Marighella: crianças ocupam o presente, adultos discutem o futuro

Na ingenuidade de Laura, ela me instigou “Quando tu virar jornalista, lembra de mim!”

Ocupação Carlos Marighella / Palhoça – Foto: Maria Clara Sampaio

Por Maria Clara Sampaio.

As discussões sobre o futuro da Ocupação Carlos Marighella, em Palhoça (SC), avançam há anos em diferentes esferas administrativas e jurídicas. Enquanto o debate se multiplica, a vida cotidiana das famílias segue seu ritmo e, para as crianças que moram ali, a questão central não é qual autoridade está envolvida no processo, mas como garantir uma infância segura, acompanhada e constante.

Instalada em prédios abandonados há mais de uma década, a ocupação reorganizou um espaço que ficou anos sem função social. Com a ausência de políticas habitacionais efetivas na região, as famílias transformaram o local em comunidade, onde as rotinas são construídas coletivamente. Esse esforço aparece com mais nitidez na vida das crianças.

É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”

Oficinas de cerâmica, aulas de música, treinos de capoeira e até aulas de informática são iniciativas que nascem do engajamento da própria comunidade ou de projetos sociais apoiadores. As mulheres da ocupação relatam rotinas exaustivas, saindo de casa antes do amanhecer para trabalhar no Centro de Florianópolis, e descrevem como a distância e a falta de políticas públicas no bairro dificultam o acesso das crianças a atividades extracurriculares. Ainda assim, elas se organizam para que os filhos estejam acompanhados e participem de atividades educativas e culturais.

Na ingenuidade de Laura, ela me instigou “Quando tu virar jornalista, lembra de mim!”. Talvez ela não saiba, mas aquele pedido carrega consigo o desejo de verdadeiramente vista. Entre visitas, debates políticos e adultos discutindo sobre o bairro, sua rotina segue a mesma: brincar, estudar, treinar capoeira, aprender música. O pedido é simples, mas revela a força de uma infância que busca atenção e reconhecimento no presente.

Laura, 10 anos, moradora da Ocupação Carlos Marighella, mostra com orgulho os cadernos escolares – Foto: Maria Clara Sampaio

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) estabelece que a proteção de crianças e adolescentes é prioridade absoluta diante de outras políticas públicas. O assistente social Alexandre Sampaio destaca a distância entre o que a lei determina e o que muitas crianças vivenciam:

A realidade está posta, a contradição do mundo dos adultos continua a tratar com indiferença uma grande parcela do público infanto-juvenil, que não tem alternativa senão a de vivenciar cotidianamente as marcas da negligência, discriminação, exploração, violência, abandono, crueldade e opressão, realidade esta, que vem na contramão do artigo 5º do Estatuto da Criança e do Adolescente, que assegura que:

“…Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, punido na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais…”, tal qual está descrito lá Legislação”.

No caso da Marighella, observa-se que as crianças até aparecem nos discursos, mas pouco se considera como elas mesmas vivem esse debate. Para a maioria, as discussões entre Governo Municipal, movimentos de moradia ou Ministério Público não fazem parte da vida cotidiana. O que importa para elas é ter escola, atividades, convivência e um ambiente onde possam circular com segurança.

A perspectiva do pedagogo Janusz Korczak ajuda a entender essa diferença. Afirmava que crianças não são “projeto de futuro”, mas sujeitos de direitos no presente. Isso significa que, enquanto os adultos discutem responsabilidades legais e administrativas, a proteção da infância não pode ser pensada como algo que ocorrerá “depois”, ela precisa acontecer no agora.

Parte dessa proteção é garantida pelos próprios moradores. As mulheres da comunidade relatam que, se houvesse mais políticas públicas a disposição nas redondezas, ou mesmo maior disponibilidade transporte públicas, mais crianças poderiam participar de atividades extracurriculares fora da ocupação. Ainda neste cenário, a comunidade faz o possível para preencher as lacunas: “Quando não tem projeto, a gente cria”.

Amarelo esperança

Entre lonas amarelas, uma cadeira e um espelho… a “barbearia” de um dos jovens da comunidade. Nos tatames, o garoto é Campeão de jiu-jitsu nos Jogos Abertos de Santa Catarina. No dia a dia, é dono da barbearia amarela que ele mesmo levantou em uma parte do terreno da ocupação, como quem planta uma semente tão fértil que brota mesmo em solo árido. Na naturalidade de seus gestos e na dedicação aos treinos, é possível ver como ele, e tantas outras crianças e adolescentes do bairro, reinventam seus cotidianos e constroem pequenos universos onde seus sonhos têm lugar.

A barbearia da Ocupação Carlos Marighella – Foto: Maria Clara Sampaio

Enquanto o futuro da área aguarda decisões definitivas, as crianças continuam vivendo ali diariamente — estudam, treinam, cuidam umas das outras, participam das oficinas e circulam pelos espaços reformados em mutirão. Para elas, a ocupação não é um conflito, mas um lugar de convivência.

Os debates sobre a Marighella continuarão, mas a infância que existe ali não está suspensa à espera de resoluções políticas. Ela acontece hoje e, pela lei e ética, precisa seguir sendo tratada como prioridade absoluta.

Maria Clara Sampaio é estudante de jornalismo e reside em Florianópolis–SC

 


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4 COMENTÁRIOS

  1. Brilhante matéria, com foco no aparente “invisível” : as crianças que convivem na dura realidade daquela comunidade.
    É preciso ter a sensibilidade e o olhar crítico dado às crianças, da estudante de Jornalismo Maria Clara, para que políticas públicas sejam implementadas.

  2. Falhamos quando a discussão não é sobre os horrores causados pela nossa negligência coletiva, parabéns pela sensibilidade do tema.

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