Brutalidade imperialista em tempos de declínio da hegemonia dos EUA

Por Renán Vega Cantor.

“Diosdado (Cabello), Jorge (Rodríguez) e eu tínhamos 15 minutos para responder ou seríamos mortos. As tropas estadunidenses nos disseram que (Maduro e sua esposa, Cilia Flores) haviam sido mortos, não sequestrados”, e (respondemos) que estávamos “preparados para compartilhar o mesmo destino”. – Áudio de Delcy Rodríguez divulgado no The Guardian

“Acompanharemos de perto o desempenho das autoridades interinas enquanto cooperam com nosso plano gradual para restaurar a estabilidade na Venezuela. Que não haja dúvidas: como afirmou o presidente, estamos preparados para usar a força para garantir a máxima cooperação caso outros métodos falhem.”

Marco Rubio,  Discurso perante o Senado dos Estados Unidos, 29 de janeiro de 2026. 

No final de 2025, o governo de Donald Trump divulgou a Estratégia de Segurança  Nacional, que inclui o Corolário Trump e “atualiza” a Doutrina Monroe, a ponto  de não hesitarem em chamá-la de Doutrina Donroe. E em janeiro de 2026, publicaram a Estratégia de Defesa. Essas estratégias anunciam um plano de  dominação imperialista sem qualquer pretensão ou sutileza diplomática,  reafirmando que o Hemisfério Ocidental lhes pertence e que a América Latina é o  seu “quintal“. 

Este anúncio está agora sendo posto em prática, sendo sua evidência mais contundente a brutal agressão contra a Venezuela em 3 de janeiro de 2026. Neste ensaio, analisamos essa “nova doutrina” sob uma perspectiva histórica. Para tanto, examinamos três aspectos: um breve panorama histórico; as características da atual política imperialista, destacando suas continuidades (que são muitas) e os  elementos que a distinguem de outros períodos da história do imperialismo estadunidense, especialmente no que diz respeito à América Latina; e, por fim,  questionamos alguns lugares-comuns difundidos na mídia sobre o imperialismo  descarado personificado por Donald Trump. 

FORMULAÇÃO ORIGINAL: DOUTRINA MONROE 1 (1823) 

[…] “Defender, como princípio que envolve os direitos e interesses dos Estados  Unidos, o fato de que os continentes americanos, em virtude das condições de  liberdade e independência que assumiram e mantiveram, não devem ser  considerados, a partir de hoje, como entidades sujeitas à futura colonização por  qualquer potência europeia.” 

James Monroe, “Discurso Presidencial de 2 de novembro de 1823”, em Angela  Moyano e Jesús Velazco (Editores), EUA. Documentos de sua história política 1,  Instituto Mora, México, 1988, p. 392. 

Em seu discurso de dezembro de 1823, James Monroe, presidente dos Estados  Unidos, afirmou que seu país se opunha ao colonialismo europeu e considerava  hostil qualquer intervenção das potências do outro lado do Atlântico no continente  americano, declarando implicitamente que este hemisfério lhes pertencia. 

É importante lembrar que, naquela época, a maioria das colônias espanholas já  havia conquistado a independência da metrópole, e as restantes na América do Sul  logo a alcançariam. Nessa nova ordem geopolítica, os Estados Unidos  proclamaram que o Velho Mundo pertencia à Europa e o Hemisfério Ocidental aos  Estados Unidos. Num futuro próximo, cada hemisfério deveria manter esferas de  influência separadas, sem que nenhuma interferisse no domínio do outro. Portanto,  qualquer tentativa das potências europeias de reaver seus antigos territórios era  considerada inaceitável.

Na época de sua formulação, a Doutrina Monroe não teve grande aceitação entre  as potências europeias, visto que os Estados Unidos eram um país em formação,  cujo território compreendia as 13 colônias originais da época do domínio britânico  e territórios ao sul que haviam sido tomados da Espanha ou a Louisiana, que havia  sido comprada dos franceses em 1804. Os Estados Unidos não possuíam uma  marinha ou um exército poderoso, o que tornava a declaração, naquele momento,  bastante retórica para as potências europeias. 

Um elemento da Doutrina, embora não explicitamente declarado no discurso de  Monroe (que foi redigido por seu Secretário de Estado, John Quincy Adams), foi  posteriormente popularizado como o slogan “América para os americanos”. Este é  o cerne da tão proclamada Doutrina: os Estados Unidos já reivindicavam o controle  do restante do continente, mesmo sem possuírem o poder efetivo, material e militar  para tal. Isso implicava que tudo o que os Estados Unidos fizessem dali em diante  seria justificado, implicitamente, pela Doutrina Monroe, mesmo que isso não fosse  explicitamente declarado. E isso porque, além disso, a Doutrina não pode ser  separada da ideia de “Destino Manifesto”, um conceito que fundamentou o  pensamento das classes dominantes dos Estados Unidos desde o início do século  XIX. 

Desde que os Estados Unidos iniciaram sua expansão para o sul na década de 1830  para tomar territórios do México, país do qual sucessivamente conquistaram o  Texas, a Califórnia, o Arizona, o Novo México, Nevada, Utah e partes que hoje  correspondem ao Colorado, Wyoming, Kansas e Oklahoma, a Doutrina Monroe  tem sido aplicada na prática, a qual possui inerentemente um caráter voraz e  agressivo, justificando e promovendo o roubo territorial. 

Ao mesmo tempo, a expansão para oeste completou a integração ao território dos  Estados Unidos de áreas habitadas por antigas comunidades indígenas, que foram  exterminadas pelo fogo e pela espada em nome do progresso e da civilização cristã. 

Quando as potências europeias atacavam qualquer país do continente, os Estados  Unidos não intervinham para defender esse país e nem sequer lhe forneciam armas  ou apoio logístico, sendo o caso mais notório a agressão francesa contra o México  na década de 1860, quando o México lutou sozinho e derrotou os agressores  franceses, que haviam sido impostos pelo arquiduque austríaco Maximiliano I. 

Em resumo, a Doutrina Monroe foi formulada durante um período de expansão  territorial dos EUA, quando o país não possuía o poder militar e material para  contestar a hegemonia global, mas dispunha dos meios para tomar territórios de  comunidades indígenas e do México. Após essa prolongada desapropriação, que  durou todo o século XIX, os Estados Unidos obtiveram acesso a um vasto território  rico em recursos, que forneceu os materiais e a energia para consolidar sua unidade  interna e emergir, no final do século XIX, como uma potência capitalista 

imperialista, participando da divisão e do controle do mundo ao lado das potências  europeias em declínio, entre as quais se destacava a Inglaterra. 

A Doutrina Monroe serviu como fundamento ideológico, embora nem sempre  explícito, para essa expansão, baseada na proclamação de uma espécie de direito  natural e divino de dominar todo o continente por meio de um suposto Destino  Manifesto. Por trás da Doutrina, havia um profundo racismo, desprezo pelos povos  da América do Sul e Central, brutalidade desenfreada e um culto desenfreado à  violência. Em suma, a Doutrina Monroe sustenta o mito do Velho Oeste, um  processo de expansão e desapropriação territorial cuja lógica poderia ser resumida  no slogan: Queremos a terra, mas não os índios. Ela chegou a negar a existência  dos habitantes originais porque, na lógica colonialista europeia herdada pelos  Estados Unidos, os territórios estavam vazios e os brancos puros eram  responsáveis por civilizá-los. 

Vale ressaltar que, em 2 de fevereiro de 2026, Donald Trump celebrou mais um  aniversário da desapropriação do México, declarando que “Hoje marca o 178º  aniversário do triunfo de nossa nação na Guerra Mexicano-Americana, uma vitória  lendária que consolidou o Sudoeste americano, reafirmou a soberania americana e  expandiu a promessa de independência por todo o nosso majestoso continente”,  […] e que isso foi “guiado pela fé inabalável de que nossa nação estava destinada  pela providência divina a se expandir até as margens douradas do Oceano  Pacífico… e emergir como uma superpotência continental como o mundo moderno  jamais viu”. Ele acrescentou que o Destino Manifesto pulsa “em cada coração  americano” e que isso lhes permitiu “defender a segurança da nação, nossa dignidade e nossas fronteiras soberanas”. E afirmou que ele, com seu Corolário  Trump, é o continuador da Doutrina Monroe bicentenária.[1] 

É claro que ele omite o fato de que isso foi uma brutal desapropriação territorial  resultante de uma invasão, e que a guerra contra o México visava  fundamentalmente à defesa da escravidão. O que essas palavras odiosas revelam,  além da ignorância histórica de Trump e da maioria dos americanos, é que, na  mente da população americana, o Destino Manifesto e a Doutrina Monroe são dois  elementos-chave para a expansão territorial e a subjugação do continente  americano, e esse conceito orienta as políticas do imperialismo americano até hoje. 

