Fantasia de goleiro Bruno é retrato de país que glorifica assassinos

Nina Lemos (Foto: Giovanni Bello)

O caso Eliza Samudio é um dos exemplos mais bárbaros de violência e crueldade contra as mulheres no passado recente do Brasil. Eliza foi morta em 2010 pelo ex-namorado, o goleiro Bruno, condenado a 22 anos e três meses de prisão pelo crime. Na época, o atleta era jogador do Flamengo e Eliza pedia pensão para o filho deles.

A história causa arrepios e enjoo. É preciso muito ódio às mulheres para tratar uma delas assim. O assassinato poderia ser um caso isolado, mas não é. Na verdade, é o retrato de um país onde quase 500 mulheres são vítimas de feminicídio por ano e onde seus assassinos viram celebridades, e os crimes, piada. Em um país onde a misoginia domina, os matadores de mulheres viram “mitos”.

Essa semana tivemos mais uma prova horrível disso, quando vimos que uma balada de Manaus, o Porão do Alemão, publicou no Instagram, junto com “destaques” de fantasias de Halloween, a foto de um homem que resolveu se vestir de Goleiro Bruno no Dia das Bruxas.

A imagem é nauseante: um homem com uma camisa do Flamengo e uma plaquinha escrito “Bruno” carrega um saco de lixo, onde está escrito: “Eliza”. Sim, parte da sua fantasia, que, repito, foi publicada no Instagram oficial da balada, era um saco preto de lixo com o cadáver de uma mulher vítima de feminicídio.

A fantasia deve ter feito sucesso. Acredito mesmo que muitos dos homens presentes, e até mulheres, devam ter dado risada. A misoginia é tão grande em uma sociedade como a nossa que vira inconsciente para muitos. Tanto que a tal balada só retirou a foto do seu Instagram oficial depois que a imagem já circulava pelas redes causando indignação.

A justificativa da casa: a imagem teria sido postada por um estagiário (sempre eles). “A foto foi postada pelo nosso estagiário que tem 20 anos de idade. O crime foi há 11 anos. Foi alegado desconhecimento.”

Como alguém comentou no Instagram: é incrível como um rapaz de 20 anos não é considerado responsável pelos seus atos no Brasil, mas uma menina, mesmo com 11 anos de idade, já costuma ser.

Infantilizar os homens e tratá-los como ‘garotos que não sabem o que fazem’ é parte da cultura machista da qual Eliza é vítima. O autor do crime, segundo foi informado pelo estúdio onde ele trabalhava, foi demitido. É o mínimo.

Feminicídio não é piada

O goleiro Bruno, para quem não sabe, virou uma espécie de influenciador no Instagram, onde, inclusive, já fez publi de cachorro. Na manhã desta quarta- feira (3) seu perfil fazia sorteio de chuteira de uma loja de materiais esportivos.

Existe prova maior de que esse país odeia as mulheres e trata assassinos como celebridades? É por isso, e não só pela memória de Eliza, que os autores da “brincadeira” precisam ser punidos.

A mensagem tem que ser clara: cosplay de assassino de mulher não tem graça. Feminicídio não é piada. Isso tem que parar.

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