Por Francisco Fernandes Ladeira.
Recentemente, tive a oportunidade de ir ao canal “Da Prática Política” para um debate com o apresentador Cláudio Porto sobre o encerramento da Copa do Mundo, o (péssimo) desempenho da seleção brasileira e os bastidores que envolvem o futebol contemporâneo. Durante a nossa conversa, pude detalhar as reflexões que venho desenvolvendo, sobretudo a respeito daquilo que o professor Wilson Gomes Ferreira chama de pós-meritocracia no futebol.
Historicamente, o esporte mais popular do planeta foi um dos raros ambientes da nossa sociedade no qual a meritocracia funcionava de certa forma: o atleta jogava porque sabia jogar e entregava resultados dentro das quatro linhas. No entanto, o cenário atual aponta para uma ruptura.
O caso da convocação e da presença do Neymar na seleção brasileira exemplifica perfeitamente como o futebol abraçou a pós-meritocracia. Hoje, o valor de um atleta muitas vezes deixa de ser medido pelo seu ritmo técnico ou pela sua performance em campo e passa a ser ditado pelo seu peso midiático, seu alcance como influenciador digital e sua capacidade de gerar engajamento e cortes para as redes sociais. Em muitos momentos, o story do Instagram parece ter se tornado mais relevante do que os noventa minutos do jogo em si.
Essa dinâmica não está isolada. Ela se conecta diretamente a uma transformação cultural mais ampla do capitalismo tardio, fortemente marcada pela expansão das casas de apostas (bets), pelo avanço das lógicas de rentabilidade rápida e pelo discurso coach. Diante da desilusão da juventude com o mercado de trabalho tradicional, a promessa de enriquecimento por meio de “passes de mágica” substitui a ideia do esforço contínuo. O futebol, naturalmente, absorve esse espírito do tempo, transformando atletas em garotos-propaganda desse ecossistema.
Por fim, também aproveitei o espaço para discutir como a polarização política brasileira atravessa o campo de jogo. Tudo no Brasil contemporâneo tem sido absorvido pelas bolhas das redes sociais, transformando análises esportivas em disputas ideológicas e narrativas fervorosas. Embora seja inegável que a geopolítica exercera papel de soft power nas grandes competições, precisamos evitar o simplismo de reduzir o jogo de futebol a uma mera caricatura das relações internacionais ou da nossa política interna.
Link da live:
Francisco Fernandes Ladeira é pesquisador de pós-doutorado -IFMG- campus Ouro Preto, Doutor em Geografia pela Unicamp. Licenciado em Geografia pela Universidade Presidente Antônio Carlos (Unipac). Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ).
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