Por Fayha Shalash em Beitunia, Palestina ocupada, e Mera Aladam.
A felicidade e o alívio sentidos pelos palestinos após a liberação de 90 prisioneiros detidos por Israel, como parte do acordo de cessar-fogo para pôr fim aos conflitos em Gaza, foram amenizados por preocupações sobre as condições em que foram mantidos.
Prisioneiros palestinos eram vistos exaustos, desnutridos e, em alguns casos, ficaram irreconhecíveis em comparação a quem eram antes de irem para as prisões israelenses.
Autoridades israelenses na Cisjordânia ocupada libertaram 90 prisioneiros, incluindo mulheres e crianças, no primeiro lote de libertações após o acordo de cessar-fogo.
Khalida Jarrar, uma figura-chave da Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP), de esquerda, saiu da prisão com o cabelo branco após meses de confinamento solitário.
A deputada de 61 anos, feminista e defensora dos direitos dos prisioneiros, estava mantida em detenção administrativa — uma política que permite às autoridades israelenses manter indivíduos presos sem acusação ou julgamento — desde 26 de dezembro de 2023.
Em agosto, ela foi transferida para confinamento solitário como uma “forma de punição”, de acordo com o Clube de Prisioneiros Palestinos, e mantida por seis meses em uma cela de um metro por 1,5 metro na prisão de Ayalon (Ramla).
Conforme a política palestina Hanan Ashrawi, todos os prisioneiros liberados na segunda-feira sofreram “maus-tratos severos, incluindo violência verbal e física, privação e isolamento”.
“As prisões israelenses são notórias por seus abusos e torturas de prisioneiros palestinos. Nós nos alegramos com a libertação de nossas mulheres e crianças cativas, e aguardamos ansiosamente a liberação dos 11.000 restantes. A liberdade não tem preço”, ela acrescentou em um post no X.
Ablaa Sadaat, que esteve detida na prisão de Ofer sob detenção administrativa, disse ao Middle East Eye que as condições de vida nas prisões israelenses eram “absolutamente desumanas”.
“Da falta de comida e assistência médica, ao tratamento [dos prisioneiros], é horrível. Eles tentam quebrar o senso de identidade dos prisioneiros e prisioneiras, e nos fazem sentir como se fôssemos menos que eles e que eles estão acima de nós e têm autoridade sobre nós… Eles tentam quebrar nosso senso de identidade e nosso orgulho”, disse Sadaat.
A ex-detida, cujo marido Ahmad Sadaat ainda está preso em Israel, disse que esse nível de maus-tratos “nunca foi visto em toda a história da ocupação [da Palestina]”.
Apenas uma semana após sua prisão, Sadaat disse que foi levada para interrogatório sob o pretexto de um check-up médico, onde mais tarde foi acusada de ameaçar a segurança da prisão e de Israel como um todo. Ela foi então completamente isolada por duas semanas em uma cela de dois por dois metros.
“Eles costumavam lançar gás dentro das celas da prisão antes de nos algemar e vendar, e nos fazer ajoelhar nos tribunais da prisão”, disse ela, acrescentando que o abuso aumentou após os ataques liderados pelo Hamas em 7 de outubro.
“O momento de liberdade é algo que desejo a todos os prisioneiros. Liberdade é algo inestimável, verdadeiramente”, ela disse.
O meio de comunicação palestino Arab48 informou que os dias que antecederam segunda-feira foram especialmente difíceis para os liberados, observando que eles não sabiam que seriam liberados tão cedo.
Yasmine Abu Surur, uma das detidas liberadas, disse que elas ficaram completamente isoladas uma semana antes do acordo de cessar-fogo entrar em vigor, com a administração da prisão mantendo-as isoladas do mundo exterior.
“Estamos sem notícias há uma semana, e não sabemos o que está acontecendo lá fora. Até domingo de manhã, não tínhamos certeza de que este era o dia da liberdade”, disse ela.
Abuso e violência nas prisões israelenses
Vários ex-detentos relataram abusos, violência e humilhações diários, mesmo horas antes de serem soltos.
Amal Shujaiya, de Ramallah, disse que elas eram submetidas a revistas quase diárias em seus corpos e quartos, lhes deixavam pouca pouca comida e não tinham assistência médica.
“Não foi fácil, e essa questão da violação da privacidade de mulheres detidas deve ser destacada, pois nos causou danos significativos”, disse ela aos repórteres ao ser liberada.
Outra prisioneira, Dunya Ishteyeh, ficou angustiada ao ser vista abraçando sua mãe.
“Eu estava morrendo, eles estavam me matando”, ela gritou.
Raghad Amr , uma jovem de 23 anos de Hebron, revelou que horas antes de sua liberação, as prisioneiras sofreram torturas, espancamentos e insultos, com algumas até mesmo sendo arrastadas pelos cabelos por oficiais israelenses.
Ela lembrou que elas também foram alvo de ameaças por parte das autoridades prisionais.
Mais tarde, elas foram transferidas para o que ela descreveu como um posto frio de “gaiola de metal” e para a famosa prisão de Ofer .
Lá, elas foram obrigados a deitar no chão, assistir a vídeos violentos, foram espancadas, revistadas e interrogadas novamente.
“Diziam que as cativas israelenses estavam em boas condições e até receberam presentes… Enquanto isso, éramos arrastados pelos cabelos, espancados, humilhados”, disse ela.
“Nunca esquecerei essa comparação entre um lado e o outro.”
Tradução: TFG, para Desacato.info.
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