Corporações no campo, ‘cartel’ e falta de estímulo explicam leite caro no Brasil

Brasil produziu menos leite nos últimos dois anos, preço ao consumidor subiu mais que o dobro da inflação

Por Mariana Costa, em O Joio e o Trigo. 

Como quase todos que trabalham no campo, a rotina de Edson Vieira da Silva, de 57 anos, começa antes mesmo do sol nascer. De domingo a domingo, ele acorda às 4h30, toma um gole de café e segue para a ordenha das 40 vacas, na propriedade que divide com cinco irmãos em Alfenas, no sul de Minas Gerais, estado que responde por quase um terço da produção de leite do Brasil.

Começou na venda de leite cru de porta em porta. São 45 anos lidando com as vacas. “Naquela época, podia vender leite in natura. Era numa carroça puxada a cavalo. Era um bom negócio, mas isso já faz uns 20 anos”, lembra o produtor, que nasceu e cresceu na fazenda, seguindo o caminho trilhado pelo pai. Depois, investiu em um pequeno laticínio, onde passou a fazer queijos. “Entregava direto para o povo, não tinha atravessador. Deu certo pra mim, tô aqui até hoje, mas, com o queijo, foi melhor ainda”.

Como muitos pequenos produtores, Edson também tem uma lavoura de milho, que serve de alimento para as vacas e galinhas. O gado é criado solto, a pasto. São quatro funcionários que se dividem em duas ordenhas diárias e na produção de queijo minas, vendido a supermercados e açougues da cidade. A produção da manhã segue ainda quente para o laticínio. O leite ordenhado no fim do dia é vendido e entregue por ele mesmo diariamente a uma cooperativa, distante 24 quilômetros da  fazenda. “No queijo, o [o leite] bruto sai a R$ 5,15 o litro. E para a cooperativa, R$ 2,50. Tem essa diferença. O queijo agrega mais valor”, explica.

  • O produtor rural Edson Vieira da Silva, de 57 anos, aparece sentado ao lado de duas funcionárias no pequeno laticínio em sua fazenda onde o leite que produz vira queijo minas

O produtor rural Edson Vieira da Silva, de 57 anos, ao lado das funcionárias do laticínio e parte do rebanho. Mesmo com o negócio andando, pensa em migrar para o cultivo de grãos devido à instabilidade de custos com o leite e o trabalho de manejo diário dos animais, que são criados soltos. Crédito: Anelize Moreira

Mesmo com o negócio andando, Edson reduz a marcha da produção de leite. “Eu tô parando um pouco com a atividade. Vou procurar um negócio mais fácil, fazer alimento para gado. Hoje, a silagem para gado é vendida a um preço bom, compensa muito mais do que as vacas. Já vendo uma parte, a outra fica para o gado”, diz.

Edson é o retrato de uma transição em curso no sistema e na escala produtiva do leite no Brasil. Em 20 anos, 600 mil produtores deixaram a atividade pressionados por custos cada vez mais altos, segundo o último censo realizado pelo IBGE, em 2017. Uma estimativa que ainda não contempla os efeitos mais recentes das pressões que vem ocorrendo no campo, especialmente nos últimos anos. Estima-se que o país tenha hoje entre 500 mil a 1 milhão de produtores de leite.

“Em meados do ano passado, o custo de produção do leite chegou a subir quase 40% ao ano. A inflação bateu 11%. E o que aconteceu? As pessoas pararam de produzir leite”, explica Samuel José de Magalhães Oliveira, pesquisador da Embrapa Gado de Leite. “A gente atravessou dois anos de redução da produção de leite. Em 2022, fechamos com a produção praticamente observada nove anos atrás. Isso dá uma ideia do tamanho da crise que se abateu sobre o setor de produção de leite”.

“O custo de produção do leite chegou a subir quase 40% ao ano. A inflação bateu 11%. E o que aconteceu? As pessoas pararam de produzir leite”

Samuel José de Magalhães Oliveira, pesquisador da Embrapa Gado de Leite

No campo, pressionados pelo aumento nos custos, pequenos pecuaristas, aos poucos, vão abandonando a atividade leiteira, dando espaço a grandes investidores. Na indústria, mega laticínios adquirem volumes cada vez maiores de leite em bacias estratégicas. Não necessariamente isso implicará em preços menores ao consumidor.

O que acontece no campo reverbera nas prateleiras. Dez entre dez consumidores brasileiros já notaram que o leite e derivados vêm subindo de preço nos últimos tempos. Seguramente a maioria, também se viu obrigada a reduzir o consumo desses produtos. Nas prateleiras, houve um boom de lácteos de qualidade inferior e preços mais convidativos.

