Por Isadora Pavei, ZeroUfsc.
“Pega o teu irmão e sai de dentro da casa, o resto nós conquista”. Essa foi a resposta que Itamara Wolff, 30 anos, deu ao filho quando ele ligou para avisar que a água levaria a morada que os abrigava. Localizada na comunidade Marielle Franco, no Maciço do Morro da Cruz, em Florianópolis, ocupação que hoje abriga 350 famílias, a residência da entregadora de aplicativo foi destruída após fortes chuvas que ocorreram na Capital em 16 de janeiro de 2025.
Um ano e três meses depois, Itamara continua na fila de espera por uma moradia popular, junto com outras 7,5 mil famílias registradas no Cadastro Habitacional da Prefeitura. O déficit habitacional da Grande Florianópolis é de 41 mil domicílios, calculado em 2023 pela Fundação João Pinheiro, através do Ministério das Cidades. O número é dado pela quantidade de famílias que não possuem local adequado para morar ou gastam parte excessiva da renda com aluguel.
A moradia é um direito fundamental de todo cidadão, garantido pela Constituição Federal de 1988. Na capital catarinense, o acesso a uma casa própria é difícil devido ao alto preço dos imóveis. De acordo com o Índice FipeZap de Venda Residencial, elaborado pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), divulgado em março de 2026, o metro quadrado de um imovél no centro da cidade custa em torno de R$ 14 mil. Ou seja, uma casa padrão brasileira de 40 m², com dois quartos, um banheiro, sala e cozinha, vale R$ 560 mil.
O mercado imobiliário no município segue em crescimento. Uma pesquisa da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) mostra que, de 2024 a 2025, Florianópolis registrou uma alta de 97% nas vendas residenciais. O avanço também se dá nas entregas de imóveis de luxo. Segundo o Anuário DataZAP 2026, elaborado pelo Grupo OLX, esse tipo de empreendimento aumentou 50% em um ano. Os imóveis mais caros custam em torno de R$ 25 mil a R$ 29 mil o metro quadrado e estão nos bairros Centro, Jurerê, Jurerê Internacional e Campeche.
Pessoas desempregadas ou que possuem até três salários mínimos como renda são prioridade em programas sociais de habitação para residir no município. A Secretaria Municipal de Planejamento, Habitação e Desenvolvimento Urbano (SMDU) possui um cadastro online para controlar o número de solicitações por moradias populares.
Como Itamara, a maioria das registradas são mulheres chefes de famílias oriundas de outros municípios ou estados. Elas pagam aluguel para morar no município, que, no bairro Centro custa em torno de R$ 2.250 um imóvel de 40 m², segundo o Índice FipeZap/2026. A taxa do condomínio também é somada à conta, com valor em torno de mil reais, de acordo com o levantamento de 2025 da empresa de serviços imobiliários Loft.
Itamara, que tem renda de R$ 1.500 por mês, não tem condições de sustentar o preço da locação, mas, devido ao episódio que sofreu, recebe da Prefeitura um valor para custeá-lo. Nem todas as pessoas registradas têm direito ao mesmo benefício, dado apenas para quem passou por algum desastre climático. Desse modo, as ocupações em morros surgem como a única maneira de permanecer na cidade.
A comunidade Marielle Franco, situada no Alto da Caeira, é uma ocupação liderada por mulheres. Foi fundada por iniciativa de algumas famílias em 2010 no Maciço do Morro da Cruz. A partir de 2018, já com novos moradores, começou um movimento mais organizado, com a formação de um grupo de liderança, maior diálogo com o poder público e presença em assembleias municipais. O território possui casas de tijolos sem reboco, geminadas, com poucos cômodos, ruas íngremes sujeitas a deslizamentos, becos estreitos, pouca arborização e uma estrada asfaltada que divide a comunidade ao meio.
De um lado, cerca de cem moradias estão em um terreno particular, pertencente a um empresário que os cedeu para quitar uma dívida de Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) com a Prefeitura. Já do outro lado, 250 casas então em uma área de Zona Especial de Interesse Social (ZEIS), prevista no Plano Diretor como destino para construção de moradias populares.