Por trás da Doutrina Monroe, com seu militarismo, racismo e brutalidade, há mais  de dois séculos, reside a lógica assassina das Guerras Indígenas, que perpetraram  um genocídio horrendo, exterminando civilizações nativas para se apoderar de  suas terras, culminando no final do século XIX. Isso gerou uma “cultura da  conquista”, que persiste até hoje, caracterizada por violência brutal, apropriação  de terras e recursos naturais, destruição desenfreada de seres humanos e animais e  desumanização de todos aqueles considerados “inimigos” dos Estados Unidos.[2]

Corolário Roosevelt (1904): Doutrina Monroe II 

“A má conduta crônica, ou a impotência que leva a um afrouxamento geral dos  laços de uma sociedade civilizada, pode, na América, como em qualquer outra  parte do mundo, exigir a intervenção de algum país civilizado, e no Hemisfério  Ocidental a adesão dos Estados Unidos à Doutrina Monroe pode obrigar os Estados  Unidos, contra a sua vontade, em casos flagrantes de tal má conduta ou impotência,  a exercer um poder policial internacional.” 

Theodore Roosevelt, Discurso Presidencial de 6 de dezembro de 1904, citado em  Mother America. Um Século de Violência e Dor (1898-1998), Editorial de  Ciencias Sociales, Havana, 2023, p. 42. 

No final da década de 1890, os Estados Unidos eram um país em rápido  crescimento econômico e industrial, e uma das principais potências capitalistas do  mundo. Nessa época, o país praticamente completou seu ciclo de expansão  territorial com a aquisição de territórios fora de suas fronteiras geográficas,  incorporando o Alasca, comprado da Rússia em 1867, e anexando o Havaí em  1898. Este ano é crucial para o nascimento do imperialismo americano por  diversos motivos: a guerra com a Espanha, que levou os Estados Unidos a tomarem  as antigas possessões coloniais de Cuba e Porto Rico, no Caribe, e as Filipinas, na  Ásia; essa guerra foi um passeio no parque, já que o que restava do império  espanhol em ruínas foi derrotado em apenas dois meses; os Estados Unidos se  apresentaram ao mundo como uma potência emergente por meio de uma guerra de  conquista e agressão, demonstrando seu poder naval capaz de confrontar as  potências europeias; Os Estados Unidos entraram na divisão imperialista do  mundo, sendo o fato mais marcante a “independência” do Panamá, que foi  realizada por meio de uma manobra traiçoeira na qual Theodore Roosevelt  organizou um governo de fachada, formado pelos “patriotas das favelas” do istmo,  para impor condições leoninas em um tratado que os favoreceu plenamente ao  longo do século XX. 

Os Estados Unidos entraram no cenário internacional com uma presença poderosa,  demonstrando seus verdadeiros interesses como uma potência imperialista  nascente. Asseguraram o controle do Hemisfério Ocidental por meio do monopólio  na construção e operação do Canal do Panamá, o domínio do Pacífico com a  aquisição do Havaí e a ocupação de Cuba e Porto Rico no Caribe. 

Após mostrar suas garras, os Estados Unidos promulgaram o Corolário Roosevelt,  que se resume no lema “Fale manso e carregue um grande porrete”, o que significa  que os Estados Unidos alcançarão seus objetivos por meios lícitos ou ilícitos e,  mais importante, proclamaram-se a polícia do continente, pois sustentam que, se  qualquer país da América Latina cometer uma ofensa grave ou não atender aos  interesses de Washington, poderá invadi-lo sempre que julgar conveniente.

Este corolário foi formulado no discurso presidencial sobre o Estado da União, em  dezembro de 1904, e surgiu após ameaças de diversas potências europeias  (Alemanha, Inglaterra e Itália) de impor um bloqueio naval à Venezuela para  cobrar uma dívida. A pressão levou as partes a submeterem-se à arbitragem, da  qual o próprio Roosevelt participou. 

Na realidade, o Corolário Roosevelt já havia sido posto em prática antes mesmo  de sua formulação, com o roubo do Panamá, quando Theodore Roosevelt afirmou  que não estava disposto a negociar com as “criaturas desprezíveis de Bogotá” e  tomou o istmo à força, violando normas elementares do direito internacional da  época e cometendo um crime de agressão que, como sempre, ficou impune. 

Posteriormente, os Estados Unidos intervieram repetidamente em nosso  continente, começando durante a presidência de Theodore Roosevelt com a  tomada da alfândega da República Dominicana em 1905 para pagar os credores  daquela nação. Isso foi seguido por outras agressões e ocupações, sob Roosevelt e  seus sucessores, em Cuba, Panamá, Haiti, República Dominicana, México e  Nicarágua. Embora outros nomes tenham sido usados, como Diplomacia do Dólar,  a lógica subjacente do Corolário Roosevelt foi preservada, inicialmente, até 1934,  quando Franklin Delano Roosevelt proclamou a Política da Boa Vizinhança e as  tropas de ocupação se retiraram do Haiti e da Nicarágua. 

Ao longo do século XX, no período posterior ao fim da Segunda Guerra Mundial,  embora nem a Doutrina Monroe nem o Corolário Roosevelt fossem mencionados,  seu espírito imperialista permaneceu, na medida em que os Estados Unidos se  proclamavam campeões do “mundo livre” e, em sua luta contra o “comunismo  internacional”, invadiram, atacaram e bombardearam diretamente países relutantes  e desobedientes (Guatemala, Brasil, Chile, Cuba, Nicarágua…) e impuseram  ditaduras submissas a partir de meados da década de 1940 na América Central e  no Caribe e, a partir de 1964, as ditaduras de segurança nacional, com todo o seu  brutal terror e morte anticomunistas. 

O Corolário Roosevelt foi proclamado no exato momento da ascensão do  imperialismo americano e o acompanhou durante toda a sua fase de esplendor e  expansão, abrangendo o século XX e as primeiras décadas do século XXI. Nesse  contexto histórico mais amplo, os Estados Unidos, apesar da ameaça soviética — seu principal adversário ao longo de sua história — reafirmaram seu poder com a  queda do Muro de Berlim e a dissolução da URSS, consolidando-se como a única  superpotência, com evidente supremacia nas esferas política, militar, cultural e  tecnológica. Como parte dessa hegemonia, a América Latina permaneceu seu  quintal, porque sociedades alternativas não conseguiram se desenvolver (com  exceção de Cuba), e o Consenso de Washington, o neoliberalismo, o globalismo e  a lógica da democracia liberal foram subsequentemente impostos, embora tenham  encontrado tímida resistência em países com governos progressistas na região,  sendo a Venezuela o exemplo mais radical.

Durante a era do Corolário Roosevelt, ao longo do século XX, o imperialismo duro  combinou-se com o imperialismo brando, através do uso de procedimentos  indiretos para impor os interesses dos EUA na América, com a imposição do inglês  como língua franca, a “americanização das elites continentais”, o mito do  desenvolvimento, os intercâmbios culturais e acadêmicos com os Estados Unidos,  a “cooperação internacional”, a USAID e as ONGs… 

Corolário Trump (2025), Doutrina Monroe III 

“Queremos garantir que o Hemisfério Ocidental permaneça estável e bem  governado o suficiente para prevenir e desencorajar a migração em massa para os  Estados Unidos; queremos um hemisfério cujos governos cooperem conosco  contra narcoterroristas, cartéis e outras organizações criminosas transnacionais;  queremos um hemisfério que permaneça a salvo de incursões estrangeiras hostis  ou do controle de ativos essenciais, e que apoie cadeias de suprimentos  fundamentais; e queremos garantir nosso acesso contínuo a locais estratégicos  importantes. Em outras palavras, afirmaremos e implementaremos um ‘corolário  Trump’ à Doutrina Monroe.” 

Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, 7 de dezembro de 2025. Disponível  emEstratégia de Segurança Nacional dos EUA: O Plano da Casa Branca Contra a  Europa (Texto Completo) – O Grande Continente 

No início de dezembro de 2025, os Estados Unidos divulgaram sua Estratégia de  Segurança, anunciando uma mudança substancial em sua política em relação ao  resto do mundo, com ênfase particular na América Latina. Isso foi posteriormente  confirmado pela Estratégia de Defesa Nacional, publicada pelo Departamento de  Defesa dos EUA em 24 de janeiro.[3] 

Estes dois documentos delineiam os princípios fundamentais que guiarão as ações  dos Estados Unidos daqui para frente. Para começar, a filosofia subjacente é  MAGA (Make America Great Again) ou “América Primeiro”. Esses documentos  afirmam explicitamente que o principal interesse dos Estados Unidos é controlar  todo o continente americano (do Alasca à Terra do Fogo), um hemisfério que  reivindicam como sua propriedade “natural” e domínio exclusivo. Eles sustentam  que esse poder deve ser demonstrado pelo uso da força, o que implica a subjugação  de quaisquer governos que não cumpram as ordens de Washington. Afirmam, sem  eufemismos, que o Hemisfério Ocidental deve ser controlado para que seus  recursos sejam tomados e para evitar que caiam nas mãos de outras potências  imperialistas. É muito revelador que a esfera de influência dos Estados Unidos  inclua não apenas seu tradicional “quintal”, as Américas, mas também a  Groenlândia e o Canadá. 

Segundo o Corolário Trump, o Hemisfério Ocidental pertence aos Estados Unidos,  e suas “regras” (ou talvez apenas uma: a lei do mais forte) prevalecem ali. As 

políticas das instituições globalistas (a ONU e organizações similares) não se  aplicam, e a presença de potências hostis não é tolerada. Proclama-se uma  “soberania hemisférica”, entendida como a capacidade dos Estados Unidos, como  nação privilegiada e ungida pelo Destino Manifesto, de impor seus interesses não  apenas em seu próprio território, mas em todo o continente. E isso, é claro,  beneficiará o Hemisfério Ocidental. Em outras palavras: o que beneficia os Estados  Unidos, incluindo o roubo de nossos recursos naturais e energéticos, também  beneficia todos os países das Américas! 

Nessa linha de raciocínio, os Estados Unidos devem controlar o Canal do Panamá  e rotas marítimas estratégicas (Terra do Fogo e Groenlândia), manter a guerra  contra as drogas, o narcoterrorismo e a imigração, e reconfigurar os fluxos  comerciais de acordo com a lógica do MAGA (Magnetismo, Agricultura e  Pecuária). Um elemento gráfico, publicado na Estratégia de Defesa, reforça  visualmente a ideia de que todo o continente pertence aos Estados Unidos. Trata se de um mapa da era colonial, publicado no início do documento, que retrata todo  o Hemisfério Ocidental isolado e separado do resto do mundo. Essa é uma forma  de os Estados Unidos “demarcarem seu território” e afirmarem agressivamente:  “Isto é nosso e de mais ninguém”. 

Essas estratégias sinalizam uma mudança radical na política externa dos EUA, em  comparação com a que prevaleceu após 1945 até poucos meses atrás. O objetivo é  restaurar a força dos Estados Unidos, tanto interna quanto internacionalmente. Elas  priorizam a proteção do território, da população, da economia, do modo de vida  americano e da soberania, rejeitando agendas globais. Enfatizam a necessidade de  reindustrialização e domínio energético, controle da migração e redução da 

dependência crítica de outras potências, particularmente em relação às cadeias de  suprimentos. 

Operacionalmente, essas estratégias baseiam-se na premissa de estabelecer a paz  pela força (com a superioridade militar e tecnológica como principal dissuasor),  alegam favorecer a não intervenção e assumem a primazia dos Estados-nação  sobre as agendas globais e suas instituições. Priorizam ataques militares cirúrgicos  (como o de 3 de janeiro) e não demonstram interesse em guerras de atrito  prolongadas que envolvam o destacamento de um grande número de tropas e a  ocupação prolongada dos territórios atacados. Nesse aspecto, a doutrina é bastante  otimista, pois pressupõe que as ações sempre serão bem-sucedidas, como  inicialmente pareceu ser o caso da Venezuela, e que os Estados Unidos jamais  enfrentarão uma resposta militar. Em vez disso, todos os atacados, em qualquer  lugar do mundo, aceitarão passivamente seu destino de serem bombardeados  cirurgicamente. 

CARACTERÍSTICAS CENTRAIS DA NOVA DOUTRINA IMPERIALISTA 

Em seguida, examinaremos algumas das características mais proeminentes daquilo  que seus ideólogos, de forma um tanto imodesta, chamam de Doutrina Donroe. 

Sinceridade cínica 

Se analisarmos não apenas as estratégias, mas também as declarações de Trump e  da camarilha de canalhas que o cerca, entramos na era do imperialismo descarado.  Essa é a mudança mais notável porque, pela primeira vez nos 250 anos de história  dos Estados Unidos, suas verdadeiras intenções estão sendo declaradas  publicamente com um nível de sinceridade, combinado com uma grande dose de  cinismo, como demonstrado por Trump e seus aliados nos últimos meses. Seus  pronunciamentos são enfáticos: “O Hemisfério Ocidental é nosso”, “A  Groenlândia deve ser anexada para a segurança nacional dos Estados Unidos”, “O  petróleo da Venezuela pertence aos Estados Unidos e foi roubado por nacionalistas  inescrupulosos”, “A força bruta será usada contra os adversários,  independentemente das consequências”, o único limite para a expansão  imperialista é a “moralidade” de Donald Trump, “narcobarcos” são bombardeados  e seus ocupantes massacrados porque são inimigos dos Estados Unidos que estão  envenenando seu povo. Tudo isso pode ser resumido sucintamente dizendo que os  Estados Unidos governam porque têm a capacidade de matar e o fazem sem  hesitação, como acontecia no Velho Oeste durante o período clássico das Guerras  Indígenas no século XIX. 

Stephen Miller, chefe de gabinete de Donald Trump e figura que glorifica a força  bruta, afirmou categoricamente: “Vivemos em um mundo onde se pode falar o  quanto quiser sobre sutilezas internacionais e tudo mais, mas […] o mundo real 

[…] é governado pela força, que é governada pelo poder. Essas são as leis de ferro  do mundo desde o princípio dos tempos.”[4] 

O principal interesse da camarilha de Trump reside em se apropriar de recursos  petrolíferos e de terras raras, consolidar empresas nos locais que invadem e  ocupam, e essas empresas devem gerar lucros exorbitantes, independentemente de  isso significar o genocídio de milhares de pessoas, como está acontecendo em  Gaza neste momento. Essa mesma sinceridade se manifesta internamente, quando  migrantes são rotulados como lixo, escória e outros epítetos semelhantes, e  manifestantes são acusados de não serem verdadeiramente americanos, porque,  como diz Miller, “Neste país, não pode haver 50% de americanismo. Só há espaço  aqui para 100% de americanismo, apenas para aqueles que são americanos e nada  mais.” 

Se for necessário retornar à era colonial, isso será feito, e eles têm a arma  tecnológica à sua disposição, como foi proposto para a Venezuela, onde Trump se  autoproclama Presidente —na realidade, o Rei — auxiliado por três vice-reis. Sem  eufemismos, falam, com bastante otimismo, em transformar a terra natal de  Bolívar em uma colônia petrolífera dos Estados Unidos, invocando Democracia,  Eleições Livres e outros slogans retóricos ultrapassados de um “imperialismo  brando”. 