  • Gôndola refrigerada de supermercado com diferentes tipos de queijos

Leite, queijo, manteiga, creme de leite, iogurte e leite condensado acumulam aumento de 51% desde janeiro de 2020 até maio, mais que o dobro da média dos preços medidos pelo IPCA

Na esteira da alta generalizada no preço dos alimentos no Brasil, leite, queijo, manteiga, creme de leite, iogurte e leite condensado acumulam aumento de 51% desde janeiro de 2020 até maio, mais que o dobro da média dos preços medidos pelo IPCA, o indicador oficial da inflação no Brasil.

Em junho, o litro de leite UHT em uma grande rede de supermercados no Rio de Janeiro custava entre R$ 5 e R$ 8, a depender da marca. Enquanto o leite fluido ainda oscila de preço de acordo com a época do ano, os derivados apresentam variação menor. Eles dependem da gordura, o componente mais valorizado, escasso e, portanto, mais caro.

 O caso da manteiga é o mais emblemático nesse sentido, como já mostramos no Joio. Creme de leite, leite condensado, iogurtes e até mesmo a mussarela – até bem pouco tempo atrás um queijo popular e acessível – ganharam versões adicionadas de amido, espessantes e, em alguns casos, gordura vegetal, com preços mais baratos.

“As intempéries climáticas têm pressionado muito o custo de produção nos últimos anos. Houve quebra em determinado momento da produção tanto de milho, como de soja [utilizados como alimento para as vacas]. Havendo queda da produção, há uma menor oferta do produto e o preço sobe”, explica o engenheiro agrônomo Nauto Martins, coordenador em bovinocultura da Emater, órgão que oferece assistência técnica a produtores em Minas Gerais. “E nesse período de pandemia coincidiu tudo isso. O aumento de preço dos grãos, das commodities, a questão energética. Um litro de gasolina chegou a R$ 7. Tudo isso pressionou muito os preços. O produtor ficou pressionado por todos os lados”

No sistema capitalista, a regra é clara: quanto menor a oferta, maior o preço. Mas a “lei” mais elementar da Economia, isoladamente, não dá conta de explicar a crise que o setor enfrenta. O aumento nos custos de produção primeiro na pandemia e depois com a guerra na Ucrânia, e os efeitos das mudanças climáticas sobre a agricultura criaram um cenário desfavorável para os produtores de leite. Especialmente os pequenos, com menor capacidade de produzir em larga escala e pouca margem para reduzir custos e manter a lucratividade do negócio.

São fatores que têm afetado produtores de leite em todo o mundo, mas com consequências diferentes atreladas aos modelos produtivos e à renda da população em cada país. No caso brasileiro, a produção de alimentos para o consumo interno, caso do leite, compete com soja, milho, cana de açúcar e carne. A pressão sobre o uso da terra aumenta.

Mesmo estando entre os grandes produtores mundiais, o Brasil não exporta quantidade significativa de leite. Assim, o comportamento dos preços por aqui segue uma lógica particular, ligada às características de uma produção ainda bastante capilarizada e à dependência de um mercado interno em crise. Isso ajuda a entender por que o aumento de preços no cenário internacional reflete negativamente no peso do custo de produção, mas o contrário nem sempre ocorre.

Há transferência direta quando as commodities se valorizam e o custo de produção aumenta, mas não há transferência quando o preço dos lácteos cai no mercado internacional. É o que está ocorrendo agora. O Brasil tem um custo mais alto de produção, influência maior do fator sazonalidade e índices de produtividade menores comparados a outros países.

“No Brasil, não existe comércio livre de lácteos para regular o preço internamente. Então, nesse momento, a gente está vendo o preço cair no mercado internacional e nós temos uma escassez no mercado doméstico, não existe uma importação livre e direta permitida para equalizar esses preços”, explica Samuel Oliveira. “O Brasil poderia importar manteiga, queijo, lácteos, etc. e regular o preço no mercado doméstico. Por outro lado, isso vai trazer mais desorganização em uma cadeia produtiva que já está cambaleando”.

Em jogo, modos de produzir e de viver

Na contramão da entrada de grandes investidores no mercado lácteo, no campo e na indústria, estão produtores familiares como Valdinei Arthur Siqueira, de 45 anos, de Visconde do Rio Branco, na Zona da Mata Mineira. Começou em 2014, com apenas cinco vacas. Atualmente, tem dez, sendo oito leiteiras e duas novilhas. São 110 litros por dia. Ele e outros 15 produtores do assentamento Olga Benário se uniram para comercializar a produção de 130 animais e obter preços melhores.

