
Por Marcos Aurélio Gomes Ribeiro.
Mais uma Copa de futebol começando em meio às tensões geopolíticas causadas pela política expansionista do imperialismo americano, que tenta novamente transformar a América Latina em seu quintal, com ataques à economia e à soberania nacional do Brasil. Lembrando que teremos uma das eleições presidenciais mais disputadas dos últimos tempos e que já ficou claro que os EUA, sob a presidência de Donald Trump, buscarão influenciar os rumos políticos da região de acordo com seus interesses. Mas vamos falar da Copa de 1970, no México.
A conquista do tricampeonato mundial pela seleção brasileira permanece como um dos momentos mais marcantes da história do futebol. Com um time brilhante liderado por Pelé, Jairzinho, Tostão, Rivellino e Carlos Alberto Torres, o Brasil encantou o mundo. Porém, por trás da festa e da euforia popular, o país vivia um dos períodos mais sombrios de sua história.
Em 1970, o Brasil estava sob a ditadura militar e enfrentava os chamados “anos de chumbo”. Enquanto a seleção avançava rumo ao título mundial, o regime do general Médici ampliava a censura, perseguia opositores políticos, promovia prisões arbitrárias, torturas, assassinatos e desaparecimentos. Ao mesmo tempo, os militares procuravam transformar o futebol em um poderoso instrumento político.
O projeto da ditadura era utilizar a seleção brasileira como símbolo de um nacionalismo ufanista, difundindo a ideia de um país unido, forte e em progresso. A conquista da Copa era apresentada como prova do sucesso do regime. A propaganda oficial explorava slogans como “Brasil, ame-o ou deixe-o”, buscando criar uma atmosfera de exaltação patriótica que ajudasse a esconder a violência do Estado e desestimular a mobilização popular contra a ditadura. Para muitos críticos do período, o futebol foi utilizado como mecanismo de propaganda e alienação, desviando a atenção da população dos graves problemas políticos e das violações dos direitos humanos que ocorriam no país.
Nesse contexto destaca-se a figura de João Saldanha, conhecido nacionalmente como João Coragem. Jornalista esportivo respeitado, militante do PCB, o “Partidão”, Saldanha assumiu o comando da seleção brasileira e foi o responsável pela campanha que garantiu a classificação do Brasil para a Copa do Mundo. Homem de posições firmes, não aceitava interferências políticas em seu trabalho e mantinha críticas ao regime militar.
Sua independência e suas convicções políticas desagradavam setores do governo. Em meio a pressões e conflitos, João Saldanha foi afastado do comando da seleção poucos meses antes do Mundial. Tornou-se histórica sua resposta às tentativas de interferência do presidente Médici na equipe: “O presidente escala seus ministros, eu escalo meu time”. A frase simbolizou a defesa da autonomia do futebol diante do poder político e transformou Saldanha em um dos personagens mais marcantes da história esportiva brasileira.
A Copa de 1970 foi, ao mesmo tempo, uma extraordinária conquista esportiva e um episódio profundamente ligado à realidade política do país. Enquanto milhões celebravam os gols e as vitórias da seleção, milhares de brasileiros resistiam à repressão, lutando pela democracia e pela liberdade. Recordar essa história é compreender que, por trás da imagem de um Brasil campeão do mundo, existia também um Brasil que enfrentava a censura, a perseguição e a violência de um regime autoritário.
Para saber mais
A relação entre futebol, ditadura militar e resistência política é um tema que continua despertando debates e pesquisas. Para quem deseja aprofundar seus conhecimentos sobre esse período da história brasileira, seguem algumas sugestões:
Documentários
Memórias do Chumbo – O Futebol nos Tempos do Condor (2012), de Lúcio de Castro.
Democracia em Preto e Branco (2014), sobre a Democracia Corintiana e a luta pela redemocratização.
João Saldanha (Canal Curta!), dedicado à trajetória do jornalista, técnico e militante comunista conhecido como João Coragem.
Livros
1964: A Conspiração Silenciosa – Marcos Aurélio Gomes Ribeiro.
Os Subterrâneos do Futebol – João Saldanha.
Futebol e Política: A Construção de uma Identidade Nacional – José Paulo Florenzano.
O Negro no Futebol Brasileiro – Mário Filho.
Série
“Brasil 70: A Saga do Tri” – Netflix
Filmes
Pra Frente Brasil (1982), dirigido por Roberto Farias, clássico do cinema brasileiro sobre a repressão política durante a Copa de 1970.
Batismo de Sangue (2006), sobre a resistência à ditadura militar.
Zuzu Angel (2006), baseado na história da estilista que enfrentou o regime após o desaparecimento de seu filho.
A Copa de 1970 permanece como um dos maiores momentos do futebol mundial. Mas compreender aquele período exige olhar além dos gramados, reconhecendo as contradições de um país que celebrava vitórias esportivas enquanto enfrentava a censura, a perseguição política e a luta pela democracia. Como ensinava João Saldanha, o inesquecível João Coragem, o futebol jamais esteve separado da sociedade e da história.
Marcos Aurélio Gomes Ribeiro – Professor de História contemporânea do Brasil
Instagram @Marcoszadoque
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