Acidente que matou Jorge Lacerda alterou rumos da política catarinense

A trajetória política de Jorge Lacerda foi tragicamente interrompida no dia 16 de junho de 1958. O governador viajava para São Paulo em um Convair 440 prefixo PP-CEP, da companhia aérea Cruzeiro do Sul.

gazeta

Por: Marcelo Espinoza

A aeronave havia partido de Porto Alegre, com escalas em Florianópolis, Curitiba, São Paulo, tendo o Rio como destino final.

Lacerda viajou para a capital paulista para se encontrar com Plínio Salgado, que pretendia sair candidato ao Senado por Santa Catarina. Os dois foram membros do movimento Integralista e se conheciam desde a década de 30. O governador queria demovê-lo dessa ideia, já que o ex-governador Irineu Bornhausen, que havia apoiado Lacerda na eleição para o governo de Santa Catarina, também era candidato.

Conforme noticiaram os jornais da época, a aeronave se preparava para a escala na capital paranaense, no fim da tarde de uma segunda-feira. Chovia muito, ventava forte e a visibilidade era baixa no momento da aproximação do aeroporto de São José dos Pinhais. Sobreviventes relataram que avião sobrevoou Curitiba por um bom tempo. Em determinado momento, parecia que a aeronave perdia altitude, até que uma das asas se chocou com árvores. Em seguida, o Convair, desgovernado, caiu em uma área de difícil acesso, numa localidade rural a cerca de oito quilômetros do aeroporto (veja nas figuras abaixo).

O voo transportava 22 passageiros e sete tripulantes. Ao todo, 20 morreram. Entre os mortos, além de Jorge Lacerda, outros dois políticos catarinenses: o deputado federal Leoberto Leal e o senador Nereu Ramos, ambos do PSD. Leal era considerado um dos favoritos a suceder Lacerda no comando de Santa Catarina e se destacava na Câmara dos Deputados na liderança do seu partido. Ramos já havia ocupado a Presidência da República, logo após o suicídio de Getúlio Vargas, tendo sido peça importante para viabilizar a posse de Juscelino Kubitschek, em 1956.

De uma vez só, Santa Catarina perdia os três maiores nomes de sua política à época. Para historiadores e jornalistas, esse acidente alterou os rumos da política nacional, já que Lacerda era cogitado a ser candidato a vice-presidente da República nas eleições de 1960.

Repercussão

Por se tratar de um acidente aéreo e de envolver figuras importantes da política nacional, o desastre foi destaque nos principais jornais do país. O jornal “O Globo”, do Rio de Janeiro, trouxe o acidente na primeira página da edição de 17 de junho de 1958.

Com o título “Brasileiros ilustres perdem a vida num desastre de avião”, a matéria trazia as fotos de Leoberto Leal, Nereu Ramos e Jorge Lacerda. Também na capa, uma manifestação do então presidente Juscelino Kubitschek, afirmando que o governador catarinense “vivia em realizações esplêndidas, no alto desejo de servir o País. Era hábil e inteligente, mas também homem de boa vontade e um patriota”.

Na edição do dia 18, “O Globo” noticiou que o senador catarinense Carlos Gomes de Oliveira classificou o acidente como “uma das maiores tragédias que se abateu sobre a política do meu Estado”. Direto do local da tragédia, o correspondente de “O Globo” relatou que entre os pertences recuperados junto ao corpo do governador estavam 20 mil cruzeiros, a carteira de identidade e uma agenda.

Em Florianópolis, o correspondente do jornal carioca informava que a capital havia amanhecido “sob grande consternação e milhares de pessoas concentram-se nas ruas e praças da cidade, procurando ouvir no noticiário radiofônico das emissoras locais”. O vice-governador Heriberto Hülse havia assumido o comando do Estado e seu primeiro ato foi decretar luto oficial em toda Santa Catarina por oito dias.

A “Folha da Manhã” também noticiava na capa o desastre aéreo. “Vinte mortos em acidente de aviação ocorrido próximo à capital paranaense”, com destaque para as mortes do senador Nereu Ramos e do governador de Santa Catarina.

No “Jornal do Brasil”, a morte de Jorge Lacerda foi manchete. O diário fluminense noticiou “Desastre: morrem Nereu, Jorge Lacerda e Leoberto”, com uma das últimas fotos de Lacerda e do senador. Na reportagem, o jornal destacou que o governador “era um político jovem (…). No governo de seu estado, era considerado um administrador honesto e eficiente, tendo iniciado inúmeras obras públicas de vulto (…)”.

“O Estado de S. Paulo” também noticiou em primeira página. A reportagem deu destaque às circunstâncias do acidente e à demora na confirmação da morte das autoridades catarinenses. O jornal paulistano também relatou o clima de ansiedade que pairava em Florianópolis. “Grupos de populares ficaram na cidade, procurando jornais, enquanto outros ficavam de ouvidos pregados aos aparelhos de rádio”, escreveu o correspondente do Estadão na capital catarinense.

Em Curitiba, local do acidente, a manchete de a “Gazeta do Povo” foi: “Fatalidade enluta a Nação”. “O Estado do Paraná”, outro diário importante de Curitiba, noticiou que a população curitibana amanheceu “coberta de luto”. O jornal informou ainda que de Paranaguá, cidade natal de Lacerda, veio uma coroa de flores com os dizeres: “A Jorge Lacerda, a gratidão e a saudade de Paranaguá”.

Especial Jorge Lacerda

Para marcar o centenário de Jorge Lacerda, a Agência AL, em parceria a Rádio AL, publica, no decorrer desta semana, matérias sobre as homenagens ao ex-governador. A série vai trazer informações sobre o livro e o documentário que serão lançados na próxima semana, além de resgatar a comoção causada pelo acidente aéreo que tirou a vida do ex-governador e retratar como o nome Jorge Lacerda ficou eternizado em logradouros e prédios públicos espalhados pelo país. (colaboraram Cleia Braganholo, Lúcio Baggio e Roberto Westrupp)

Fonte: Agência ALESC

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