Por produzirem milho, não dependem tanto da compra de ração para os animais, mas os custos para cultivar o grão também subiram: o adubo que custava R$ 100 saltou para R$ 300 no ano passado. “Enquanto o preço do leite sempre foi até R$2,10. Na seca, chegou a R$2.30. Ou seja, o custo do insumo subiu drasticamente, enquanto o leite subiu muito pouco para o produtor. Quando ele passa pelo laticínio e é processado para o consumidor final, chega a custar R$ 7 o litro”, explica.

A instabilidade nos custos do leite, agravada nos últimos dois anos, levou a cooperativa a investir em outras culturas, como hortaliças, panificados e milho – o que sobra da alimentação dos animais é comercializado. Atendem, também, escolas por meio do Pnae, o Programa Nacional de Alimentação Escolar.  Em março foram plantados 23 hectares de feijão. “A gente está contando com Deus. Se a chuva não vier ou se não vier na hora certa é produção perdida. Foi um investimento nosso em torno de R$ 53 mil”.

Assentado da reforma agrária, Valdinei Arthur Siqueira, de 45 anos, em uma selfie com cinco de suas vacas atrás, no rancho de sua pequena propriedade
Assentado da reforma agrária, Valdinei uniu-se a outros 15 produtores para a venda coletiva de lácteos e outros produtos produzidos no assentamento. Recentemente passaram a vender leite direto a consumidores em cestas agroecológicas por R$ 3 o litro / Crédito: acervo pessoal

A ação consorciada de pequenos produtores e a rotação de culturas é, sem dúvida, uma alternativa para lidar com um cenário instável. Mas esbarra em outras dificuldades, como o pleno acesso a crédito. No caso dos assentados, nem todas as famílias estão com a posse da terra regularizada, o que impede a entrada em políticas públicas, como o Pronaf, que concede crédito à agricultura familiar.

Soma-se a isso, o pouco poder de barganha com os laticínios. “Existe uma rede, quase um cartel. Eles combinam o preço que vão pagar, isso pode variar entre 10 e 30 centavos de diferença, então não tem muito o que o produtor negociar. Eles pagam defendendo a margem de lucro deles, não interessa qual foi o prejuízo ou lucro que ficou para o produtor. Esse processo fragiliza as duas pontas mais vulneráveis: o produtor e o consumidor.  No ano passado, foi muito evidente isso”, analisa.

“Existe uma rede, quase um cartel. Eles combinam o preço que vão pagar, isso pode variar entre 10 e 30 centavos de diferença, então não tem muito o que o produtor negociar”

Valdinei Arthur Siqueira

Uma saída estudada pela cooperativa de assentados são as cestas agroecológicas vendidas diretamente aos produtores. A demanda partiu dos próprios clientes. Dois litros são vendidos por R$ 6, cerca de metade do preço do leite UHT no supermercado.

Com a entrada de grandes investidores, o gado a pasto, criado no rancho, dá lugar a animais confinados em estábulos. Raças adaptadas a um manejo mais primitivo, aos poucos são substituídas por animais que produzem mais leite e ocupam menos espaço, resultado da capacidade de investimento em genética e tecnologia.

Com a entrada de grandes investidores, o gado a pasto, criado no rancho, dá lugar a animais confinados em estábulos.

É o que acontece em regiões como o Triângulo Mineiro e o Alto Paranaíba, onde os rebanhos estabulados têm crescido bastante. O grau de especialização desses produtores é alto e a produtividade dos animais, maior. Os maiores produtores de Minas Gerais estão, hoje, nessa região, segundo a Emater-MG. O mesmo ocorre em bacias estratégicas da Região Sul do país, que já contam com alto nível de especialização e produtividade.

Porém, por ora, esse processo não gerou uma compensação em termos de uma maior oferta de leite cru. A realidade predominante ainda é de uma produção pulverizada e um grande número de produtores pequenos e médios que sofrem para se manter na atividade, com dificuldade em ter acesso à assistência técnica e ao crédito rural.

Em 2021, o volume de produção foi de 35 bilhões de litros, segundo a última edição da Pesquisa da Pecuária Municipal, do IBGE. Desse total, 24 bilhões de litros foram comercializados formalmente, o chamado leite inspecionado, vendido entre produtores, cooperativas e laticínios. Isso indica que o restante – cerca de 10 bilhões de litros – foi proveniente de produção familiar para consumo ou venda direta a consumidores e pequenos comércios.

O preço do leite pago ao produtor varia conforme o volume de litros que ele entrega. Quanto maior a produção das vacas, maior será o preço pago na hora de vender. Ou seja, a lucratividade está mais associada à capacidade de gerenciar custos e escala do que propriamente ao preço pago pelo litro do leite. A mesma lógica se aplica para a indústria de lácteos: quanto mais capta de um único produtor, menor fica o custo por litro.

