Por Tali Feld Gleiser, para Desacato.info.
As recentes eleições no Peru e na Colômbia deixaram um sinal de alerta para as forças progressistas latino-americanas. Mais do que derrotas eleitorais por margens estreitas, os dois processos evidenciam uma transformação profunda na forma como as disputas pelo poder vêm sendo travadas no continente.
Essa é a avaliação do cientista político Alfredo Serrano Mancilla, diretor do Centro Estratégico Latino-Americano de Geopolítica (CELAG), em entrevista ao programa Diálogo Internacional.
Segundo Serrano, embora Peru e Colômbia apresentem contextos distintos, ambos revelam uma tendência preocupante: o aperfeiçoamento de mecanismos institucionais, tecnológicos e administrativos capazes de influenciar resultados eleitorais sem recorrer aos tradicionais golpes militares que marcaram a história latino-americana.
O laboratório peruano
Para Serrano, o caso peruano representa um verdadeiro laboratório político.
O cientista destaca que o país vive uma profunda fragmentação partidária, o que favorece um cenário de enorme confusão eleitoral. Segundo ele, essa multiplicação de candidaturas não fortalece necessariamente a democracia, mas pode produzir exatamente o contrário: desorganização política e dificuldade para que projetos populares consolidem maiorias.
Além desse quadro, Serrano aponta mudanças nas regras eleitorais ocorridas durante o próprio processo eleitoral, especialmente em relação aos votos do exterior.
Entre os problemas mencionados estão alterações na forma de envio das urnas consulares, ausência de digitalização dos votos de origem, atrasos que impediram impugnações dentro do prazo legal e altos custos para recorrer judicialmente de atas consideradas irregulares.
Na avaliação do analista, trata-se de mecanismos pouco visíveis, mas capazes de produzir impacto significativo quando uma eleição é decidida por poucos votos.
A especificidade colombiana
Embora considere a situação colombiana diferente da peruana, Serrano identifica problemas igualmente graves.
Segundo ele, a esquerda colombiana mantém uma identidade política mais sólida e organizada do que a observada no Peru. Mesmo derrotada eleitoralmente, continua representando um bloco político expressivo e com forte presença institucional.
O principal alerta, porém, está na estrutura do sistema eleitoral.
Serrano critica a terceirização de funções estratégicas do processo eleitoral, afirmando que empresas privadas concentram etapas importantes da organização das eleições, do pré-conteúdo à gestão de bases de dados eleitorais.
Na sua avaliação, a ausência de transparência sobre esses procedimentos dificulta o controle público e amplia a possibilidade de irregularidades difíceis de comprovar posteriormente.
Uma nova forma de guerra política
Para Serrano, a América Latina vive uma nova etapa da chamada guerra híbrida.
Se no passado predominavam golpes militares ou intervenções explícitas, hoje as disputas ocorreriam através de instrumentos jurídicos, midiáticos e eleitorais muito mais sofisticados.
Segundo ele, essas operações são planejadas para produzir efeitos pequenos, porém suficientes para alterar resultados extremamente equilibrados.
A dificuldade, afirma, está justamente em demonstrar tecnicamente essas manipulações depois que o processo eleitoral já foi encerrado.
A influência dos Estados Unidos
Outro elemento destacado pelo diretor da CELAG é a continuidade da influência dos Estados Unidos sobre a política regional.
Na entrevista, Serrano menciona que essa atuação não ocorre apenas por meio da diplomacia tradicional, mas também através de apoio político, influência institucional e articulações que acabam favorecendo setores conservadores em diversos países latino-americanos.
Um desafio para toda a esquerda
A principal conclusão de Alfredo Serrano vai além das eleições recentes.
Segundo ele, a esquerda latino-americana precisa dedicar muito mais atenção aos aspectos técnicos dos processos eleitorais.
Fiscalização permanente, domínio da legislação, sistemas próprios de controle, auditorias independentes e formação de especialistas passam a ser, segundo o analista, condições tão importantes quanto a mobilização popular ou a construção de programas de governo.
Em suas palavras, não basta denunciar possíveis irregularidades após as eleições. É necessário construir capacidade técnica e política para preveni-las.
Para Serrano, os casos de Peru e Colômbia podem representar um prenúncio do que outros países da região enfrentarão nos próximos anos, tornando indispensável que os movimentos democráticos compreendam essa nova dimensão da disputa política latino-americana.
Assista à entrevista completa no vídeo abaixo
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