Em relação à Groenlândia, afirma-se, sem qualquer diplomacia ou sutileza na  linguagem, que ela deve “tornar-se parte dos Estados Unidos”, e que isso será  alcançado por meios lícitos (comprando-a) ou ilícitos (através de ocupação militar  e anexação). Essa franqueza atinge novos patamares, impensáveis até  recentemente, quando falávamos de um “mundo baseado em regras”, com a  incontinência digital de Donald Trump, que, em suas redes sociais, constantemente  vomita absurdos, muitos deles com uma saudável dose de sinceridade, e os ilustra  com Inteligência Artificial. Alguns exemplos bastam. Em um deles, dois trenós são  vistos atravessando o gelo do Ártico, um em direção à luz, os Estados Unidos, e o  outro em direção à “escuridão” (China e Rússia). 

Outra imagem mostra uma grande parte do continente com as estrelas e listras dos  Estados Unidos, evocando o que se dizia no século XIX que pertencia aos Estados  Unidos do Alasca à Terra do Fogo. 

Em outra ilustração, Trump e Marco Rubio são vistos desembarcando na  Groenlândia e a conquistando, assim como Cristóvão Colombo fez em 1492 nas  Bahamas, destacando que eles se apresentam como pioneiros da nova conquista de  terras virgens e aparentemente desabitadas que serão “civilizadas”, isto é,  destruídas, pelos novos conquistadores. 

E em outra ilustração, Trump aparece acompanhado por um pinguim, que ele  conduz pela mão, caminhando pelo solo congelado da ilha, como símbolo da 

conquista de um território habitado por animais, pois nenhum ser humano, os  habitantes locais, aparece em lugar nenhum. 

Aliás, vale destacar o notável conhecimento geográfico e biológico de Trump, pois  não há pinguins na Groenlândia. No entanto, a imagem revela a apropriação  imperialista subjacente de um território e seus recursos naturais. Isso é declarado  de forma direta e ilustrado com imagens vulgares e grosseiras, chocantemente  sinceras, desprovidas até mesmo do menor indício de diplomacia. 

Em resposta ao ridículo que Trump enfrentou por sua falta de instrução após  passear com pinguins em um lugar onde eles não existem, o Secretário da Marinha  logo publicou outra imagem mostrando Trump de mãos dadas com um pinguim  que acena com uma bandeira americana, com um submarino ao fundo. A legenda  diz: “O pinguim sabe. Cascos de aço. Vontade de ferro. Frota dourada.” Em outras  palavras, a ignorância de Trump e o fato de não haver pinguins na Groenlândia são  irrelevantes, porque os pinguins, independentemente de onde vivam, estão cientes  do principal objetivo dos Estados Unidos e, além disso, o pinguim não se importa  nem um pouco com a opinião alheia. 

Um elemento a destacar é que a sinceridade cínica muitas vezes vem acompanhada  de uma profunda ignorância, que reflete claramente a mentalidade e o nível cultural  e educacional daqueles que governam no imperialismo, o que se manifesta em  expressões que em outras ocasiões deveriam ser encaradas como piadas de mau  gosto, como as mencionadas acima, às quais devemos acrescentar a afirmação de  que a Venezuela roubou petróleo dos Estados Unidos, como declarou o próprio  Donald Trump. 

Brutalidade 

Vivemos os tempos da necropolítica imperialista, que combina dois fatores: o uso  da força bruta e o controle de energia e recursos. O primeiro remonta ao que  acontecia no Velho Oeste, quando bandidos de saloon massacravam tribos  indígenas à vontade. Eram tempos em que não havia regras nem leis, apenas a lei  do mais forte, numa espécie de darwinismo social aplicado, onde só os mais  violentos sobreviviam — aqueles que conseguiam sacar suas armas mais  rapidamente para eliminar seus inimigos, os indígenas e seus búfalos, ambos  brutalmente exterminados. 

Agora, o imperialismo desmascarado não esconde suas intenções nem suas ações  cotidianas, não empregando floreios retóricos para disfarçá-las. Para piorar a  situação, transmite suas atrocidades e crimes ao vivo. Um exemplo disso é o  bombardeio sádico dos “narco-barcos”, como os bandidos que governam os  Estados Unidos chamam as pequenas embarcações que navegam pelo Mar do  Caribe ou pelo Oceano Pacífico.

Os Estados Unidos demonstraram essa mesma brutalidade em 3 de janeiro na  Venezuela, quando mais de cem venezuelanos e cubanos foram assassinados com  todos os tipos de armas, incluindo dispositivos desconhecidos. Essas cenas de  horror e morte foram presenciadas ao vivo na casa de férias de Trump, e ele  posteriormente se vangloriou das ações assassinas das tropas americanas,  desconsiderando — porque isso não importa — o custo humano (mortes e feridos)  e a destruição premeditada de infraestrutura crítica na Venezuela. 

A brutalidade deixou de ser escondida ou camuflada; ela é exaltada como  perfeitamente normal e válida para preservar o poder dos Estados Unidos e seus  parceiros, a começar por Israel. A brutalidade foi legitimada pelo genocídio em  Gaza e, após ser normalizada na “opinião pública”, tornou-se a norma para o  funcionamento do capitalismo vigente. Depois da Palestina, quem quer e pode  procede a massacrar, bombardear, torturar, destruir seres humanos e devastar suas  condições vitais de existência… Tudo isso, em vez de comover as pessoas,  aumenta a popularidade daqueles que se vangloriam de serem brutais, de serem  durões e valentões como caubóis. Não há necessidade de se preocupar com os  nativos americanos porque, na lógica do Velho Oeste, eles não valem nada e podem  ser caçados e mortos sem qualquer vergonha ou remorso. É por isso que os  israelenses genocidas dizem que os palestinos são animais que podem ser  exterminados, ou por que nos Estados Unidos Donald Trump chama os somalis de  “lixo que não queremos”, que vêm de um “país que fede”, e por que os colombianos  são rotulados como “assassinos, traficantes de drogas, membros de gangues”. 

Crueldade 

A brutalidade, expressa na linguagem, nos símbolos e nas ações, é acompanhada  por uma crueldade sem limites contra os vulneráveis, tanto nos Estados Unidos  quanto em todo o mundo. A diferença entre brutalidade e crueldade reside no fato  de que a primeira é o uso de violência extrema, sem limites ou necessidade, para  aterrorizar e gerar medo, enquanto a crueldade é o prazer sádico derivado da  violência infligida. 

A crueldade revela racismo, classismo e o complexo de superioridade de homens  brancos e machistas que exaltam seus valores como “bons cristãos”, seguidores do  sionismo, e cuja religião exige a maior ferocidade possível para se insinuarem  perante um Deus genocida e assassino que se regozija com a dor e o derramamento  de sangue infligidos aos outros. Daí o tratamento dispensado a todos os  considerados inimigos, sem sequer levar em conta sua autoridade como  presidentes, como aconteceu com Nicolás Maduro e sua esposa, que são  submetidos a tratamento degradante e humilhante sem qualquer escrúpulo ou  remorso. 

Os apoiadores de Trump ostentam essa crueldade, como quando se regozijam com  o corte do fornecimento de petróleo a Cuba após 3 de janeiro, na sequência do 

sequestro de Nicolás Maduro, e pressionam o México a interromper os envios. Isso  traz dor, morte e sofrimento ao povo da nação caribenha, exacerbando o impacto  de um bloqueio interminável de mais de 60 anos. Esses abutres na Casa Branca se  deleitam com o sofrimento das nações, simplesmente reproduzindo a crueldade  que sempre os caracterizou, mas que agora é exibida descaradamente como se  fosse uma grande virtude humana. Isso revela a verdadeira moralidade de Trump,  que, segundo ele, é o único limite para sua sede de sangue e morte. 

Negação de todos os direitos 

Os documentos em questão não fazem qualquer referência ao direito. Reconhecem  o fim do direito internacional, que os próprios Estados Unidos promoveram após  a Segunda Guerra Mundial, de acordo com seus interesses e quando lhes convinha,  e que funcionava como uma fachada de “legitimidade democrática” na ordem  mundial. Tampouco reconhecem a autodeterminação dos povos e seu direito de  estabelecer sua própria forma de governo. Não há direitos sociais, econômicos ou  coletivos aos quais se deva submeter e que os Estados Unidos devam cumprir ou  respeitar. Não há direitos humanos, apenas os “direitos” que Deus concedeu aos  habitantes dos Estados Unidos (“os direitos naturais de seus cidadãos, dádivas de  Deus”). A outra menção feita confirma a anterior, afirmando que “todos os seres  humanos possuem direitos naturais iguais concedidos por Deus”. 