“A equação é ter uma receita e um custo de produção que te deixe confortável. Uma margem de lucro que te anime a continuar com a atividade e até a fazer algum investimento. A dificuldade, sobretudo, é manter esses custos num patamar ideal. Por quê? Vemos agora a questão da guerra [da Ucrânia], mudou completamente o mercado de insumos. Ficou muito caro para o produtor. Diante desse custo alto, ele ficou numa condição difícil. O preço da mercadoria não acompanha na mesma proporção. Equacionar isso é a grande dificuldade. A grande maioria desses produtores, de um modo geral, não têm um grau de profissionalismo que o leve a ter essa condição” explica Nauto, da Emater.

Isso tem levado grandes indústrias de laticínios a buscar contratos de longo prazo e fidelização com bacias leiteiras estratégicas, como é o caso da francesa Lactalis. Desde a chegada ao Brasil, em 2015, a empresa vem comprando a produção de grandes bacias, em contratos de longa duração. Neste ano, a empresa firmou um acordo para aquisição de todo o leite dos cerca de seis mil associados da Cooperativa Languiru, no Rio Grande do Sul.

O negócio contempla, também, a transferência da produção de produtos lácteos da cooperativa para a Lactalis. Parcerias semelhantes já haviam sido firmadas com as cooperativas CCPR, em Minas Gerais, e Cativa, no Paraná.

A Lactalis é a maior captadora de leite do país, com 2,5 bilhões de litros ao ano

Dona das marcas Président, Itambé, Poços de Caldas, Batavo, Elegê, Parmalat, Cotochés, Boa Nata, Santa Rosa, Galbani, Do Bon, Balkis e Societé, a empresa francesa anunciou a compra da DPA Brasil (Dairy Partners America), joint venture criada entre a Fonterra e a Nestlé, responsável pela produção de lácteos refrigerados e linhas como Ninho, Neston, Molico e Nesfit. A aquisição está sob análise do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

A Lactalis também liderou, no ano passado, o ranking com o maior número de fazendas fornecedoras – 17 no total – empatada com o Poll Leite, uma associação que representa os produtores da Castrolanda e de mais quatro cooperativas do Paraná. Os dados são do levantamento Top 100, produzido pelo Milk Point, publicação especializada no setor lácteo. Os números também apontam alto nível de tecnificação entre os cem maiores produtores de leite no Brasil. 83% dessas fazendas trabalham com gado confinado, sem acesso à pastagem.

Perspectiva de melhora em 2023

A perspectiva para o segundo semestre do ano é de recuperação. “O custo de produção do leite está diminuindo um pouco, o preço do grão continua caindo. O preço do leite pago pelo produtor está maior que era no ano passado, ou seja, a margem aumentou. Estamos tendo estímulos para aumento de produção de leite no Brasil. Só que demora, tem que ter um animal, tem que tomar a decisão de aumentar a alimentação e o sistema de produção. Há certo descompasso entre o estímulo do preço e a resposta em termos de produção”, explica Samuel Oliveira. Uma vaca leva cerca de três anos até atingir plena produção de leite.

Para manter os produtores familiares na atividade, é preciso ter políticas públicas mais consistentes, com acesso à terra, a crédito e, principalmente, à assistência técnica. “Apesar de em Minas Gerais termos uma Emater muito presente, além de outras entidades que fazem assistência técnica, muitos deles [os produtores] não têm acesso de forma contínua a uma assistência técnica de qualidade. Eles acabam sendo retirados da atividade por uma pressão daquele que é mais eficiente ao entrar no mercado”, avalia Nauto.

Mas essa busca por eficiência e produtividade nem sempre se aplica diante da realidade brasileira no caso do leite, um alimento cuja produção ainda é majoritariamente familiar, tradicional e de pequena escala. É uma mudança que esbarra em fatores que vão além da visão hegemônica e que se relacionam a visões distintas sobre o modo de viver e produzir no campo.

Na visão dos profissionais da Embrapa e da Emater-MG, a saída passa necessariamente por uma maior especialização e organização dos produtores, independentemente do tamanho e da escala. Um aumento na produção e oferta de matéria-prima, em tese, poderia levar à redução de preço e lácteos de mais qualidade para o consumidor.

Entre pequenos e médios produtores, mercados de nichos, como o de queijos artesanais e leite orgânicos, podem ser uma saída diante da demanda crescente por esses produtos. Uma alternativa que pode ser viável para essas famílias, mas que esbarra na incapacidade da grande maioria da população brasileira em pagar mais por esses produtos.

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