Por Carmen Parejo Rendón.
Em 1º de maio de 2006, o então presidente da Venezuela, Hugo Chávez, disse: “O socialismo não se decreta, o socialismo se constrói, e se constrói com o povo consciente, mobilizado e organizado”.
É a terceira vez que visito a Venezuela e em cada uma dessas ocasiões, observei a mesma realidade. A coexistência de dois tipos de histórias que se cruzam e inevitavelmente se confrontam no país: histórias de amor e histórias de ódio.
Histórias de amor não são perfeitas. Os amantes nem sempre concordam, às vezes discutem; no entanto, eles se apoiam e se unem quando a situação é difícil. Por outro lado, existem histórias de ódio, mas os planos dos que odeiam nem sempre correm bem e muitas vezes também são reunidos por esse sentimento.
Uma dessas histórias de amor começa com um médico cubano, integrante do exército de jalecos brancos que percorre o mundo defendendo as pessoas da doença e do desamparo. Desse médico nascerão os comitês de saúde, e desses comitês, a Missão Barrio Adentro I.
A Missão Barrio Adentro é uma das iniciativas populares mais emblemáticas da Revolução Bolivariana na Venezuela. Lançada em 2003, esta missão tem como objetivos fundamentais o acesso universal à saúde para o povo venezuelano, a prevenção e promoção de hábitos saudáveis, bem como a descentralização do sistema de saúde, levando cuidados médicos às comunidades mais remotas e superando com isso as barreiras de acesso geográfico e econômico.
Com o Bairro Adentro I, foram implantados postos de saúde populares nas comunidades, priorizando serviços básicos como clínica geral, pediatria e vacinação. Em 2005, iniciou o Barrio Adentro II, onde se desenvolvem centros de diagnóstico integral, salas de reabilitação e Centros de Alta Tecnologia, assumindo a ampliação da infraestrutura de saúde para oferecer atendimento especializado e emergencial. Depois vieram as fases III e IV, que envolveram a consolidação dos hospitais públicos, apostando na modernização tecnológica e na expansão da capacidade hospitalar em todo o país.
A Missão Barrio Adentro conseguiu reduzir a mortalidade infantil em 49% e a mortalidade materna em 58% nos seus primeiros dez anos de desenvolvimento. Para o ano de 2020, por sua vez, foi reportada a construção de mais de 11 mil clínicas populares, 574 centros de diagnóstico abrangentes e 35 centros de alta tecnologia.

Mais de 30.000 médicos cubanos e venezuelanos participaram deste programa, já que esta Missão não só prestou cuidados de saúde, mas também inclui a formação de uma nova geração de médicos no país sul-americano.
Esta missão significou a democratização do acesso à saúde na Venezuela e, além disso, do ponto de vista político, a combinação de cuidados diretos, formação e cooperação internacional Sul-Sul é uma demonstração de que a saúde pode ser um direito universal e não um privilégio ou um negócio, como os odiadores tanto gostam.
No entanto, Barrio Adentro faz parte de uma transformação mais profunda do Estado e do conceito de democracia na Venezuela. Assim, a Constituição Bolivariana forjou um modelo participativo onde as instituições não atuam isoladamente, mas trabalham diretamente com o povo organizado. O povo não é apenas um destinatário de políticas institucionais, mas também um projetista ativo do seu próprio destino. O pilar fundamental deste modelo são as comunas e os Conselhos Comunais.
Em abril de 2022, durante a minha primeira visita à Venezuela, um líder comunitário da Paróquia de La Vega, em Caracas, afirmou: “O que exigimos é que como povo possamos criar”. Nesse sentido, acrescentou: “Temos o bloqueio há 500 anos”. Na sua análise, concluiu que, após múltiplos ataques, mais de 900 sanções econômicas, violência nas ruas e violência política internacional, o povo venezuelano resistiu “por amor a este processo de transformação social”.
Atualmente, na Venezuela, existem 4.396 comunas, 953 circuitos comunais e um total de 5.349 instâncias de participação cidadã do Poder Popular, distribuídas por todo o país.
As comunas têm impulsionado a produção agrícola, artesanal e industrial a nível local, reduzindo a dependência de produtos importados e garantindo o acesso a produtos e bens para as comunidades. Ao mesmo tempo, promoveram a educação popular e o desenvolvimento de uma consciência política que fortalece a resistência contra as constantes tentativas de desestabilização.
O modelo comunal tem promovido a descentralização do poder e a autonomia local, permitindo às comunidades gerir diretamente projetos de desenvolvimento, infraestruturas e serviços públicos, adaptados às suas próprias necessidades.
Muitas comunidades conseguiram desenvolver formas de autossuficiência em áreas como alimentação, educação e saúde. Todo um processo de transformação social que tem decorrido em paralelo para ajudar a mitigar os efeitos da guerra econômica, ao mesmo tempo que torna real o outro mundo possível tantas vezes sonhado.
Na Venezuela, há algo que preocupa muito mais os que odeiam, nativos ou estrangeiros, do que um governo mais ou menos semelhante: um povo consciente dos seus direitos, que assuma a sua responsabilidade histórica e que esteja profundamente organizado.
Normalmente, os odiadores impõem o que devemos falar quando falamos da Venezuela. Dizem que estão preocupados com a democracia no país, mas a democracia não era o poder do povo?
A opinião do/a/s autor/a/s não representa necessariamente a opinião de Desacato.info.
Tradução: TFG, para Desacato.info.
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