Nessa lógica contrária aos direitos, com exceção do direito do valentão do bairro  de matar e massacrar, as instituições que alegam defender tais direitos são  rotuladas como perversas porque “vinculam a política dos EUA a uma rede de  instituições internacionais, algumas das quais são movidas por um anti americanismo puro e simples e muitas por um transnacionalismo que busca  explicitamente dissolver a soberania dos Estados”. 

Qualquer consideração sobre a atual crise climática é descartada, tida como uma  invenção ideológica por setores da esquerda global que buscam enfraquecer e  destruir os Estados Unidos. Nesse contexto, os direitos ambientais são inexistentes,  pois o direito de poluir em larga escala por meio da queima intensificada de  combustíveis fósseis prevalece. 

E o outro nível de supressão de direitos e conquistas sociais refere-se à eliminação  das políticas de DIE (Diversidade, Inclusão e Equidade), afirmando que uma  “cultura de competição” deve ser restabelecida, erradicando as chamadas práticas  de “DIE” e outras práticas discriminatórias e anticoncorrenciais que degradam  nossas instituições. Afirma-se com orgulho: “Eliminamos a ideologia de gênero radical e a mentalidade excêntrica de nossas forças armadas e começamos a  fortalecer nosso exército com um investimento de um trilhão de dólares.”  (Introdução assinada por Donald Trump na Estratégia de Segurança Nacional).

Em relação à questão da migração, a rejeição de quaisquer direitos é mais explícita  e clara, baseada nesta premissa: “A era da migração em massa acabou: quem um  país admite em seu território, em que números e de onde, inevitavelmente definirá  seu futuro”. Com este objetivo: “Queremos controle total sobre nossas fronteiras,  nosso sistema de imigração e as redes de transporte pelas quais as pessoas entram  em nosso país, tanto legal quanto ilegalmente. Queremos um mundo em que a  migração não seja meramente ‘ordenada’, mas um mundo em que países soberanos  colaborem para impedir, em vez de facilitar, fluxos migratórios desestabilizadores,  e exerçam controle total sobre quem admitem ou negam entrada”. 

Isso se manifesta na prática como a perseguição de migrantes, a criminalização  pública de “estrangeiros indesejáveis”, o racismo, a perseguição, o  encarceramento, a deportação e até mesmo o assassinato de migrantes e cidadãos  brancos dos EUA que participam da defesa dos direitos básicos da população. Tudo  isso é justificado, às vezes explicitamente, às vezes implicitamente, pela teoria da  conspiração da “grande substituição” — uma visão racista de que os brancos estão  sendo substituídos por outras raças de origem estrangeira, e isso deve ser  interrompido porque a grandeza do país reside em seus homens brancos, que  devem lutar contra seus inimigos (outros grupos raciais) que querem destruí-los e  expulsar do território os migrantes que supostamente desfiguram o país e vivem  da “caridade” americana. 

Em resumo, não estamos falando apenas de retórica anti-direitos (o que também  é), mas de uma dura realidade, como demonstram dois exemplos práticos. Por um  lado, os Estados Unidos se retiraram de 66 organizações internacionais, 31 delas  das Nações Unidas, alegando que são “inúteis” ou “contrárias aos interesses  americanos”. Entre elas, estão organizações dedicadas ao estudo das mudanças  climáticas, bem como aquelas focadas nos direitos das mulheres, planejamento  familiar e violência sexual, entre outras. Por outro lado, há a repressão aberta nos  Estados Unidos contra o que Trump considera seus inimigos, um amplo espectro  que inclui migrantes, críticos do sionismo, apoiadores da Palestina e universidades  que se recusam a aceitar a censura e o controle do pensamento dentro de suas  instituições acadêmicas. 

Em resumo, a novidade com Trump é o abandono da retórica sobre o respeito à lei  e o cumprimento dos tratados internacionais de direitos humanos. Em vez disso,  emergiu uma nova ordem de brutalidade imperialista, tanto dentro quanto fora dos  Estados Unidos, e de terrorismo de Estado, sem quaisquer limites normativos ou  legais. A única lei estabelecida é a de que não há lei, apenas a força do mais forte,  daqueles que exibem a maior brutalidade e sadismo, e contra os quais não há  instituição que possa se opor, porque foram desmanteladas ou sua legitimidade não  é reconhecida. Estamos retornando aos tempos do notório Kid, em um Velho Oeste  colonial, onde o que importa são as terras e os recursos naturais, e os “selvagens” 

(migrantes, latino-americanos) são brutalmente educados para serem submissos e  obedientes, e se não forem úteis, são mortos. 

O pior de tudo — e aqui reside uma mentira que põe em causa a sinceridade  imperialista — é que a violência, a força e a guerra são apresentadas como meios  para alcançar a paz; ou seja, a paz do túmulo, a paz genocida de Israel ou da  Alemanha Nazista, ou simplesmente a Pax Americana imposta no Vietname, nas  Filipinas, no Irão e no Afeganistão, e agora vendida como o produto “Made in  USA” mais cobiçado. Trata-se de uma ilusão, porque esta nova ordem ocidental,  em vez de gerar paz, apenas cria mais militarização, guerra, resistência e rebelião  em várias partes do mundo. 

Em conclusão, a Nova Doutrina de Segurança e Defesa Nacional rompe com a  hipocrisia do “imperialismo humanitário” delineada durante a presidência de Bill  Clinton na década de 1990. Não há mais qualquer consideração pelos direitos  humanos; essa fachada desapareceu, substituída pela brutalidade e pela exibição  vergonhosa de crueldade contra os mais vulneráveis. 

As estratégias não são apenas mais dois documentos da Casa Branca que  indicariam alguma mudança circunstancial. Pelo contrário, expressam uma  reversão radical, pois abraçam abertamente a lógica da dominação imperialista, na  qual o uso da força é exaltado como o principal instrumento para impor os  interesses dos EUA, a rejeição de todo o direito internacional e a repudiação das  instituições multilaterais e dos direitos humanos universais. Agora, e isso fica  evidente em “As Estratégias”, emerge a manifestação dura e direta de um  capitalismo predatório, violento, brutal, reacionário, autoritário, racista e classista  — a marca registrada que distingue o regime genocida de Israel. 

Não há mais hipocrisia, não há mais máscaras, não há mais linguagem diplomática;  prevalece a lei do mais forte, o poder da força bruta. A visão de mundo trumpista  baseia-se nos direitos naturais concedidos por Deus, na soberania e domínio dos  estados fortes e na glorificação da coerção militar contra os fracos e subordinados. 

Domínio militar, pilhagem econômica, extração de combustíveis fósseis e negação  das mudanças climáticas são exaltados como atributos. Tudo isso não é produto da  loucura de um indivíduo, mas sim o resultado de uma estratégia calculada e fria  dos interesses materiais por trás do projeto Trump: os do complexo militar industrial, das novas tecnologias do Vale do Silício, do setor de petróleo e gás e do  setor financeiro de Wall Street. 

CRÍTICA DE ALGUMAS CLÁUSULAS COMUNS SOBRE O IMPERIALISMO AO ESTILO TRUMP 

Para concluir este ensaio, abordaremos três aspectos que, em nossa opinião, devem  ser cuidadosamente considerados ao analisar esse novo velho imperialismo: ele  não é produto da loucura de um indivíduo que ocupa a Casa Branca, nem é uma  exceção histórica no caso dos Estados Unidos, e a questão de saber se o que está 

sendo consolidado naquele país é um regime fascista deve ser examinada com  atenção. 

Demência imperial, não a de um indivíduo. 

“O fato de alguns elementos poderem parecer potencialmente ‘fora de controle’  pode ser benéfico para criar e reforçar medos e dúvidas nas mentes dos tomadores  de decisão nas fileiras do adversário. Esse sentimento essencial de apreensão é a  força motriz por trás da dissuasão. O fato de os Estados Unidos poderem se tornar  irracionais e vingativos se seus interesses vitais forem atacados deve fazer parte da  personalidade nacional que projetamos para todos os adversários.” 

