Por Tali Feld Gleiser, para Desacato.info.
A ditadura cívico-militar-eclesial argentina (1976–1983), conhecida com o eufemismo de “Processo de Reorganização Nacional”, instaurou um dos períodos mais violentos da história do país. Ela implementou um projeto de terror sistemático que destruiu o tecido social através do desaparecimento forçado e da perseguição política, exterminando a oposição. Economicamente, desmontou o parque industrial nacional, promoveu a financeirização e abriu o mercado, resultando em falências em massa, desindustrialização, desemprego e um endividamento externo colossal, cujas devastadoras consequências sociais e econômicas perduram por décadas.
Nesse contexto, a censura cultural e a repressão política marcaram a vida cotidiana, levando ao desaparecimento forçado de milhares de pessoas, especialmente adolescentes e jovens. Com a queda do regime e a redemocratização em 1983, emergiu a necessidade de reconstrução social, política e cultural. A música, especialmente o rock argentino, tornou-se um veículo catártico para expressar dores, denunciar crimes e buscar esperança coletiva.
O rock argentino da geração pós-ditadura cumpriu funções múltiplas. Por um lado, foi espaço de denúncia e memória, recuperando de forma direta ou metafórica os horrores da repressão. Por outro, permitiu à juventude elaborar um processo de catarse coletiva, transformando angústia e medo em expressão artística e energia contestadora. As letras, repletas de metáforas e símbolos, eram compreendidas pelo público que soube ler nas entrelinhas as mensagens de resistência. Shows e encontros musicais transformaram-se em espaços de libertação e de reconstrução do tecido social.
Além disso, a música exerceu papel fundamental na construção de uma identidade democrática. A juventude argentina pôde encontrar no rock um espaço de afirmação cultural e política, que não se limitava à diversão, mas se projetava como instrumento de luta simbólica contra o autoritarismo. A catarse se manifestava tanto na energia explosiva dos shows quanto na poesia reflexiva de artistas comprometidos com a memória.
Exemplos notáveis desse período ajudam a compreender o alcance do fenômeno:
– Charly García, com “Los Dinosaurios”, denunciou os desaparecimentos e deu voz à indignação de uma geração.
– Luis Alberto Spinetta, em “Días de silencio” (1983), elaborou simbolicamente o trauma do silêncio imposto pela repressão.
– A banda Serú Girán, com álbuns como “La Grasa de las Capitales” (1979), construiu críticas sociais sofisticadas e irônicas.
– Los Violadores, com “Uno, dos, ultraviolento”, representaram a vertente punk que traduzia em agressividade e urgência o inconformismo político.
– León Gieco, em “Solo le pido a Dios”, criou um hino humanista que ultrapassou fronteiras e se tornou referência na luta por direitos humanos.
– Los Gatos, pioneiros do rock argentino, abriram caminho para as gerações seguintes e consolidaram uma linguagem própria que mesclava crítica social e modernidade musical.
– Mercedes Sosa, conhecida como a ‘voz da América Latina’, deu força ao movimento com sua interpretação visceral de canções de resistência, transformando cada apresentação em ato político e cultural, conectando o rock, a canção popular e o folclore em uma mesma luta contra o esquecimento e pela dignidade humana.
Para os brasileiros, há paralelos evidentes. A música de resistência durante a ditadura militar no Brasil (1964–1985), com figuras como Chico Buarque, Caetano Veloso, Maria Bethania, Gal Costa e Gilberto Gil, desempenhou funções semelhantes de denúncia, metáfora e esperança. Nesse sentido, escutar o rock argentino da geração pós-ditadura é também revisitar uma experiência latino-americana comum de enfrentamento do autoritarismo, valorizando a solidariedade continental e a importância da cultura como forma de resistência.
O rock argentino pós-ditadura não foi apenas uma manifestação musical, mas parte essencial da reconstrução democrática. Ele proporcionou catarse coletiva, denunciou injustiças e manteve viva a memória dos desaparecidos. Mais que canções, as obras desse período funcionaram como monumentos culturais contra o esquecimento, reforçando o compromisso com a democracia e os direitos humanos na Argentina e em toda a América Latina.
Referências
LOS Gatos. La Balsa. 1967. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=Yv9PnHsEGas>. Acesso em: 20 set. 2025.
SOSA, Mercedes. Inconsciente colectivo. 1971. Disponível em: <https://youtu.be/CYSrRTcAhbM>. Acesso em: 21 set. 2025.
CHARLY García. Los Dinosaurios. 1983. Disponível em: <https://youtu.be/UILQU0VEWII>. Acesso em: 20 set. 2025.
SPINETTA, Luis Alberto. Días de silencio. 1983. Disponível em: <https://youtu.be/RlJ_btNM_5k>. Acesso em: 20 set. 2025.
SERÚ Girán. La Grasa de las Capitales. 1979. Disponível em: <https://youtu.be/dvilQ7Ufz28>. Acesso em: 21 set. 2025.
LOS Violadores. Uno, dos, ultraviolento. 1985. Disponível em: <https://youtu.be/q0nRQ2Mc1o8>. Acesso em: 20 set. 2025.
GIECO, León. Solo le pido a Dios. 1978. Disponível em: <https://youtu.be/Twn_Gn_cf-o>. Acesso em: 21 set
Tali Feld Gleiser é cofundadora e diretora geral do Portal Desacato. Toda segunda-feira, apresenta o programa Do Rio ao Mar.
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