Um lado com esperança
Quem mora no terreno público e tem renda de até R$ 3,2 mil pode vir a ser contemplado com um dos 184 apartamentos que estão em construção na comunidade. Em outubro de 2024, os moradores garantiram o direito ao Minha Casa Minha Vida (MCMV), um programa de habitação federal do Brasil. Chamada Conjunto Habitacional Complexo Caeira, a obra é custeada com verbas federais e vai atender a Faixa 1 do programa. A categoria pode receber o imóvel de graça ou ter que arcar com pequenas taxas, como 5% do valor total.
Segundo a Caixa Econômica Federal, foram investidos R$ 32 milhões de recursos do Fundo de Arrendamento Residencial (FAR) para a construção, que teve o terreno subsidiado pelo município. A Prefeitura também investiu R$ 24 milhões para realizar a infraestrutura em torno, de acordo com a SMDU. O Ministério das Cidades afirma que essa é a primeira construção do MCMV Faixa 1 em Florianópolis após o retorno do programa, em 2023.
Foram mais de sete anos de conflito com o poder público para efetivar a política social de habitação no local. As negociações foram marcadas por manifestações e riscos de despejo, é o que relata Samara Pires, uma das lideranças da comunidade. “Quando começamos a ter acesso às leis, vimos que a nossa luta era justa porque moradia é um direito. E se a gente não fizer barulho, eles [o Estado] não vão fazer por nós”.
Itamara também participou dos embates e afirma que as dificuldades de diálogo com o Estado condizem com o olhar discriminatório diante da comunidade. “O maior desafio foi fazer o poder público nos ouvir, porque eles não dão ouvidos para mulheres”.
Samara lembra que, no último dia para o município aprovar o projeto, em 31 de dezembro de 2024, houve a proposta de dividir a verba. Metade iria para a construção no Alto da Caeira e o restante para uma obra em outro bairro, no Rio Tavares. A comunidade contestou e recebeu uma negativa do Governo Federal para que a verba fosse inteiramente direcionada ao Complexo Caeira.
A líder da comunidade também ressalta que, até meados de 2025, a Prefeitura tinha a intenção de tirar todos os moradores do local para iniciar o projeto. Apesar de serem compensados com o aluguel social, eles ficaram receosos de ser uma promessa falha, devido ao histórico de lutas na ocupação. Achavam que, se saíssem, não poderiam mais voltar. Diante do cenário, 40 famílias só aceitaram a proposta por meio de um acordo judicial que, independentemente do processo seletivo da Caixa, garanta que sejam beneficiadas com um apartamento.
Junto com seus três filhos, Itamara está na expectativa de ser uma das contempladas. Para ela, ter uma casa própria é mais que um teto, é poder acessar direitos de qualquer cidadão. “Quando nós [da ocupação] vamos matricular nossos filhos na escola, sempre pedem um endereço fixo. Quero chegar lá de novo e poder dizer: ‘Está aqui, agora temos um”, almeja.
A Prefeitura promete fazer a escolha dos beneficiados em novembro, seis meses antes da entrega do conjunto habitacional, prevista para abril de 2027. Para a seleção, serão priorizados aqueles que moram há mais de cinco anos em Florianópolis e que necessitam de algum tipo de assistencialismo social, como mulheres chefes de família, idosos e pessoas com deficiência. Cadastrados que residem em área de risco e que possuem vínculo com o bairro também têm prioridade.

Outro lado com falta de apoio
As cem famílias do lado privado da ocupação e aquelas que não conseguirem ser selecionadas para a obra do MCMV vão continuar na luta pela regularização das residências e as consequências sociais que isso envolve. Uma delas é não ter Código de Endereçamento Postal (CEP). Samara Pires enxerga um movimento de criminalização das ocupações e relata que já perdeu serviços quando diz morar no morro.