Comando Estratégico dos Estados Unidos, Elementos Essenciais de Dissuasão na  Era Pós-Guerra Fria, 1998, citado em William Blum, Estado Vilão, Abril Editions,  2005, p. 47. 

Uma “explicação” convencional, que circula como uma espécie de senso comum  na mídia, afirma que Donald Trump é um louco que chegou aos mais altos escalões  da Casa Branca e que isso está perturbando a “democracia americana”. Para tentar  sustentar essa afirmação, sem muita base analítica, argumenta-se que a figura  mencionada é errática, impetuosa, egocêntrica, vaidosa — em suma, um lunático  sem visão clara. 

Embora alguns dos rótulos aplicados a Donald Trump sejam verdadeiros, eles não  explicam a nova face do imperialismo, pela simples razão de que atribuem  responsabilidades fundamentais a um indivíduo específico de forma  circunstancial, obscurecendo as razões estruturais de longo prazo que explicam a  crise da hegemonia dos EUA. 

De fato, diversos pesquisadores têm enfatizado que os Estados Unidos vêm  passando por uma crise estrutural desde a década de 1960, sendo dois de seus  principais eventos a derrota no Vietnã (1975) e o fim do Sistema de Bretton Woods  (1971), destacando dois aspectos inter-relacionados de natureza político-militar e  econômica. 

Esses estudos enfatizam que a crise da hegemonia estadunidense foi  temporariamente mascarada pela dissolução da União Soviética em 1991, um  evento que aparentemente revitalizou uma potência em crise, mas que jamais  resolveu seus problemas subjacentes. Nessas condições, após 1991, os Estados  Unidos assumiram uma hegemonia unipolar, acompanhada de um triunfalismo  desenfreado, cuja expressão ideológica foi o chamado Fim da História. Essa  “teoria” sustenta que os eventos de 1989-1991 não foram uma mudança passageira,  mas uma transformação tão substancial que pôs fim à história da humanidade,  entendida como a impossibilidade de substituir a economia de mercado  (capitalismo) ou a democracia liberal (do tipo estadunidense). Os ideólogos 

estadunidenses levaram essa afirmação a sério e, arrogantemente, declararam que  o século XXI seria de domínio total e inquestionável dos EUA. 

No entanto, a pausa da década de 1990 deu lugar a crises sucessivas (a bolha da  internet, a bolha imobiliária, a Covid-19) e, nesse mesmo período, a China emergiu  como concorrente econômica dos Estados Unidos, a Rússia como concorrente  militar, e outros países (Índia, África do Sul) começaram a desafiar a hegemonia  dos Estados Unidos em vários setores. 

Em pouco tempo, uma crise dupla veio à tona, evidenciando a real situação dos  Estados Unidos: interna e internacionalmente. Internamente, os Estados Unidos  são um país que fracassa em todas as frentes: com 40 milhões de pessoas vivendo  em extrema pobreza, com cidades devastadas e infraestrutura destruída, com  despovoamento e migração interna em alguns de seus antigos centros urbanos e  industriais, com violência endêmica e assassinatos diários, com predominância de  ignorância e fanatismo religioso entre milhões de seus habitantes — que são um  dos pilares eleitorais de Donald Trump —, com grande parte da população sem  seguridade social ou assistência médica, com mais de dois milhões de pessoas na  prisão e 3,7 milhões em liberdade condicional, com racismo endêmico contra a  população afro-americana e migrantes de diversos lugares, com uma queda nos  salários reais médios para níveis não vistos desde a década de 1970, enquanto, ao  mesmo tempo, existem os super-ricos mais ostentosos de todos os tempos, que  também se beneficiam de um dos sistemas tributários mais injustos do planeta,  com uma dívida interna colossal e insustentável que atinge cifras astronômicas e  excede o PIB…[5] 

A isso deve-se acrescentar que o Arquivo Epstein revela a corrupção estrutural do  capitalismo, com o envolvimento de presidentes, altos funcionários, bilionários e  gurus da tecnologia em tráfico sexual, estupro de mulheres jovens e pobres,  lavagem de dinheiro, sonegação fiscal, a interligação de agências secretas  (Mossad, CIA, MI6) e os crimes mais hediondos (assassinatos, tortura,  desaparecimentos, práticas satânicas e canibalismo). Este Arquivo, apesar de toda  a censura, indica o grau de decadência moral do capitalismo americano, do qual  Donald Trump é apenas um exemplo primordial, que, em virtude de sua  presidência, emerge como o Calígula de nossos tempos. 

Se nos lembrarmos de que os impérios começam a ruir devido a problemas  internos, o que está acontecendo nos Estados Unidos é simplesmente uma  confirmação do que vem acontecendo desde o declínio do Império Romano. E é  isso que o “louco” Trump está tentando reverter com falsas soluções baseadas no  racismo (que beneficia os brancos), uma suposta reindustrialização, a perseguição  de imigrantes e estrangeiros indesejáveis, a imposição de tarifas sob o pretexto de  tornar a economia americana mais competitiva e a militarização do país. Os fatos  indicam que nada disso reverterá a crise estrutural; pelo contrário, está  exacerbando-a.

E no cenário internacional, o que vemos é mais uma tentativa desesperada — beirando a insanidade — de manter a hegemonia do dólar a qualquer custo, por  meio de agressões e guerras em múltiplas frentes. E nesse âmbito, as contradições  já são evidentes. Assim, Trump e sua gangue de foras da lei prometem que não  travarão guerras prolongadas e que os fuzileiros navais não desembarcarão em  nenhum país. Mas é apenas uma questão de tempo e erros de cálculo, que os levem  a superestimar sua própria força e subestimar a de seus potenciais inimigos (o Irã  sendo o principal exemplo), antes que os Estados Unidos se envolvam em uma  guerra de desgaste que, em última análise, os arruinará. 

Além disso, o dólar está em declínio e, no médio prazo, não conseguirá manter sua  posição como padrão monetário dominante, pois deixou de ser a moeda de  referência em muitas transações dentro dos países do BRICS. Sob a administração  Trump, o dólar está perdendo um dos elementos fundamentais que o  impulsionaram à proeminência: a confiança. Isso está levando muitos investidores  a considerarem a venda de suas reservas em dólares, a cessarem a compra de títulos  do Tesouro e a buscarem refúgio em ouro e prata. 

Em suma, a loucura não reside em Trump, mas sim em um sistema imperialista  cujas principais forças (Vale do Silício, o complexo militar-industrial, o setor de  petróleo e gás, o setor financeiro, etc.) se recusam a reconhecer que seu domínio  está sendo superado por novas forças, a principal das quais é a República Popular  da China. E em sua insanidade, podem até recorrer ao uso da bomba atômica, pois  acreditam que, se os Estados Unidos deixarem de ser o país “modelo”, a existência  da humanidade se torna sem sentido. E é exatamente isso que os evangélicos  sionistas nos Estados Unidos e os sionistas em Israel, do outro lado do mundo,  proclamam. 

Isso não é uma exceção; é a norma histórica no comportamento dos Estados  Unidos. 

“Afirmar que as ‘excentricidades’ de Trump — seu autoritarismo, sua ignorância,  suas mentiras, suas teorias da conspiração, suas transgressões da lei, seu racismo,  sua misoginia, sua predileção por bajulação, kitsch e por estampar seu nome em  tudo — são, de alguma forma, em essência, ‘latino-americanas’ (como se,  considerando apenas este último ponto, a Trump Tower tivesse sido projetada em  Manágua na década de 1970), é apenas a enésima expressão do ‘excepcionalmente  americano’, já que nenhuma dessas características é estranha à elite dos EUA,  incluindo ex-presidentes. […] Há muitas figuras repressivas, egocêntricas e  truculentas na história dos EUA que abriram caminho para Trump”, escreveu  Grandin com propriedade, e “não há necessidade de usar e abusar da história  latino-americana de maneira tão grosseira”. “Trump tem mais em comum com  Clinton do que com Somoza.”

Maciek Wisniewski, em O Dia – Influências Interamericanas, 22 de novembro de  2025. 

