Momento de destituição na Bolívia. Por Alfredo Serrano Mancilla.

Por Alfredo Serrano Mancilla, Diario Red América Latina.

E “qualquer coisa” aconteceu.

Nós já tínhamos previsto isso. Podia acontecer “qualquer coisa” porque tudo estava sendo desconcertante e, além disso, havia muitos condicionamentos e vícios democráticos.

Foram eleições sem regras claras e sem conformidade com a lei.

Evo Morales não foi autorizado a participar. Ele foi proscrito e perseguido judicialmente sem cessar.

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O MAS foi tomado por um grupo de pessoas que já não o representam.

Andrónico subestimou Evo e fez demasiadas concessões a um eleitorado que nunca iria votar nele (quando nos apresentamos como moderados-centristas, perdemos sempre).

O Executivo, com Arce à frente, teimou em não se concentrar no que era importante (resolver a questão econômica) e se dedicou a perseguir Evo e líderes sociais.

A crise institucional chegou ao seu auge.

E o ciclo constituinte de anos atrás foi se apagando até entrar nesta última etapa destituinte.

A ressaca do golpe de Estado de 2019 se fez sentir.

E, nesse cenário político, as eleições tiveram resultados “qualquer coisa”.

A participação, de 88%, é semelhante às eleições anteriores. É preciso considerar que o voto na Bolívia é obrigatório.

Vale ressaltar que, somando votos nulos e em branco, chegou-se a quase 22 pontos. Muito acima do que vinha acontecendo no país. Cresceu 440% em relação a 2020.

Em grande parte, esse crescimento de votos em branco e nulos é voto que certamente teria ido para Evo Morales.

E em relação aos candidatos, Rodrigo Paz ficou com parte do voto “não sei para onde ir”. Ele tinha um discurso mais sério e fresco do que os demais, embora repetisse o roteiro neoliberal. Ele apareceu como “novo” em meio a tanta “velha política”.

Isso fez com que ele fosse o mais votado, com 32%. E ele passará para o segundo turno como favorito, porque certamente os outros candidatos da direita derrotados solicitarão apoio para ele (Samuel Doria Medina já o fez; o terceiro na disputa, com 19%).

O segundo em votos é Tuto Quiroga (27%), o eterno perdedor, com propostas muito obsoletas e uma apresentação também muito obsoleta. Provavelmente, ele não somará muitos votos a mais porque atingiu seu limite.

Por sua vez, Andrónico ficou muito longe de passar para o segundo turno (8%). Ele não soube estar à altura deste momento histórico tão complexo. É verdade que ele não teve vida fácil, mas na política isso nunca pode ser uma desculpa. Sem o voto de Evo, ele não chegaria a lugar nenhum. E foi o que aconteceu.

Do resto, pouco mais há a dizer, exceto que Castillo, o ministro mais à direita do Executivo, obteve uns pífios 3%, apesar de ter usado toda a máquina governamental a seu favor.

E quanto à Assembleia Legislativa, deputados e senadores, haverá uma maioria esmagadora alinhada com ideias conservadoras e neoliberais.

Em 19 de outubro, haverá o segundo turno (se Tuto Quiroga não se retirar antes), sem mais glória nem tristeza. Rodrigo Paz vencerá, mas deverá levar em conta que tem um apoio circunstancial, que representa somente 21% do eleitorado (segundo dados deste primeiro turno).

A derrota eleitoral da esquerda é consequência de uma derrota política com muitas facetas. Nem tudo é uma questão de egos, nem da dificuldade na sucessão, nem da relação entre líderes históricos e novos supervalorizados por serem novos. As razões de uma derrota política vão muito além, e será preciso analisá-las com responsabilidade e perspectiva, mas sem vontade de cometer harakiri.

E a partir de agora, só falta elucidar o que acontecerá daqui para frente, porque a Bolívia, o povo boliviano, demonstrou ao longo dos anos e séculos que não aceita por muito tempo políticas impostas de fora, e muito menos se forem contra o Bem Viver da maioria.

Tradução: Deepl com supervisão do Portal Desacato.

A opinião do/a/s autor/a/s não representa necessariamente a opinião de Desacato.info.


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