McLuhan e Geografia: por uma pedagogia crítica das tecnologias digitais. Por Francisco Fernandes Ladeira.

Por Francisco Fernandes Ladeira.

Entre as disciplinas presentes na matriz curricular da Educação Básica, a Geografia é uma das que mais se aproxima do cotidiano dos alunos. Independentemente da experiência escolar, os principais conceitos estruturadores do pensamento também estão presentes (e possuem variadas concepções) no senso comum e nos diferentes tipos de mídia: tanto nas tradicionais quanto nas mais recentes, como as Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação (TDIC), representadas pela internet e pelos dispositivos utilizados para acessar a rede mundial de computadores.

Sobre esta questão, Marshall McLuhan já apontava que “aqueles que experimentam primeiro o impacto de uma nova tecnologia são os que reagem mais profundamente”. Nesse sentido, o debate sobre a integração das TDIC ao processo de ensino e aprendizagem em Geografia tem sido frequentemente pautado por uma polarização reducionista. De um lado, encontra-se uma perspectiva tecnofílica que atribui às tecnologias um “poder transformador” quase mítico, capaz de resolver por si só os complexos desafios educacionais. Do outro lado, posiciona-se uma abordagem tecnofóbica que, avessa às inovações, enxerga as TDIC como elementos disruptivos que comprometem a atenção e a aprendizagem, configurando-se como um “mal” a ser combatido.

Essa visão polarizada, no entanto, mostra-se insustentável ante a ubiquidade das tecnologias digitais na vida dos estudantes. Como ressalta Suzana Gomes, as novas gerações já nascem imersas em um ambiente midiático, estabelecendo relações intrínsecas com os recursos digitais. Nesse contexto, a simples proibição do uso de dispositivos como smartphones e tablets no espaço escolar (mesmo para fins pedagógicos) se revela uma estratégia anacrônica, que desconsidera a irreversibilidade da transformação digital na sociedade. A superação desse impasse, conforme propõe Vani Kenski, exige uma postura crítica e seletiva por parte dos educadores, capaz de discernir as reais potencialidades e limitações pedagógicas das TDIC.

De acordo com Ana Giordani, cabe à Geografia Escolar apropriar-se de práticas pedagógicas consonantes com a contemporaneidade, as quais perpassam por novas metodologias de ensino, subsidiadas pelas tecnologias, o que significa estimular o desenvolvimento e a melhoria da qualidade do ensino geográfico amparado em recursos digitais. Para Ana Maria Pereira, os avanços exponenciais das inovações tecnológicas nos últimos anos trouxeram múltiplas possibilidades para o ensino de Geografia na educação básica, a partir do uso de softwares, plataformas digitais e ferramentas como Google Maps, Google Earth e Wordwall, entre outros. Segundo a autora, com a utilização nas aulas de Geografia destes recursos, disponíveis em rede e de acesso gratuito, é possível observar e analisar com maior profundidade as transformações ocorridas nos diversos espaços geográficos, nas mais variadas escalas.

Corroborando as palavras de Pereira, em artigo publicado no ano de 2020, Rosemy Nascimento descreve uma prática pedagógica com Google Earth e Google Maps (que também utilizou o site The True Size) em que a utilização dessas ferramentas virtuais, em conjunto com um globo terrestre físico, permitiu que os alunos aprimorassem seus desempenhos de aprendizagem em temáticas ligadas à Cartografia (especificamente dos conteúdos de projeções cartográficas e coordenadas geográficas). O acesso ao site The True Size possibilitou que os discentes visualizassem, de forma prática, as distorções causadas pela Projeção de Mercator nos diferentes territórios nacionais. Além disso, o uso combinado do globo terrestre e do Google Earth levou os alunos a uma melhor compreensão sobre os conceitos de localização, projeção e adaptação, potencializando suas habilidades em leituras de mapas, variações de escalas e, principalmente, questões que envolvem aspectos da globalização e outros temas fundamentais para a Geografia Escolar.

Por outro lado, retomando McLuhan, toda extensão de uma capacidade humana por meio de uma invenção tecnológica implica também uma amputação. Dessa forma, as funções originais são substituídas pela tecnologia, que, em um movimento paradoxal, simultaneamente fortalece e solapa o usuário. Aplicando esse conceito ao contexto educacional, as TDIC, a depender de como são utilizadas, podem tanto expandir o intelecto – ao oferecerem fontes praticamente inesgotáveis de informação – quanto levar a uma acomodação cognitiva, quando tarefas intelectuais fundamentais são delegadas à máquina. Neste processo, as TDIC reconfiguram a percepção, a experiência e a própria conceituação das categorias geográficas, gerando novas espacialidades e territorialidades. Sendo assim, as definições presentes na tradição disciplinar tornam-se insuficientes para dar conta da complexidade do espaço contemporâneo, exigindo uma revisão crítica que incorpore as lógicas e os efeitos da mediação tecnológica.

