Por Francisco Fernandes Ladeira.
Em minha recente participação na Live Cinegnose 360, ao lado do professor Wilson Ferreira, tive a oportunidade de promover uma reflexão crítica sobre os desdobramentos da Copa do Mundo, a cobertura do jornalismo esportivo e os mecanismos de engenharia de opinião pública no Brasil. Nosso debate concentrou-se nos sintomas socioculturais que emergiram após a eliminação da seleção brasileira e a consolidação do protagonismo argentino, revelando como a imprensa e as redes sociais instrumentalizam o esporte em busca de engajamento.
Um dos pontos centrais da nossa conversa foi a análise do que podemos classificar como “xenofobia do bem” – o preconceito socialmente chancelado. Enquanto o discurso hegemônico condena o chauvinismo em abstrato, abre-se um claro salvo-conduto quando o alvo é a Argentina. Preconceitos velados, estereótipos generalizantes e julgamentos morais passaram a ser reproduzidos com naturalidade – muitas vezes travestidos de superioridade ética, virtude e engajamento político.
Essa postura deriva de um profundo ressentimento em relação ao futebol argentino. Incapazes de encarar a decadência da gestão futebolística nacional e o distanciamento da própria seleção, setores da mídia e do público projetaram no vizinho sul-americano a sua frustração. É exatamente nesse ponto que a análise se cruza com a hegemonia do discurso identitário e os meandros da cultura do cancelamento: passou-se a aplicar um tribunal moral inquisitorial sobre o futebol e a sociedade argentina, no qual nuances históricas, complexidades sociais e aspectos culturais são sumariamente ignorados para justificar uma condenação em bloco.
Sob a justificativa da “defesa de virtudes”, a lógica identitária passa a chancelar uma espécie de passe livre para o linchamento virtual, o cancelamento moral e a interdição do debate. Chegou-se ao cúmulo de ver setores da própria esquerda capitanearem teorias da conspiração, classificando a Argentina como a “seleção do sionismo”, marionete da máfia ou do sistema global. O duplo padrão alimentado por essa cultura do cancelamento e do patrulhamento estético/moral ficou escancarado no tratamento a Lionel Messi: embora tenha mantido exatamente a mesma postura da Copa anterior (quando foi elogiado), o jogador passou a ser alvo de ataques orquestrados e reações desmedidas assim que as comparações com Pelé surgiram no ecossistema esportivo.
Para se ter uma ideia do alcance desse discurso anti-Argentina no cotidiano, citei durante a entrevista um episódio marcante em sala de aula: durante uma palestra de uma intercambista mexicana para meus alunos do ensino médio, uma das estudantes perguntou à palestrante se no México “também não gostavam de argentinos”. A resposta positiva não deixou dúvidas sobre como a “xenofobia do bem” não escolhe nacionalidade, espalhando-se como um afeto coletivo chancelado pelo senso comum.
Analisar a Copa do Mundo a partir da lente trazida no Cinegnose 360 demonstra que o esporte vai muito além do placar do jogo. Compreender o espetáculo contemporâneo exige decifrar o uso do futebol como ferramenta de soft power, desmontar as armadilhas do moralismo identitário e mapear como as bombas semióticas da mídia instrumentalizam ressentimentos para tentar guiar a (mal-chamada) opinião pública.
Francisco Fernandes Ladeira é pesquisador de pós-doutorado -IFMG- campus Ouro Preto, Doutor em Geografia pela Unicamp. Licenciado em Geografia pela Universidade Presidente Antônio Carlos (Unipac). Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ).
A opinião do/a/s autor/a/s não representa necessariamente a opinião de Desacato.info.
Descubra mais sobre Desacato
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.