“Eles querem que a gente vote e trabalhe na cidade, mas não more aqui. Só que a Ilha da Magia não é apenas da burguesia, ela é de todos os trabalhadores”
desabafa a moradora, que se mudou do Rio Grande do Sul para a capital catarinense há 12 anos em busca de novas oportunidades.
Mesmo com o programa municipal Floripa Regular, que regulariza núcleos urbanos informais, a Secretária Municipal de Habitação e Desenvolvimento Urbano de Florianópolis, Ivanna Tomasi, diz que algumas áreas ocupadas são de risco e complexas de fazer a regularização fundiária. “Na verdade a ocupação é irregular e tem que ser combatida”, afirma.
Lino Peres, arquiteto, professor e presidente do Instituto Cidade e Território (ITCidades), estuda o acesso à moradia na área conurbada de Florianópolis. Ele define uma ocupação, organizada ou aleatória, como o caso extremo em que o cidadão perde as condições de autorreproduzir e de se sustentar.
Segundo o professor, o setor privado, fundiário e especulativo no município controla a terra e coloca os melhores serviços em localizações caras da cidade. Quem não pode pagar pelo valor, é obrigado a se retirar. “A ocupação passa a ser a solução para a ausência do Estado produtor de monopólio”, explica.
Foi exatamente o que sentiu Samara quando chegou na capital e se surpreendeu com o alto custo de vida: imóveis, alimentação e transporte público caros. Em determinado momento, o dinheiro ficou escasso e ela teve que escolher entre pagar o aluguel ou colocar comida na mesa. Foi então que viu na ocupação Marielle Franco a única saída para residir no município.

Lino ressalta que habitação é mais que a casa como um aspecto físico, é também oferecer serviços que leve a pessoa a ter a visão de morar e pertencer à cidade. Ivanna garante que nos projetos habitacionais de interesse social do município, a Secretaria de Habitação é responsável por garantir infraestrutura adequada, tratamento de esgoto e acesso à saúde, educação e transporte. Em contrapartida, oposição e organizações sociais mostram que esse movimento de pertencer não ocorre com a classe trabalhadora e periférica, uma vez que os projetos urbanos do município dialogam com interesses privados.
Florianópolis é a capital com a tarifa de transporte público coletivo mais cara do país, no valor de R$ 7,70. Outra insatisfação é a ampliação da SC-401, via de acesso do Centro para o Norte da Ilha. A obra, realizada pela Prefeitura em parceria com o Governo do Estado, não prevê faixa exclusiva para ônibus. Samara, que sente na pele o preconceito, entende essas políticas como uma tentativa de isolar a população mais pobre em um só lugar, sem acesso ao lazer.
Segundo a secretária Ivanna, também há o fortalecimento da segurança pública com a guarda municipal e a defesa civil, uma vez que esse tipo de construção vem com risco de favelização do espaço. Para ela, isso gera resistência de alguns bairros em aceitar habitação social, o que dificulta a implantação de projetos desses moldes na cidade. “Acham que produção de moradia popular é produção de favela. Pelo contrário, é uma oportunidade de investimento”, acrescenta.
A Secretaria também realiza campanhas de conscientização para impedir o aumento de ocupações irregulares. O órgão define que o movimento traz mais impacto do que o empreendimento de moradias populares. Além disso, reafirma que habitação de interesse social não é dar casas para as pessoas, “é equalizar um planejamento urbano com preço acessível para a população que trabalha”, diz Ivanna.
Em agosto de 2025, a Câmara Municipal aprovou o Floripa para Todos, um programa de desenvolvimento urbano que promove moradia através da parceria com entidades públicas e privadas e apoio financeiro do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Até o momento, nenhuma entrega foi feita.
De acordo com a SMDU, há quatro editais em andamento. Questionada pelo Zero sobre o atual número do déficit habitacional de Florianópolis, a Secretaria Municipal de Habitação respondeu que os dados estão em processo de revisão. O último Plano Municipal de Habitação de Interesse Social foi elaborado em 2012.
May 18, 2026
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