Por Francisco Fernandes Ladeira.
Nos últimos dias, pelas imprensas alternativa e hegemônica, nos chegaram imagens e vídeos sobre os incêndios que atingiram Israel, especificamente as Colinas da Judeia e regiões próximas a Jerusalém. No site de extrema-direita “O Antagonista”, Alexandre Borges, reforçando a campanha de demonização do povo palestino, escreveu que o “Hamas usa redes sociais para ordenar incêndios em Israel”. Por outro lado, internautas apontaram que o fogo seria castigo divino devido ao genocídio palestino. Já que as potências globais nada fazem para conter as matanças na Cisjordânia e em Gaza, a natureza estaria fazendo sua parte.
No entanto, na página do Instagram “História Islâmica” foi apresentada uma possível explicação para os incêndios, relacionada a questões bem mais mundanas, a partir de dados fornecidos pelo “The Institute for Middle East Understanding” (IMEU).
Para sustentar a (falaciosa) narrativa de que os atuais judeus/europeus de Israel possuem laços históricos e biológicos com os antigos israelitas, sendo, portanto, legítimos donos da Palestina, terra supostamente prometida por Deus, foi preciso apagar a história e a geografia da população indígena daquela região: os palestinos.
Assim, além de incentivar a migração de colonos europeus para a Palestina, o movimento sionista (responsável pela criação do Estado de Israel) também importou árvores europeias, com o intuito de modificar a paisagem natural da região. Tratou-se de utilizar o ambiente como arma colonial.
Em 1948, e nos anos posteriores, Israel arrancou árvores nativas e culturas agrícolas – como alfarrobeiras, pinheiros, carvalhos, oliveiras, figueiras e amendoeiras – substituiu-as por mais de 4 milhões de árvores de espécies europeias não nativas.
Como “espécies invasoras”, essas árvores não nativas causaram vastos danos ambientais, reduzindo a biodiversidade, aumentando as secas e agravando os incêndios florestais em toda a Palestina. O pinheiro, por exemplo, possui terpenos em sua composição, fator que, em climas quentes e secos, facilita a propagação de incêndios.
Além disso, o governo de Tel Aviv utiliza a tática de mascarar a expropriação de terras palestinas, a partir da construção de florestas artificiais nas antigas propriedades fundiárias do povo palestino (como dito, com árvores europeias, e não a flora nativa). Portanto, Israel pratica “greenwashing”, promovendo-se como um país ecologicamente correto, mesmo que suas políticas e ações causem enormes danos ao meio ambiente e aos palestinos.
Segundo a revista “Spring”, foram plantadas centenas de pinheiros para construir o Parque Nacional Carmel, o maior de Israel. Porém, esses pinheiros não indígenas eram inadequados ao ambiente natural palestino. A região ficou altamente vulnerável, uma vez que os pinheiros levaram a extinção de quase toda a flora circundante, devido ao seu elevado nível de acidez.
De acordo com o historiador Ilan Pappé, os pinheiros foram trazidos pelos colonizadores sionistas por duas razões principais. Primeiro, deu aos novos colonos judeus a sensação de que o lugar para onde migraram, de alguma forma, fazia parte da Europa. Se a Palestina fosse “europeizada”, também seria “civilizada” – a população local inferior seria substituída por uma população superior. Portanto, o sionismo não foi apenas a redenção de uma terra antiga; foi a revitalização daquilo que, aos seus olhos, era um deserto árabe, tanto ecológica como culturalmente.
A segunda razão para sua importação foi mais pragmática. Os pinheiros foram levados para encobrir a limpeza étnica e as ruínas de vilas palestinas, pois se trata de uma árvore de rápido crescimento.
Em síntese, o sionismo não é apenas uma tragédia humana; também é uma tragédia ambiental. E, em determinadas ocasiões, as consequências de suas ações predatórias se voltam contra a própria população israelense (como são os recentes incêndios mencionados no início deste texto).
Francisco Fernandes Ladeira é Doutor em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Licenciado em Geografia pela Universidade Presidente Antônio Carlos (Unipac). Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ).
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