Em sua tese de doutorado, Roberto Ribeiro afirma que a tecnologia digital mudou a relação de pertencimento com o espaço, alterando, consequentemente, o modo como lidamos com nosso lugar geográfico, sua quantificação, os meios de interagir, as concepções de valores e as afinidades. Nessa lógica, o fato de ter ou não disponibilidade de acesso à internet passou a ser importante fator de valorização/desvalorização de um determinado lugar, pois, para as novas gerações, as ferramentas digitais possuem alto valor de afinidade, a ponto de serem descritas como parte de um lugar próprio e com importante valor de pertencimento. Por sua vez, Lucia Santaella recorre ao termo “espaço intersticial” para demonstrar como os dispositivos móveis de conexão contínua promovem a hibridização dos espaços físico e digital, com as fronteiras entre ambos cada vez mais imprecisas (criando um espaço próprio, fluido e múltiplo, que não pertence nem propriamente ao domínio físico, nem ao domínio virtual), fazendo com que os sujeitos não apenas estejam conectados, mas, sobretudo, sejam conectados.

Já um estudo conduzido por Linda Henkel sugere que o uso excessivo de dispositivos móveis pode estar alterando as percepções de muitos jovens sobre as diferentes paisagens (conceito-chave da ciência geográfica). Segundo esta autora, a prática contemporânea de tirar fotos compulsivamente de um determinado local (geralmente para compartilhá-las nas redes sociais), em detrimento do hábito anterior de somente contemplar a paisagem, tende a fazer com que as lembranças de um indivíduo a respeito deste local remetam às fotografias armazenadas em seu dispositivo móvel, e não necessariamente à sua memória ocular. Para Rodrigues e Alves, a reconfiguração das experiências espaciais e cartográficas evidencia que as tecnologias digitais não são meras ferramentas neutras de mediação, mas agentes ativos na produção de novas lógicas territoriais. Sendo assim, serviços baseados em localização constituem “territórios digitais”, que não se limitam a otimizar deslocamentos, mas impõem uma leitura espacial algorítmica que pode alterar nossa experiência fenomenológica do espaço. Dessa forma, os aparatos tecnológicos, ao apresentarem outras possibilidades de leituras do espaço, inserem novos fatores perceptivos durante o percurso, aos quais poderíamos não ter acesso ou prestar atenção sem uma interferência externa.

Não obstante, conteúdos trabalhados na Geografia Escolar também estão presentes em textos, imagens e vídeos disponibilizados na internet; porém, em muitas ocasiões, de maneira acrítica, superficial, distorcida e/ou equivocada, como o chamado “terraplanismo” e “teorias” sem qualquer respaldo científico como o “globalismo”, a “religião biônica mundial” e a “nova ordem mundial”. Diante dessa realidade, um grande desafio que se apresenta ao professor não é, necessariamente, indicar aos seus alunos onde buscar informações, mas orientá-los sobre como selecionar e filtrar essas informações.

Em última instância, o uso das tecnologias digitais no ensino de Geografia não representa uma ameaça inevitável, tampouco uma solução definitiva. Seus impactos dependem do modo como são integradas às práticas escolares e das condições políticas que influenciam o trabalho do professor. Assim, partimos da premissa de que as TDIC oferecem potenciais significativos para a prática docente em Geografia. No entanto, a mera inserção de equipamentos tecnológicos no espaço escolar é condição insuficiente para a inovação pedagógica. O êxito no uso das TDIC está intrinsecamente ligado a uma proposta didática bem arquitetada e conduzida pelo professor, que atue como mediador crítico do processo. Na ausência de um planejamento curricular claro e um propósito didático-pedagógico bem delineado, a incorporação de tecnologias converte-se em um simples adorno, destituído de efetividade para elevar a qualidade do processo de ensino e aprendizagem.

Consideramos que o valor educacional da tecnologia deriva integralmente de sua aplicação. É fundamental, portanto, que o foco se desloque da tecnologia em si para o desenvolvimento de capacidades analíticas e críticas nos estudantes, capacitando-os a navegar e extrair conhecimento do ambiente hiperinformacional. Tão importante quanto o acesso aos equipamentos é a promoção de um consistente letramento digital, que transcenda a operacionalidade e contemple a reflexão ética e crítica sobre os conteúdos consumidos e produzidos. Também nos está evidenciado que a simples transposição de práticas educacionais tradicionais para novos suportes digitais, sem uma revisão metodológica profunda, resulta em uma fachada de modernidade que oculta o ensino repetitivo e baseado na memorização, aquilo que Paulo Freire oportunamente chamou de “educação bancária”.

Francisco Fernandes Ladeira é Doutor em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Licenciado em Geografia pela Universidade Presidente Antônio Carlos (Unipac). Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ).

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