Há coisas que a gente lê e ficam gravadas na cabeça.
A gente pensa demais nelas.
E, quando menos se espera, elas já estão incrustadas no corpo.
Elas incomodam tanto que a gente precisa cuspir o que pensa.
Elas incomodam tanto que a gente precisa falar.
Perdoem-me, companheiros de esquerda gringos e europeus, mas isso precisa ser dito.

Leio um de vocês escrever: “Boa menina”.
Simples assim. Referindo-se a Delcy Rodríguez, presidente interina da Venezuela, após o sequestro do presidente Maduro.
E não, não é que vocês não possam opinar.
Claro que podem.
Não somos crianças.
O que incomoda é outra coisa.
Incomoda o tom.
Incomoda a postura.
Incomoda a conclusão fácil.
Incomoda esse hábito de subir, sem perceber, em um banquinho moral e distribuir cartões de traição e coerência revolucionária.
Falam como se estivessem corrigindo um dever de casa.
Como se não houvesse mortos.
Como se não houvesse bloqueio.
Como se não existisse um império que já demonstrou que pode fazer o que bem entender,
com uma brutalidade e uma tecnologia que fazem a Venezuela parecer que está lutando com pedras e paus.
Depois leio a resposta de um irmão venezuelano.
E aí sim…
aí me doeu.
Porque ele teve que defender algo ainda mais básico:
a dignidade de não ser tratado como um idiota, como um animal de estimação, como um traidor, por não se opor aos gringos nem “se opor um pouquinho”, como vocês dizem de longe.
Oitenta pessoas morreram na Venezuela defendendo seu presidente. Acrescente a isso os heróicos irmãos cubanos que deram suas vidas.
Setenta mil pessoas foram assassinadas na Palestina.
Milhões foram deslocadas.
E mesmo assim, de fora, exige-se pureza.
Exige-se fogo.
Exige-se que todo povo sitiado aja exatamente
como se imagina a partir do conforto.
Eu admiro profundamente o povo palestino.
Sua resistência é imensa.
Sua dignidade é inquestionável.
Mas admirar não é copiar.
Respeitar não é exigir o mesmo sacrifício.
Nem todos os povos são obrigados a caminhar direto para um abismo para provar que são “coerentes”.
Essa não é a única forma de coragem, mas romantizar a morte alheia sim.
Estamos sozinhos.
E quando se está sozinho, pensar, repensar, vale a pena para resistir.
Medir os tempos.
Escolher batalhas.
Não entregar o corpo quando ainda não é a hora.
Exaltar a resistência não pode se tornar exigir martírio.
“Boa menina”?
Idiotas, reajam! Eles se intrometeram e levaram o presidente quando quiseram.
O que o mundo fez pela Venezuela?
A Venezuela se descuida e acaba como a Síria.
E quando menos esperarmos, veremos fotos de um esquelético no poder, recebido com sorrisos em Moscou,
em nome da realpolitik.
Não nos interessam palmadinhas no caixão.
Opinem, claro.
Critiquem, se quiserem.
Mas façam isso, pelo menos,
propondo alternativas reais.
Dêem o exemplo.
Dêem contexto.
De fora, é muito fácil pedir incêndios e martírio.
O difícil é viver dentro do fogo.
Uma visão me assalta:
A Venezuela morrendo “pela causa”.
Levanto a cabeça e a única coisa que acontece depois
é que intelectuais europeus,
puristas da esquerda,
aplaudem,
fecham a tela
e seguem com suas vidas.
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