Outro motivo que citam, especialmente os liberais e todos aqueles que viveram das  migalhas do imperialismo brando (USAID, ONGs, “Cooperação Internacional”),  é que Donald Trump é uma exceção à suposta tradição democrática dos Estados  Unidos, devido ao seu cinismo, ignorância, brutalidade, glorificação da crueldade  e desrespeito às “regras”… Esta é uma falácia baseada na dissonância cognitiva  com todas as atrocidades do imperialismo estadunidense ou na ignorância dessa  história de agressão, pilhagem e violência, tanto dentro dos Estados Unidos quanto  no resto do mundo. 

Donald Trump não é uma anomalia; ele é a expressão mais flagrante do que os  mais altos escalões do poder americano representaram, a começar pelos seus  presidentes e altos funcionários (secretários, senadores, líderes empresariais,  oficiais militares de alta patente, etc.), que se distinguiram pela sua brutalidade.  Basta recordar as ações de alguns deles. William McKinley e a sua  responsabilidade pelo massacre de um milhão de filipinos em apenas alguns anos,  no final do século XIX e início do século XX. Harry Truman e a sua ordem para  usar a bomba atômica duas vezes — até agora, apenas duas — contra duas cidades  japonesas, causando milhares de mortes, feridos e pessoas com deficiência.  Lyndon Johnson, Richard Nixon e Henry Kissinger e a sua responsabilidade pelo  assassinato de vários milhões de vietnamitas e pela destruição do seu campo e das  suas cidades, impiedosamente bombardeadas com o Agente Laranja e outros  agentes biológicos e químicos. Ronald Reagan e seu apoio aos grupos violentos da  América Central que mergulharam países como Nicarágua, El Salvador e  Guatemala em sangue e sofrimento, resultando em milhares de mortes. George W.  Bush II, Colin Powell e os falcões neoconservadores responsáveis pela morte de  um milhão de iraquianos desde a década de 1990… Estes são apenas alguns  exemplos da criminalidade contínua que caracteriza a política externa dos EUA e,  como já afirmamos, foi aprendida na escola da guerra. 

Assim, não há nada de excepcional no suposto imperialismo “benevolente”  (liberal) de Barack Obama ou Joseph Biden, ou no “imperialismo humanitário” de  Bill Clinton, que teria sido diferente, não violento e interessado em implementar a  defesa dos direitos humanos e dos direitos dos povos oprimidos (os kosovares, os  curdos, etc.). A única diferença é que o comportamento do imperialismo antes de  Donald Trump se baseava em mentiras, enganos, hipocrisia e no uso de uma vasta  rede de lacaios e funcionários assalariados, muitos deles altamente instruídos, que  trabalhavam para a USAID e entidades do imperialismo brando, supostamente  interessadas em disseminar democracia, liberdade e justiça para povos  subdesenvolvidos. 

O que Trump fez, e aí reside sua excepcionalidade, foi deixar cair a máscara e jogar  no lixo a USAID, a ONU, a cooperação internacional e tudo o mais que, segundo 

sua perspectiva estreita, impede os Estados Unidos de permanecerem a potência  dominante no mundo. E eles afirmam claramente, para manter sua hegemonia  global, que os Estados Unidos não precisam de boas maneiras e diplomacia, porque  o que se exige no mundo de hoje, que eles não dominam nem controlam mais como  antes, é exibir brutalidade e crueldade, como sempre fizeram, mas que antes  disfarçavam com pequenas mentiras (trazendo democracia, liberdade, justiça,  direitos humanos…). 

O regime de Donald Trump é fascista? 

“Se o sequestro de Maduro demonstrou alguma coisa até agora, é que Trump  sempre se entendeu melhor em termos de “continuidade”, e não de “ruptura”, com  os antigos padrões americanos. Uma das principais fragilidades da “tese do  ‘fascismo’” — em sua versão dominante — é que ela representa uma tentativa de  “anormalizá-lo” e tratá-lo como um “corpo estranho”, quando o que ele representa  é, na realidade, a quintessência dos impulsos imperialistas estadunidenses, dentro  de sua própria linhagem e em consonância com suas principais doutrinas.” 

Maciek Wisniewski,La Jornada – Donald Trump: doutrinas e linhagens, 10 de  janeiro de 2026. 

Um último aspecto que vale a pena examinar, ainda que brevemente, diz respeito  à alegada natureza fascista do regime de Donald Trump. Desde seu primeiro  mandato, os democratas começaram a acusá-lo de ser “fascista”, e o termo ganhou  força após os eventos de 6 de janeiro de 2021, quando uma multidão de apoiadores  de Trump invadiu o Capitólio. Durante o segundo mandato de Trump, o rumor de  que estamos diante de um regime fascista declarado se intensificou. 

É preciso distinguir entre o uso amplo e genérico do termo “fascista” com a  intenção de denúncia política ou de atacar um adversário, neste caso o próprio  Donald Trump, e a compreensão conceitual rigorosa da categoria sócio-histórica  do fascismo. Alguns daqueles que classificam Trump e seu regime como fascistas  argumentam que certos traços característicos do fascismo histórico na Europa  estão emergindo, mas, em muitos casos, exageram a comparação ou confundem  elementos que não são exclusivos do fascismo. Mencionam várias questões: o  apelo ao nacionalismo exacerbado, o ódio aos imigrantes, o desejo de expansão  territorial (como evidenciado pelo seu interesse declarado em anexar a  Groenlândia, o Canadá e, eventualmente, o México), o machismo arraigado e o  culto ao “homem branco”, o fetichismo da tecnologia e a megalomania de Trump  ao se considerar um líder quase divino. Ultimamente, o uso da violência contra  vários setores da população foi adicionado a tudo isso, notadamente os assassinatos  em Minnesota. Outras características incluem o culto a um passado mítico, a  obsessão com o trauma da nação e com o perigo para a segurança nacional (a pátria  está em perigo e a raça branca está passando por uma grande substituição), o  desprezo pelos fracos, o militarismo, a glorificação da crueldade…

Aqueles que usam esse termo para descrever esses eventos expressam indignação  com algo aparentemente anormal na “democracia americana”, como a repressão  do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), mas esquecem que essa prática sempre  existiu nos Estados Unidos contra indígenas, afro-americanos, imigrantes e  brancos pobres. É como se tivessem descoberto repentinamente o nível de  repressão interna por causa do assassinato, certamente repreensível, de dois  cidadãos brancos. Mas nem esse evento em si, nem todos os elementos  mencionados acima, fornecem fundamentos suficientes para concluir que o  governo Trump possa ser rotulado de fascista. 

O uso do termo “fascista” se encaixa na mesma lógica do suposto excepcionalismo  democrático dos Estados Unidos, que teria sido violado pela primeira e única vez  por Donald Trump. Essa é uma visão muito limitada, pela simples razão de que  não é necessário buscar em outro continente as raízes da violência, do racismo e  da crueldade que sempre caracterizaram os Estados Unidos. Pior ainda, muitas das  práticas mais abomináveis de extermínio e genocídio perpetradas pelos nazistas  foram aprendidas nos Estados Unidos, pois devemos lembrar que Hitler  considerava o extermínio dos povos indígenas da América do Norte uma das  maiores contribuições feitas fora da Europa para o projeto de pureza racial que ele  implementava na Alemanha. De fato, a história dos Estados Unidos é uma escola  prática de genocídio e brutalidade, desde o momento da colonização inglesa, cujas  características violentas persistem até hoje. Ou, se não, basta observar a caça aos  negros escravizados, os ataques genocidas contra os povos indígenas, as invasões,  ocupações e bombardeios, que causaram milhões de mortes em todo o planeta. 

Dito isso, algumas das diferenças substanciais, tanto contextuais quanto de grau,  entre o fascismo e o trumpismo devem ser mencionadas. Entre as mais notáveis,  destacam-se as seguintes: 

Inicialmente, os regimes fascistas clássicos, na ordem internacional, eram  potências de segunda classe que desejavam participar da divisão do mundo com o  objetivo de alcançar a principal potência colonial da época, o Reino Unido,  enquanto hoje os Estados Unidos são uma superpotência em declínio que se recusa  a desaparecer e, portanto, atualiza suas antigas práticas imperialistas de forma  flagrante e descarada. 

