Energia Atômica. A medida foi posteriormente ratificada pelo Conselho dos Guardiões, órgão constitucional encarregado de validar todas as leis aprovadas pelo parlamento, garantindo sua conformidade com os princípios fundamentais do Islã e da República. Em vez de conter o programa atômico iraniano, a ofensiva reforçou sua legitimidade interna. Além disso, tudo indica que Teerã está caminhando para uma eventual retirada do Tratado de Não Proliferação Nuclear.
O segundo objetivo consistia em desestabilizar — e até mesmo provocar o colapso — do sistema político da República Islâmica. Nesse plano, o ex-ministro da Defesa israelense Yoav Gallant assumiu um papel central na narrativa oficial, ao declarar abertamente que o objetivo final da ofensiva era “facilitar uma mudança de regime”.
Sob essa lógica, inscreveu-se, por exemplo, o ataque à prisão de Evin, uma ação que suscitou ampla rejeição internacional por ter afetado principalmente prisioneiros e instalações como a enfermaria. Essa linha estratégica foi apoiada por figuras do establishment israelense, como Raz Zimmit, do Instituto de Estudos de Segurança Nacional (INSS), que reiterou que “a solução de longo prazo para o Irã passa por uma mudança de regime”.
No entanto, essa expectativa também não se concretizou. Como observou o analista Mouin Rabbani, o sistema político iraniano, longe de entrar em colapso, conseguiu se reconstituir rapidamente. As vagas no aparato estatal e militar foram preenchidas, a disciplina interna foi reforçada e nenhuma oposição coesa com capacidade de capitalizar a crise surgiu. Em vez disso, a agressão externa pareceu agir como um catalisador para uma união nacional.
O terceiro objetivo consistia em degradar o programa de mísseis balísticos do Irã, peça-chave de sua capacidade dissuasória. Apesar dos esforços israelenses para destruir os centros de produção e lançamento, o Irã foi capaz de executar uma série de ataques que atravessaram os sistemas de defesa antiaérea israelenses, incluindo o Cúpula de Ferro e o avançado sistema Arrow-3. De uma perspectiva técnico-militar, este fato constitui um revés relevante: não só pelos danos materiais causados em território israelense, mas também pelo questionamento que implica sobre a invulnerabilidade projetada pelo seu escudo defensivo.
No entanto, salientar que Israel não atingiu plenamente seus objetivos não significa ignorar a magnitude dos danos sofridos pelo Irã. A infraestrutura civil, energética e militar do país foi gravemente afetada. Seus sistemas de defesa ficaram expostos a uma sobrecarga sustentada, e não está claro se, no curto prazo, ele poderá recuperar suas capacidades com o apoio direto de seus principais aliados, como a Rússia ou a China.
Mas, no contexto de uma guerra híbrida e altamente assimétrica, a mera sobrevivência institucional e operacional da República Islâmica — após uma ofensiva massiva e coordenada por duas potências nucleares — pode ser interpretada por Teerã não apenas como um sinal de resistência, mas como uma forma de vitória estratégica.
Como observou o politólogo iraniano Nezamoddin Mousavi, Israel obteve “sucessos táticos inegáveis”, entre eles a eliminação de altos comandantes militares, mas tais conquistas não se traduziram em vantagens sustentáveis no médio prazo. A correlação de forças regionais não foi alterada de forma significativa e a ofensiva israelense, em vez de modificar o equilíbrio estratégico, consolidou a narrativa de resistência e autodeterminação no seio do Estado iraniano. Nesse contexto, mais do que uma vitória decisiva, o que aconteceu parece marcar o limite do que Israel pode alcançar exclusivamente por meios militares.
Cessar-fogo entre Israel e Irã?
Nem no Irã nem em Israel o cessar-fogo é interpretado como o fim do conflito. Ambos os lados reconhecem que se trata de uma pausa tática dentro de uma disputa prolongada. A mídia israelense insiste que a campanha contra o Irã deve continuar, combinando métodos diplomáticos, econômicos, de inteligência e militares, com o objetivo de alcançar metas estratégicas ainda não alcançadas: impedir a obtenção de armas nucleares, enfraquecer os aliados regionais do Irã e frear seu programa balístico.
Do lado iraniano, a interpretação é semelhante. A cessação das hostilidades não elimina a ameaça israelense. A imprensa oficial concentrou sua atenção no “cessar-fogo” no Líbano, considerado uma desculpa para Israel continuar bombardeando o sul do país, agora sem resposta simétrica por parte do Hezbollah. As autoridades iranianas temem que Israel tente aplicar ao Irã um modelo semelhante ao da “zona desmilitarizada informal” no sul do Líbano: um espaço sem soberania efetiva, vulnerável a incursões militares sob qualquer pretexto.
Embora sustentem que replicar esse padrão no Irã será mais difícil, dada a capacidade defensiva do país, insistem que a vigilância deve ser mantida ativa e constante.
Quanto à possibilidade de retomar as negociações com os Estados Unidos, o Irã deixou claro que não aceitará conversações que não reconheçam seu direito soberano de enriquecer urânio em seu próprio território. Para Teerã, renunciar a esse direito seria tão contraproducente quanto suicida. A experiência histórica indica que eliminar uma capacidade estratégica, como o programa nuclear, não leva a um alívio sustentado das pressões externas, mas sim ao seu redirecionamento para outras áreas, como o programa de mísseis ou, em última instância, para uma tentativa de mudança de regime.
Nesse contexto, aceitar um “enriquecimento zero” equivaleria a desmantelar sua capacidade de dissuasão e se expor a um ciclo perpétuo de pressão. Os casos da Síria, Gaza ou Líbano evidenciam que a desmilitarização não garante segurança; e que os cessar-fogos, longe de serem tréguas duradouras, funcionam como instrumentos de guerra por outros meios.
Por isso, como adverte Mahdi Mohammadi, assessor do presidente do parlamento iraniano: “Tudo depende do que acontecer a partir de agora. Se permanecermos céticos e vigilantes, corrigirmos as deficiências, mantivermos a unidade, consolidarmos a rede de influência e conservarmos a vontade de derrotar o inimigo, esta breve pausa será uma oportunidade; caso contrário, não passará de uma armadilha para que o inimigo se reorganize e lance uma guerra ainda maior”. Nesse contexto, o cessar-fogo assinado entre Israel e o Irã não representa um desfecho, mas uma pausa tática que antecipa uma nova fase de confronto.
Tradução: Deepl com supervisão do Portal Desacato.
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