Por Tali Feld Gleiser, para Desacato.info.
“Ataque, ataque, ataque. Nunca admita nada. Nunca peça desculpas.” A frase não é apenas uma caricatura do trumpismo. Ela resume uma cultura política que atravessou décadas e hoje reaparece com força na extrema-direita internacional. O episódio protagonizado por Javier Milei, ao insultar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante o lançamento da candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, é menos um rompante emocional do que a aplicação consciente de um método.
Esse método tem nome, história e genealogia.
Muito antes de Donald Trump transformar a provocação em espetáculo político, Roy Cohn já havia convertido a agressividade em instrumento de poder. Advogado do senador Joseph McCarthy durante a caça às bruxas anticomunista dos anos 1950, Cohn participou de um dos períodos mais sombrios da democracia estadunidense, quando acusações sem provas, campanhas de difamação e perseguições políticas destruíram milhares de vidas. Décadas depois, tornou-se mentor jurídico e político de um jovem empresário do mercado imobiliário de Nova York chamado Donald Trump.
Mais do que ensinar técnicas jurídicas, Roy Cohn transmitiu uma filosofia de combate político. Suas regras eram simples: atacar sempre; jamais admitir um erro; e, quando confrontado, responder com um ataque ainda maior. A verdade deixava de ser o centro da disputa. O objetivo passava a ser ocupar o espaço público, desorientar adversários e transformar qualquer crítica em combustível para fortalecer a própria base política.
Trump transformou essas lições em método de governo. Javier Milei parece ter feito o mesmo.
Sua presença em território brasileiro para participar de um ato eleitoral já representava uma quebra importante da tradição diplomática entre dois países cuja história recente foi marcada pela construção paciente de mecanismos de cooperação. Brasil e Argentina não são apenas vizinhos. Compartilham cadeias produtivas, infraestrutura, intercâmbio científico, integração energética, milhões de empregos e um destino regional profundamente entrelaçado.
Ainda assim, Milei optou por utilizar o palco político para insultar o presidente brasileiro. Não se tratava de uma crítica às políticas do governo Lula nem de um debate sobre modelos econômicos. Foi um ataque pessoal dirigido ao chefe de Estado do principal parceiro comercial da Argentina, realizado em solo brasileiro e durante um evento de campanha eleitoral.
Em qualquer tradição diplomática minimamente consolidada, um gesto dessa natureza tende a produzir esforços posteriores de contenção de danos. É justamente aí que aparece o método de Roy Cohn.
Em vez de reduzir a tensão, Milei resolveu ampliá-la. Horas depois, afirmou, sem apresentar evidências, que parte da campanha considerada “anti-Argentina” nas redes sociais durante a Copa do Mundo teria sido financiada pelo próprio Brasil. A acusação não veio acompanhada de documentos, investigações independentes ou qualquer elemento verificável. Ainda assim, cumpria perfeitamente a sua função política: deslocar o debate, alimentar a polarização e oferecer à própria base uma narrativa de perseguição externa.
Não importa se a afirmação resiste aos fatos. O objetivo nunca foi nem será demonstrá-la, mas utilizá-la como arma política.
Essa lógica constitui um dos traços mais característicos da extrema-direita contemporânea. A política deixa de buscar consensos mínimos e passa a depender da produção permanente de inimigos. Cada crise precisa ser sucedida por outra. Cada conflito exige uma escalada adicional. O recuo é interpretado como derrota. O pedido de desculpas converte-se em sinal de fraqueza. A moderação passa a ser vista como traição.
É exatamente essa engenharia do conflito permanente que Roy Cohn ensinou a Donald Trump e que hoje reaparece, com impressionante fidelidade, em diferentes lideranças da extrema-direita global.
Não se trata apenas de afinidades ideológicas. Existe uma circulação internacional de métodos políticos. Trump, Milei, Bolsonaro e outros dirigentes compartilham uma gramática comum: desacreditar instituições, transformar adversários em inimigos existenciais, substituir argumentos por insultos e converter a indignação permanente em ferramenta de mobilização política.
A consequência mais grave dessa estratégia talvez não seja o insulto em si, mas a corrosão das relações entre povos que continuarão convivendo muito depois que esses governantes deixarem o poder.
A América Latina e o Caribe conhecem o preço da fragmentação. Durante séculos, interesses externos prosperaram explorando rivalidades entre países que compartilhavam desafios semelhantes. Presidentes passam. Povos permanecem.
A atitude de Milei representa algo maior do que um incidente protocolar. Ela expressa uma concepção de política na qual o conflito deixa de ser consequência de divergências para tornar-se objetivo permanente. O diálogo é substituído pelo espetáculo (grotesco). A cooperação cede lugar à provocação. A política externa transforma-se em extensão da guerra cultural.
Talvez essa seja a principal herança de Roy Cohn para a extrema-direita do século XXI: não apenas ensinar a vencer debates, mas convencer líderes de que governar significa permanecer em campanha permanente contra adversários internos e externos. Ao transformar o conflito em método de governo, essa estratégia também facilita a ingerência de potências estrangeiras e de projetos geopolíticos imperialistas e sionistas, como está acontecendo no nosso continente.
A América Latina necessita de menos Roy Cohn e mais Bolívar, San Martín, José Martí, Paulo Freire, Darcy Ribeiro, Lélia Gonzalez, Silvia Rivera Cusicanqui, Julieta Paredes, Nina Pacari e Berta Cáceres, entre muitos outros e outras. Mulheres e homens que compreenderam que a nossa independência permanece inacabada enquanto persistirem o racismo, o colonialismo, o patriarcado, o classismo e a exploração econômica. Todos eles, por caminhos distintos, ensinaram que a liberdade nasce da solidariedade entre os povos, da justiça social e da construção paciente de uma forma de governo que reconheça o direito de governar, considerando os interesses dos povos e a sua autodeterminação.
Insultar presidentes pode render manchetes, aplausos e curtidas. Mas não construirá escolas, não produzirá ciência, não reduzirá desigualdades, não fortalecerá a soberania regional nem aproximará argentinos e brasileiros da segunda independência latino-americana. A história, porém, sempre exige uma escolha. Cada geração decide de qual lado pretende caminhar. E essa decisão define o presente e o futuro de toda a América Latina e o Caribe.
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