Em segundo lugar, ao contrário da ortodoxia liberal, o fascismo não surgiu em um  estado de “anomia” social, mas sim em meio a uma sociedade civil vibrante.  Portanto, o fascismo apropriou-se das organizações existentes na época de sua  ascensão, canalizando-as e destruindo aquelas que se opunham à sua agenda.  Consequentemente, os Estados Unidos não possuem uma sociedade civil robusta;  em vez disso, possuem uma sociedade frágil e fragmentada. 

Terceiro, Trump não é um agitador de massas que convoca multidões às ruas e  praças públicas como demonstração de seu poder popular, porque o que ele propõe 

é bastante elementar: que seus seguidores se organizem online e por meio de redes  (anti)sociais. 

Portanto, nada parecido com as manifestações nazistas e fascistas em massa na  Alemanha e na Itália na década de 1930, algo impensável também no contexto da  passividade política que reina nos Estados Unidos. 

Em quarto lugar, o fascismo propôs um novo modelo de representação para  substituir a democracia liberal, enquanto Donald Trump não tem interesse em  construir um modelo novo e diferente, que estruture instituições distintas do  parlamento ou dos partidos tradicionais, nos quais Trump continua a se apoiar. 

Quinto, embora o fascismo clássico se referisse a um passado glorioso, sua ênfase recaía no futuro com um forte senso utópico. No caso da Alemanha, isso significou a construção do Reino Milenar, dominado por uma comunidade racial e etnicamente definida, enquanto no caso da Itália, havia um forte componente moderno e tecnofuturista, a ponto de os futuristas serem uma de suas principais  expressões estéticas. Trump e seus comparsas, por outro lado, carecem de qualquer  faceta utópica ou transformadora, porque o MAGA é um movimento retrógrado e nostálgico dos tempos em que os Estados Unidos eram grandes e sempre os primeiros — algo para o qual eles estão tentando em vão retornar com o retorno às soberanias nacionais, ao protecionismo, às tarifas e à política do “big stick”. Nesse sentido, “Trump e o trumpismo, em vez de serem o resultado de um desejo de se  consolidar como uma potência imperial, como foi o caso dos regimes fascistas, são melhor compreendidos como uma expressão da recusa das elites americanas em aceitar a realidade de seu declínio imperial e sua incapacidade de construir seu futuro em um mundo em transformação, para além de culpar a China e “outros países que estão nos explorando” por tudo”.[6] 

O governo Trump é produto de uma sociedade dominada pelo dinheiro, pelo espetáculo e pelo consumismo, cujo objetivo é aumentar a riqueza familiar através da construção de um regime patrimonial, gerido como assunto privado, onde não há distinção entre interesses pessoais e os da esfera pública do Estado. O Estado aparece como uma extensão da propriedade privada e, portanto, a política é concebida em termos de negócios e lucro (Gaza e seu “Conselho da Paz”, onde os  interessados devem pagar uma taxa de entrada de US$ 1 bilhão, ou a Venezuela, vista como um posto de gasolina a ser administrado pelas grandes petrolíferas estadunidenses). Isso explica o nepotismo desenfreado e o autoritarismo personalista.  Nesse sentido, o que está acontecendo atualmente nos Estados Unidos não é um confronto entre um fascista autoritário (MAGA e os Republicanos) e os defensores da democracia (o Partido Democrata), mas entre a família Trump e seus negócios versus aqueles que defendem o Estado burocrático com sua lógica administrativa, com entidades nacionais e internacionais que foram desmanteladas por Trump,  como o Departamento do Trabalho ou a USAID.

Nessa perspectiva, alguns autores classificam o regime de Trump como bonapartista, entendendo-o como um produto da polarização social, na qual uma figura carismática emerge para concentrar o poder, ultrapassando os modos  tradicionais de representação. Trump representa uma “terceira força”, um outsider externo, que concentra o poder e apela diretamente ao “povo americano”. Isso explica por que o culto ao “americanismo” predomina nos Estados Unidos e por que aqueles que contaminam esse espírito são expulsos — no caso atual, os imigrantes pobres, que são culpados pela crise material e moral do americanismo.  Nesse sentido, o neobonapartismo trumpista se caracteriza pela “estigmatização dos imigrantes e pelo desejo de se apresentar como o verdadeiro representante, defensor e intérprete do ‘americanismo’, que salvaguarda sua integridade e está disposto a expulsar todos aqueles que o ameaçam, desde imigrantes até os — imaginários— ‘marxistas’ e ‘comunistas’”.[7] 

É nesse contexto de bonapartismo, e não de fascismo, que várias das posições de  Donald Trump se tornam compreensíveis: sua comparação com McKinley na  imposição de pesadas tarifas para reavivar a “prosperidade americana”, sua  ressurreição do antigo “Destino Manifesto” para todo o continente, a fim de “tornar  a América grande novamente”, e suas promessas de retornar a uma era de ouro  para o “povo americano” (os Estados Unidos). Um elemento inovador, que poderia  ser chamado de “capitalismo político”, reside no fato de que os negócios e os lucros  dos capitalistas não são resultado de sua produtividade, mas de suas conexões  políticas com Trump, como exemplificado pelo caso de Elon Musk e seus laços  nepotistas, nos quais seus parentes e amigos lucram com negócios dentro e fora do  país, como está acontecendo agora com a anunciada reconstrução imobiliária de  Gaza, onde ele próprio será o principal beneficiário, juntamente com alguns  executivos do setor imobiliário responsáveis pela gestão do resort que se pretende  construir sobre os corpos de 700 mil palestinos. 

Em conclusão, podemos afirmar que os Estados Unidos possuem sua própria tradição de perseguição, discriminação e tortura em larga escala, que alimenta o autoritarismo de Donald Trump, sem precisar de recorrer a modelos estrangeiros.  Isso, é claro, não significa que o fascismo não possa ser replicado na nossa época, considerando que, como afirma Carl Amery, um novo Hitler poderia surgir sob diferentes disfarces e com diferentes maneirismos, decorrente do mesmo dilema do pintor austríaco: o esgotamento de recursos e energia.[8] 

Na realidade, estamos testemunhando o surgimento de algo distinto do fascismo  histórico, um novo e diferente movimento reacionário de extrema-direita. Nessas  circunstâncias, como observou Eric Hobsbawm, “quando as pessoas se deparam  com algo para o qual seu passado não as preparou, elas buscam palavras para  nomear o desconhecido, mesmo quando não conseguem defini-lo nem compreendê-lo”.

Mas, em última análise, não se trata de uma questão puramente conceitual ou de  precisão analítica, pois o que está em jogo é a compreensão do fenômeno do trumpismo e de como ele opera dentro e fora dos Estados Unidos, porque daí deriva uma certa estratégia política, que envolve abandonar desde o início a ilusão do imperialismo benevolente, do imperialismo brando e da suposta excepcionalidade da democracia americana, que jamais teria conhecido a violência, nem dentro nem fora do país. 

NOTAS 

[1] La Jornada: A pilhagem do México, o início da dominação dos EUA,  vangloria-se Trump 

[2] Ver: Roxane Dunbar-Ortiz, A História Indígena dos Estados Unidos, Captain  Swing, Madrid, 2018, p. 51. 

[3] Os documentos estão disponíveis em espanhol. Veja: Estratégia de Segurança  Nacional dos EUA: O Plano da Casa Branca Contra a Europa (Texto Completo)  – O Grande Continente em Estratégia de Defesa Nacional dos Estados Unidos:  Texto Completo – O Grande Continente 

[4] Stephen Miller oferece uma visão de um mundo onde a força reina – The  New York Times

[5] Matthew Desmond, Pobreza Made in the USA, Capitán Swing, Madrid, 2024 

[6] Maciek Wisniewski,A extrema-direita, o trumpismo e sua visão de  “futuro”.13 de abril de 2025. 

[7] Maciek Wisniewski,La Jornada: Trump e o neobonapartismo15 de fevereiro  de 2025. 

[8] Carl Amery, Auschwitz, O século XXI começa?: Hitler como precursor,  Turner, Madrid, 2002.

Publicado na Revista Izquierda (Bogotá), No. 126, fevereiro de 2026

Tradução: Jair de Souza.


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